29 de dez de 2010

Don Quijote























Molinos en Consuegra,Toledo.

“…Cuántas veces, Don Quijote, por esa misma llanura,
en horas de desaliento así te miró pasar…
y cuántas veces te gritó: “Hazme un sitio en tu montura
y llévame a tu lugar.
Hazme un sitio en tu montura,
caballero derrotado,
hazme un sitio en tu montura,
que yo también voy cargado
de amargura
y no puedo batallar.
Ponme a la grupa contigo,
caballero del honor,
ponme a la grupa contigo
y llévame a ser contigo,
contigo pastor…”


Joan Manuel Serrat
En “Vencidos”

27 de dez de 2010



“A la rosa y a la nieve,
alguien oyó lamentarse

Por Dios que salga el sol
Rogó la rosa al frío amanecer
Porque necesito del calor
Si no mis hojas van a perecer

La nieve la miró
Y dijo ten un poco de piedad
Cuando salga el sol me muero yo
Y quiero estar contigo un poco más

¡Un vaquero que pasó
Un dia frente al rosal
Y en un charquito encontró
A la flor sin color, deshojá!"

Manuel Pareja Obregón

5 de dez de 2010















"A arte me parece ser um estado de alma
mais do que qualquer outra coisa "

Chagall

Formas





















Há sempre uma madrugada
em que os candelabros de ouro enaltecem
as tuas formas,
a tua alquimia de pecado e volúpia,
há sempre,
no teu sorriso breve,
uma brisa que regressa do mar,
trazendo o lamento dos náufrafos,
a sua sede irremediável.
Nestas horas de assassinada alegria
ergues os braços e uma súplica,
mas ninguém te ouve, ninguém te vê,
encerrada numa túnica de cores puras.

{José Agostinho Baptista}

24 de nov de 2010























"Eu adoro andar na chuva,
porque ninguém sabe
que eu estou chorando."

(Charlie Chaplin)

23 de nov de 2010

Noites Silenciosas


Junto as letras
em tresloucada
esperança
de encontrar-te
nas entrelinhas
dos sentimentos

Penso em ti
no teu rosto secreto
no teu nome de brisa
e sal
na tempestade
que causas em mim
nas noites silenciosas

Atravesso o mar
de mistérios
da tua pele
e cravo na alma
arco-íris de cores
borboleta invisível

Serra de estrelas e de sonhos

13 de nov de 2010












"Ahora entiendo
que cerrar los ojos
es esperar
que tu estés
a mi lado
al abrirlos"

1 de nov de 2010

Amantes



























Amantes
inebriados
cruzam
o céu escarlate
e azul

Balançam
em nuvens
douradas
lançando
gotas milenares
de paixão e luz
Em seus loucos caminhos
de horizotes inteiros
sussurrando baixinho
poemas de amor
em lençóis brancos
de puro linho
 
Vênus

19 de out de 2010
















Dizes: põe nos meus os teus dedos
e passemos os séculos sem rosto,
apaguemos de nossas casas o barulho
do tempo que ardeu sem luz.

Sim, cria comigo esse silêncio
que nos faz nus e em
nós acende o lume das árvores de fruto.

Diz-me que há ainda versos por escrever,
que sobra no mundo
um dizer ainda puro...

Vasco Gato

8 de out de 2010

Delírio















Na tênue
linha do tempo
e espaço que
me separam de você

Na doce ilusão de sentir
seu toque
sem sua presença
meu corpo
vibrando no ar

Sentindo

Intensa ternura
desviando-me
do mundo real

Sonhando

Contorno seu corpo
num ângulo perfeito
para o delírio do meu

Borboletas envolvem
nossos gestos
com doces loucuras
que só o amor
pode criar

Vênus

5 de out de 2010


















A uma luz perigosa como água
De sonho e assalto
Subindo ao teu corpo real
Recordo-te
E és a mesma
Ternura quase impossível
De suportar
Por isso fecho os olhos
(O amor faz-me recuperar incessantemente o poder da
provocação. É assim que te faço arder triunfalmente
onde e quando quero. Basta-me fechar os olhos)
Por isso fecho os olhos
E convido a noite para a minha cama
Convido-a a tornar-se tocante
Familiar concreta
Como um corpo decifrado de mulher
E sob a forma desejada
A noite deita-se comigo
E é a tua ausência
Nua nos meus braços


Alexandre O´Neill

1 de out de 2010


















Talvez assim ela reencontre o corpo

da sua ténue nudez tão gratuita e tão leve

e sendo apenas um sopro que atravessa as imagens

as desnude até serem vagas luas

sobre a maré branca de um silêncio iluminado

pelo seu abandono ao corpo que deseja.



