14 de mar de 2007

A Máquina Lírica 2



Nem sempre me incendeia
o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.
- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado
de silêncio diurno,
a noite imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem
meus corações de sal e de brandura.

Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz
como a espada se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distãncia amarga,
a lua estiola, a paisagem regressa ao ventre,
tempo se desfibra - invento para ti a música,
a loucura, e o mar.

Toco o peso da tua vida: a carne que fulge,
o sorriso, a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos
com mesa e harpa.

Vou para ti com a beleza partida,
os ombros violados,
o sangue penetrado de paredes nuas.

Digo: eu sou a beleza,
seu rosto e seu durar.
Teus olhos se transfiguram,
tuas mãos descobrem
sombra da minha face.
Agarro tua cabeça áspera e luminosa,
e digo: ouves, meu amor?
eu sou aquilo que se espera para as coisas,
para o tempo
Inteira, tua vida o deseja.
Para mim se erguem teus olhos de longe.
Tu própria me duras
em minha velada beleza.
A Máquina Lírica
Poesia Toda
Herberto Helder

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