- António R. Rosa

25 de set de 2010

A Procissão


















-Mãe, estou cansado.

-Para de jogar bola meu filho, entra, toma um banho e vem tomar café.

A casa simples de madeira e chão batido de 3 cômodos é limpa e simples, os poucos móveis mantém a dignidade do lugar.

O vento cai leve junto com a tarde, o sol doura suas últimas cores, a morna brisa e o cheiro de pão caseiro tornam o ambiente aconchegante e acolhedor.

Meu filho mais novo, Antônio, um menino gorduchinho, alegre e ativo nunca para. Desde o amanhecer sai para brincar na rua, no gramado ao redor de casa, os cabelos louros e encaracolados brilham a sol, traz nos olhos ternura e ao mesmo tempo pressa de fazer tudo, não gosta de dormir, quer brincar, andar no meio dos animais, tomar banho de rio, andar atrás dos dois irmãos mais velhos, de mim ou do pai.

Passamos por grande dificuldade financeira, Silva foi vender uns bezerros para ver se arranja alguma dinheiro, precisamos de roupas e remédios. O inverno vem aí e as crianças estão precisando de roupas quentes.

Aos domingos é sagrado. Missa, almoço em família, tarde livre. A família toda em casa.

-Domingo que vem será especial. Será procissão de Nossa Senhora de Fátima, santa a que sou devota fervorosa e fiel. Quero todos na missa comigo.

Todos concordam.

Na segunda-feira a tarde estava terminando de colocar o pão no forno do fogão a lenha quando Antônio apareceu na porta. Como de costume vem correndo para na porta e fala:

-Mãe, estou cansado.

Nos seus quatro anos de vida ele nunca ficou doente. Mas hoje notei algo diferente. Os olhos caídos e o rosto muito vermelho. Não foi para o banho como de costume. Jogou-se no chão e ficou ali.

Fui correndo atendê-lo, algo estava errado. Mal encostei nele senti o corpo quente, ardendo em febre.
Levei-o para a cama no meu quarto. Busquei água morna e lavei rapidamente os pezinhos,a s mãos e o rosto.

-Jorge, vá rápido chamar o médico.

Jorge saiu apressado, já chorando. Ninguém fica doente aqui eem casa e uma dor de dente ou febre põe todos em pânico.

Logo o médico chega, receita um colher de um remédio que não conheço dissolvido em um copo de água, duas vezes ao dia, rodelas de pepino ou batata colocadas na testa e trocadas de vez em quando por rodelas fresquinhas para baixar a febre.

-Pode me chamar a qualquer hora, mas isso não é nada. É uma febre apenas.

Disse o médico com muita certeza. E foi embora.

Logo toda a família estava ao redor da cama, os irmãos com olhar de preocupação, o pai querendo disfarçar o nervosismo apenas olhava o filho de vez em quando sem nada dizer.

A febre baixou durante a noite, mas ele continua na cama, sem forças, fraco, molinho, a dobrinhas de gordura murcharam, os olhos vivos e alegres estão apagados e sonolentos.

Ele apenas diz:

-Mãe eu quero ir na procissão domingo.

-Sim meu filho, vamos todos juntos. Vamos rezar para Nossa Senhora e ela vai curar você.

Ajoelhei-me diante da santa que tenho no meu quarto, em cima da penteadeira, chorei e rezei pela saúde do meu filho.

A semana passou sem grandes melhoras, a febre sumiu mas ele continuou fraco e sem ânimo.

Sábado a noite a febre voltou. Medicamos segundo a indicação do médico, mas a febre não baixava.
Passamos a noite cuidando dele e preocupados com sua saúde, não existe hospital aqui. Somente um médico e mais nada.

Amanheceu o dia e nada de melhora. Próximo a hora da procissão Antônio me chamou:

-Mãe a senhora não vai na procissão?

-Não meu filho, vamos ficar aqui rezando para você melhorar.

Quando a santinha passar você vai ficar bom.

-Mãe, eu queria tanto ir.

Os olhos grandes e lentos, as mãozinhas quentes em vima do peito, os canhinhos desfeitos pelo suor da febre, a respiração lenta como água de Rio em tarde de outono. O menino lutava contra a sonolência da febre dormente para se manter acordado. Logo ouviu a voz dos irmãos.

-Mãe a santinha está passando.

Do quarto de Antônio ouvíamos as cantorias e orações. Quando a santa passou em frente a nossa porta Ântonio adormeceu profundamente.
Senti que a frebre baixou, Antônio dormia tranquilamente. Continuei rezando aos pés da cama. Pedia a Nossa Senhora que o libertasse daquela enfermidade.

Quando ouvi a procissão voltando, passando novamente na porta de casa olhei para Antônio e senti ele suspirar muito fundo e de repente seu semblante ficou em paz. Parecia sorrir.

Ele faleceu na hora em que a santa passou em frente a casa. Como ele queria foi embora junto com a santinha que ele adorava tanto.

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*O médico foi chamado novamente.

Achou estranho que o remédio não tivesse causado nenhuma melhora.

-A senhora dava que dose para o menino?

-Uma colher cheia pura, duas vezes ao dia.

O médico jogou-se numa cadeira ao lado da cama, levou as duas mãos a cabeça.
Seu olhar era de desolação, pesar e perplexidade.
Ele sabia que o remédio nessa dose para uma criança é puro veneno.

Foi embora sem nada dizer.

7 de set de 2010

Sem Saída!!!














O apartamento espaçoso dava a impressão de ser assim por não ter quase nada dentro, apenas o suficiente, a campainha não parava de tocar e foram chegando homens, garotos, meninos.
O apartamento de repente ficou pequeno, todos conversam e bebem, outros se trancam na cozinha o que me deixa muito curiosa.

Raquel, mora comigo no apartamento, eternamente apaixonada pelo Mário, está fazendo este encontro para despedida dele.

Vai morar na França.
O Brasil ficou pequeno demais para ele, não o Brasil, a mente das pessoas do Brasil.
Ele é o que posso chamar de artista, nasceu para ser estrela, famoso, diferente, charmoso, sedutor e gay ou bissexual, não sei.
Tenho as minhas dúvidas quando a ele. Raquel dorme com ele e nada acontece.

Um tempo atrás eu estava na cozinha preparando um lanche, ele chegou por trás e me agarrou me deu um beijo tão louco e bom, me envolveu com aqueles braços finos e longos, os cabelos loiros cobrindo parte do rosto e um cheiro de menino que me tiraram o fôlego.  Depois voltou para a sala com os olhos mais inocentes do mundo.
Ah! Os homens!

Como eu não conhecia ninguém na festa fiquei no meu quarto lendo por algum tempo. Um deles veio me chamar. Léo, loiro, alto e muito engraçado, não resisti ao convite e me juntei ao pessoal na festa.
Vi que a cozinha estava fechada e quando abri a porta me surpreendi com uns quatro homens ao redor de um prato com várias carreirinhas de um pó branco, claro que percebi que era cocaína.

-Você quer?
-Não , obrigada. Só vim procurar um copo.

Nunca usei drogas, as não ser aquelas coisas secretas e inocentes que as adolescentes fazem junto com as amigas.
Escondidas no quarto eu e Raquel fumamos um cigarro de maconha.
Eu dei uma tragada e não parei mais de rir...achava graça de tudo. O quarto dela passou a ser engraçado, o rosto de Raquel ficou torto e sorria sem parar.
Nunca mais quis ficar sorrindo como um palhaço movido a pilha. Muito menos quero pagar o mico de ficar sorrindo sem parar na frente das pessoas. Lembrei do Coringa do filme Batman.

Num outro dia uma amiga que morava no mesmo prédio que eu veio me visitar, véspera de carnaval. Ela me deu um pouquinho de lança-perfume. Disse que eu só sentiria algo bom, que ninguém veria.

Experimentei. E Experimentei o gozo mais forte que já senti em toda a minha vida.
E nunca mais usei, ficava imaginando eu tendo um gozo no meio de um salão no meio da multidão no carnaval. Achava tudo engraçado. Mas sabia dos riscos e sabia que se entrasse no mundo das drogas e definhasse ninguém iria na sarjeta me salvar. A minha vida depois que saí da casa dos meus pais era eu e mais eu...e só.
Mas vendo toda aquela droga circulando no meio do meu apartamento me senti mal. Léo percebeu meu desconforto e me chamou para conversar na janela do apartamento.
Outras pessoas se juntaram a nós para ver a "máquina" que é o carro dele.
Um Landau azul piscina, todo equipado, lindo, estacionado na rua em frente ao prédio.

-Carro do meu pai, peguei escondido para sair hoje. Ele foi dormir cedo, quando acordar o carro já vai estar na garagem como ele deixou.

Aquele homem parecia um menino arteiro e eterno filhinho de papai.
Raquel chegou na sala com o tradicional bolo de aniversário com uma velinha em cima, um bolo simples que foi recebido como um banquete.
Mário apagou a velinha, cortou o bolo, distribuiu champanhe, olhares sorrisos.
A estrela da noite.

Fui para janela olhar a noite, a rua, pensar. Não me sentia muito confortável.
Mário veio me dar um abraço apertado.
-Vou sentir saudades, não esqueça de mim.
Eu sabia que nunca mais o veria.
Léo se juntou a nós na janela do apartamento e olhou para baixo. O carro dele estava lá. Continuamos os três conversando de repente Léo aponta o dedo para a rua em frente o prédio e aos pulos começa a gritar:
-Meu carro, meu carro, levaram o meu carro! Meu Deus, meu pai vai me matar. Chamem a polícia, me ajudem. O cara está levando meu carro.

Todos correram para a janela e olhavam incrédulos o carro azul deslizar suavemente pela rua que fica em frente ao prédio num terreno mais alto.
Léo não gritava mais. Só apontava o dedo desesperado imaginando já ver o carro desaparecer na curva no final da rua.

Rua sem saída.

O ladrão não conhecia o local, fez a volta com aquela banheira difícil de manobrar e voltou pela mesma rua.

-Olhem, ele voltou, o que faço? Me ajudem?

Mas todos continuavam incrédulos com a cena. O ladrão roubou o carro e não sabia que aquela rua não tinha saída, fez a volta e sumiu na noite escura.
Chamaram a polícia.
Era o que me faltava, quero distância da polícia e ver um policial na minha porta numa situação daquelas com drogas dentro do apartamento não era uma situação agradável.

O policial tocou a campainha, atendi, séria, ele também.
Perguntou quem é o responsável pelo apartamento. Respondi que sou eu. Ele fez mais algumas perguntas e mandou que Léo fosse a delegacia mais próxima fazer um boletim de ocorrências e foi embora para meu alívio.
Só me faltava ser presa por porte de drogas. Ou ser envolvida em algo desse tipo se nem uso nada disso.
A festa acabou. Todos foram embora.

Na hora de dormir Mário fez um pedido inesperado:

-Posso dormir no meio de vocês duas?
E assim dormimos os três juntos.
Mário no meio, mais parecia um menino indefeso do que um homem com segundas intenções.

No outro dia Léo ligou, o carro foi encontrado num bairro da periferia, com drogas e bebidas no porta-malas.

Mário foi embora.
Foi para Paris.
Nunca mais o vi, nunca o esqueci.

Na manhã do outro dia após a partida de Mário a vida voltou ao normal.
Trabalho, academia, casa.
Abro a porta do apartamento.
Um objeto prateado no chão brilha e chama minha atenção.
Uma das chaves do apartamento.

A chave de Raquel.

Entrei no quarto, procurei por todo o apartamento. Tudo vazio, as poucas coisas dela não estavam, procurei um bilhete, algo.
Nada
Ela sumiu.

Sem se despedir, sem dizer para onde foi, sem um obrigada, sem um desculpa não deixei dinheiro para as despesas, desculpa sair assim depois de tudo o que você fez por mim.

Simplesmente sumiu.

Vênus

6 de set de 2010

Tanta saudade!!!!!


















Sinto saudades de tudo que marcou a minha vida.
Quando vejo retratos, quando sinto cheiros,
quando escuto uma voz, quando me lembro do passado,
eu sinto saudades...

Sinto saudades de amigos que nunca mais vi,
de pessoas com quem não mais falei ou cruzei...

Sinto saudades da minha infância,
do meu primeiro amor, do meu segundo, do terceiro,
do penúltimo e daqueles que ainda vou ter, se Deus quiser...

Sinto saudades do presente,
que não aproveitei de todo,
lembrando do passado
e apostando no futuro...

Sinto saudades do futuro,
que se idealizado,
provavelmente não será do jeito que eu penso que vai ser...

Sinto saudades de quem me deixou e de quem eu deixei!

De quem disse que viria
e nem apareceu;
de quem apareceu correndo,
sem me conhecer direito,
de quem nunca vou ter a oportunidade de ver novamente.


Sinto saudades dos que se foram e de quem não me despedi direito!

Daqueles que não tiveram
como me dizer adeus;
de gente que passou na calçada contrária da minha vida
e que só enxerguei de vislumbre!

Sinto saudades de coisas que tive
e de outras que não tive
mas quis muito ter!
Sinto saudades de coisas
que nem sei se existiram.

Sinto saudades de coisas sérias,
de coisas hilariantes,
de casos, de experiências...
Sinto saudades do cachorrinho que eu tive um dia
e que me amava fielmente, como só os cães são capazes de fazer!

Sinto saudades dos livros que li e que me fizeram viajar!

Sinto saudades dos discos que ouvi e que me fizeram sonhar.

Sinto saudades das coisas que vivi
e das que deixei passar,
sem curtir na totalidade.

Quantas vezes tenho vontade
de encontrar não sei o que...
não sei onde...
para resgatar alguma coisa que nem sei o que é e nem onde perdi...

Vejo o mundo girando e penso que poderia estar sentindo saudades
em japonês, em russo,
em italiano, em inglês...
mas que minha saudade,
por eu ter nascido no Brasil,
só fala português, embora, lá no fundo, possa ser poliglota.

Aliás, dizem que costuma-se usar sempre a língua pátria,
espontaneamente quando
estamos desesperados...
para contar dinheiro... fazer amor...
declarar sentimentos fortes...
seja lá em que lugar do mundo estejamos.


Eu acredito que um simples
"I miss you"
ou seja lá
como possamos traduzir saudade em outra língua,
nunca terá a mesma força e significado da nossa palavrinha.

Talvez não exprima corretamente
a imensa falta
que sentimos de coisas
ou pessoas
que sentimos de coisas
ou pessoas queridas.

E é por isso que eu tenho mais saudades...

Porque encontrei uma palavra
para usar todas as vezes
em que sinto este aperto no peito,
meio nostálgico, meio gostoso,
mas que funciona melhor
do que um sinal vital
quando se quer falar de vida
e de sentimentos.

Ela é a prova inequívoca
de que somos sensíveis!

De que amamos muito
o que tivemos
e lamentamos as coisas boas
que perdemos ao longo da nossa existência...


Clarice Lispector

Quem sou eu?












Gosto dos venenos mais lentos, das bebidas mais amargas, das drogas mais poderosas, das idéias mais insanas, dos pensamentos mais complexos, dos sentimentos mais fortes… tenho um apetite voraz e os delírios mais loucos.

Você pode até me empurrar de um penhasco que eu vou dizer:

- E daí? Eu adoro voar!

Não me dêem fórmulas certas, por que eu não espero acertar sempre.
Não me mostrem o que esperam de mim
por que vou seguir meu coração.
Não me façam ser quem não sou.
Não me convidem a ser igual, por que sinceramente sou diferente.
Não sei amar pela metade.
Não sei viver de mentira. Não sei voar de pés no chão.
Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma pra sempre.

Clarice Lispector

The Big Boss- Velvet




















Dezenas de pessoas reunidas num salão esperando.
Eles chegam. Um deles o mais jovem é extrovertido, alegre, fala mais. O outro, mais sério e de poucas palavras, mais observa do que fala.
De repente o mais observador faz uma pergunta com sotaque paranaense:

-Qual seu manequim? Qual o número de calça que você veste?

Olhei para as meninas ao meu redor, ninguém falou nada, olhei para ele.

-Eu?

-Sim, você de calça rosa.

Corei na hora. Fiquei rosa, carmim. Senti calor, queria ficar invisível. Será que a minha calça justa, rosa, com uma blusinha preta chamou atenção demais? Senão como ele conseguiu me ver no meio da multidão?

-38. Respondi.


Trabalho a noite. É um ambiente elegante, refinado. A maioria dos frequentadores são homens solitários, ou entediados da vida, viciados ou com dinheiro demais na conta bancária.

Meu uniforme é charmoso, camisa branca, calça e colete preto com um lenço no pescoço. Sempre maquiada e perfumada. Meu único pecado é o batom vermelho nos lábios grossos e lingeries provocantes por baixo daquela roupa toda.

Cinta liga com meias 7/8 brancos e sutiã transparente branco. Espartilhos pretos com meias 7/8 pretas. Era um segredinho que me fazia sentir sexy em baixo daquele roupa que só deixava de fora minhas mãos e meu rosto.

Jô o sócio mais jovem da empresa começou a me chamar nos intervalos para conversar. Logo começamos a nos encontrar depois do trabalho, no salão de reuniões beijos secretos e desesperados, recadinhos, carona para casa, olhares, presentinhos. Ninguém desconfiava.

Meu chefe, um homem gordo e arrogante, baixinho e antipático. Logo de início nossos santos não bateram. Ele se insinua para todas as meninas e elas vivem ao redor dele, brincando, conversando, agradando. Eu falo o necessário. O resto do tempo o ignoro.

Isso o deixa furioso. Sinto no olhar dele que ele não engole minha indiferença.

No afã do desejo Jô abre os botões da minha camisa branca e começa a abrir minha calça, me beija, me beija, dobra meu corpo sobre a mesa da sala. Ouvimos um barulho e a porta se abre. Esquecemos de chavear a porta e não deu tempo de me vestir. Os olhos de surpresa e de raiva do chefe "Garcia" estavam vermelhos e ao mesmo tempo não paravam de olhar meu corpo.

Rapidamente Jô foi até ele e falou:

-Não abra o bico com ninguém. Não entre mais aqui sem bater antes. Saia daqui imediatamente.

O chefe "Garcia" saiu furioso. Com certeza vai se vingar de ter sido enxotado, de me ver com o Jô, vai se vingar em mim.

Primeiro ele ficou muito bonzinho até meloso demais, me liberava mais cedo, mudou meu setor, almoçava na mesma mesa que eu para jantar. Mas eu não mudei meu comportamento com ele. Sabia que ninguém muda assim tão rapidamente de casca grossa para um homem gentil e respeitoso. Eu estava esperando o bote.

Três horas da manhã, cansada, louca para tirar o uniforme e ir correndo para casa.
O Jô me levava para casa todos os dias, mas agora estamos mais discretos, o transporte da empresa me leva junto com os outros funcionários.

Estou já sem o uniforme só de lingerie quando ouço a porta bater, naquela hora imagino que é uma das colegas correndo também para se trocar para dar tempo de pegar o transporte.

Abro a porta e dou de cara com o "Garcia". Suando, com o rosto vermelho, camisa aberta até o peito arfante e os olhos estranhos de uma fera faminta.
Ele empurrou a porta da sala de trocar roupas e veio para cima de mim com tudo, tentou me tocar e tirar minha lingerie, com pouca roupa é difícil fugir.
Grito, arranho, mordo aquele corpo branco e enorme até que ouço a voz do sócio da empresa que estava no escritório dele ao lado.

-O que está acontecendo aqui?

Will pegou "Garcia" pelo pescoço, tirou ele de cima de mim, mandou ele ir para casa e que voltasse no outro dia para conversarem. Ele sai mais uma vez escorraçado e furioso de perto de mim. Antes de sair ele olha pra mim e fala:

-Você não tem um caso com o Jô? Pode ter comigo também, qual o problema? Vou contar para todo mundo, vou acabar com você.

Eu fiquei chorando no canto, no chão da salinha só de calcinhas, tentando tapar meus seios com as mãos, tremendo de medo e de frio, raiva, humilhação e impotência.

Will gentilmente me cobriu com seu casaco:

-Vista-se eu espero você aqui fora. Acalme-se.
Eu me vesti e não queria sair da sala, demorei muito até que Will bateu levemente na porta.

-Abra, vamos, você precisa descansar, sair daqui.

Saí da salinha e encontrei Will andando de um lado para o outro, fomos para a sala dele.
Ele avisou ao motorista do transporte que eu iria depois para casa, que ele estava liberado.
Eu não conseguia olhar nos olhos dele, sentia vergonha e não sei mais o quê.
Com a voz grave, tom baixo, calmo ele começou a falar o que eu temia ouvir:

-Olha, você não precisa se preocupar quanto ao seu chefe, ele será demitido amanhã mesmo, mas temos um problema mais sério aqui para resolver.

Quando abrimos a empresa meu sócio e eu combinamos que não haveria envolvimento com nenhuma funcionária. Sou além de empresário, advogado e sei que em muitos casos isso pode virar um processo de assédio sexual. O Jô é uma pessoa boa, não vê maldade em nada, mas é um pouco impulsivo e imaturo. Não sei se você sabe, mas ele tem uma namorada e vai ficar noivo em Maio. Se afaste dele o quanto antes, logo todos saberão, seus colegas podem começar a tratar você mal. Estou falando isso para o seu bem. Você pode contar comigo. Sou seu amigo aqui dentro. Agora vamos, vou levar você para casa.

Aquelas palavras todas me deixaram muito mal. Pior do que eu já estava. Entrei no carro dele, parecia uma nave espacial com tantos botões e luizinhas coloridas, uma voz femina dando os comandos. Só sei que é uma BMW. O carro deslizava silencioso e lentamente pelas avenidas desertas na madrugada. Os sinais piscavam sem parar. Will não falou nada e eu nem consegui imaginar palavra para dizer naquele momento.
Mas me sentia bem ali com ele, a presença segura dele me passava uma calma e segurança que nunca senti antes.
Will parou o carro em frente ao meu prédio. Eu disse obrigada e desci. Ele esperou que eu entrasse no hall para ir embora.

Nas semanas seguintes mudou tudo. "Garcia" foi demitido.
O outro chefe é sério e justo.

Passei a perceber uns olhares diferentes, alguns comentátios pelos cantos, mas não me deixei abater. O mais estranho é que me sentia mais forte. Venci um crápula. Ele levou a pior.

O ambiente de trabalho sofisticado e elegante recebia somente pessoas de alto nível, mas num dos setores notei que um senhor sempre de boné, muito fraquinho e simpático, distribuía balas paras as minhas colegas todos os dias. Hoje estou no setor onde está sua mesa predileta, quase no final do salão, num canto mais reservado.

Atendo-o educadamente. Ele sorri e me oferece uma balinha importada de morango deliciosa.
Eu aceito e agradeço. Ele me chama várias vezes, faz vários pedidos. Quando já estamos quase fechando a casa ele se levanta, chega bem perto de mim e pergunta num sussurro no meu ouvido:

-Você tem pêlos nos seios?

Não respondi nada. Saí de perto dele. Senti meu corpo sendo invandido, senti que enquanto eu trabalho aquele senhor de aparência respeitável me desnuda imaginando como é meu corpo.

Me senti nua.

Quando eu estava chegando na mesa da sala principal onde eu deixo meu material de trabalho para depois subir e trocar de roupas meu colega Luis me entrega um bilhete:

"-Sua boca vermelha, doce veneno." Anônimo.

-Luis quem entregou isto para você?

-Um homem que vem sempre aqui, fica no sala vip. Amanhã mostro ele para você, ele vem todos os dias.

-Obrigada. até amanhã.

Que noite. Que trabalho. Que loucura. Preciso mudar de vida. Sou um objeto, um corpo sendo desnudado e observado a cada movimento. Preciso ir embora daqui, vou procurar um novo emprego. Pensei. Não imaginava o que estava para acontecer.

Nas noites seguintes pedi para mudar de setor, fui para uma parte mais clara do salão perto do buffet onde as senhoras gulosas ficavam para circularem mais facilmente do buffet para as mesas de jogos.

Will me olha, passa por mim e sinto seu perfume me inquietar, inebriar meus sentidos. A lembrança daquela madrugada silenciosa ao lado dele me despertou algo. Talvez o abraço que não recebi e precisava tanto.

Ele me observa de longe, olha nos olhos, está sempre onde estou, passou a participar de eventos dos funcionários que ele nunca particava antes.

Eu atenta a tudo. Só o observo também.

Numa madrugada fria, no final do expediente Will surprende a todos avisando que o jantar no restaurante ao lado da empresa é por conta da casa.

Poucas pessoas puderam participar, já era quatro da manhã. Celinha
minha única amiga na empresa me perguntou:
-Você também está afim dele?
Eu me fiz de desentendida:

-D'ele quem?

-Do Will.

-Capaz!!! Ele nem me vê no meio de tantas mulheres lindas.

-Ele vê sim. Ele está louco por você, todo mundo já notou. Ele é separado, está só. Não tem nada demais você sair com ele.

-Ah! Não! Quero ficar na minha, estou pensando em sair daqui.

Dois amigos nossos chegam ao restaurante. Celinha me convence a sair dali com eles. Quando estou dentro do carro, olho para trás e o vejo seguindo nosso carro com os olhos. Pensei:

-Ele me quer, mas ele deve ter todas as mulheres que deseja, não quero ser mais uma.

Mas eu já estava o desejando também e quando na noite seguinte, no final do expediente ele fez um reunião rápida com os funcionários, reunião inesperada e inédita ás três da manhã eu entendi qual o objetivo dele. Claro que senti uma vaidadezinha me fazer sorrir.

No final da reunião ele pergunta:

-Alguém vai para o centro?

Eu levantei a mão. Só eu.

E assim cruzamos a cidade novamente juntos, novamente pelas ruas desertas, ouvindo música e conversando, parece que eu já estive com ele, que já o conheço há anos. O carro desliza sob uma chuva fina, a mesma chuva que pede um aconhego.

Ele para o carro um pouco mais a frente da entrada do meu prédio.
Olha pra mim, me puxa para os braços dele e me beija pela primeira vez.

Que beijo bom!!!! Como eu desejei este beijo e como negava que desejava!
Tudo nele me envolveu, o beijo, o cheiro, o abraço quente, as mãos suaves e firmes tocando meu corpo.

-Preciso ir.

-Você não precisa ir. Passe o resto da noite comigo. Por favor.

-Eu quero Will, mas não devo.

-Se você quer, vamos. Não deixe de fazer algo que você deseja.

-Você tem razão. Vamos.

Ele ligou o carro, em cinco minutos estávamos no yate dele, âncorado no veleiro perto da minha casa.
Mal conseguimos esperar chegar ao veleiro, meu corpo queimava de desejo do carinho e dos beijos dele.
No yate bebemos wiski cawbói, fiquei um pouco tonta, wisky forte, incorpado.
Nos beijamos na sala, no sofá, ele arrancou toda minha roupa e descobriu minha lingerie sexy, ficou louco!

Fiz amor com ele com tanta paixão, até estranhei, como neguei por tanto tempo o que sentia, por medo de sentir. Quando estava quase amanhecedo fomo para a cama dormir.
O balanço leve do mar, estar ali com ele. Adormeci nos braços dele.

Quando acordei ele estava chegando no quarto do yate com uma bandeija. Nosso café da manhã. Adorei.
Me vesti, ele tbm. O marinheiro dirigiu o yate por toda a beira mar. Deixou-nos no trapiche da beiramar. Lá estava estacionada a BMW. Me levou para casa.
Parecia tudo um sonho. Não queria mais acordar.

O romance continuou por meses e meses. Até que um dia assim que ele me deixou em casa após uma noite maravilhosa decidi que iria sumir da vida dele. Nossos mundos são opostos, ele vive uma vida e eu outra totalmente diferente. Eu levo uma vida simples. Moro com uma amiga e não tenho muitas chances de melhorar rapidamente de vida.

Também sou contra a desigualdade social, muitas coisas que vi enquanto eu estava com ele, na casa dele, no yate dele me fizeram pensar que a maioria das pessoas não imagina como a vida pode ser um sonho bom quando se tem muito dinheiro. Por quê poucos tem tanto, muitos tem pouco, alguns não tem nada.

Mudei no mesmo dia de apartamento, mudei o número do celular e não deixei meu novo endereço com a amiga que divide apartamento comigo.

Eu sei. Fui convarde.

Meses depois encontrei uma amiga, fomos para um café, ela disse que precisava falar comigo.

-Você sabe o que aconteceu com a Rafa?

-Não, depois que saí do apartamento nunca mais falei com ela.

-Ela me procurou, disse que o will andou desesperado atrás de você, que todas as noites, procurava por notícias suas na portaria onde ele havia deixado um recado caso você aparecesse, até que um dia a Rafa vendo que ele estava muito aflito resolveu deixar ele subir e falar com ela. Ela o consolou, ele começou a ir lá mais vezes, acabaram transando uma noite. O que ele não sabia é que ela tinha AIDS.
-Ela morreu no final do mês passado.

-Ele está no hospital, acho que você deveria visitá-lo.
A cada palavra dela eu me surpreendia mais e mais. Da decepção a preocupação, do ciúmes ao entendimento, tudo ao mesmo tempo.

Mandei flores e um cartão:

"Jamais o esquecerei." Velvet
 
 
Vênus

21 de ago de 2010

Ameaça Silenciosa

















Sair do trabalho no meio da tarde é muito bom
Ando no meio da multidão apressada, passo em frente a catedral sempre caminho na última fileira da escadaria assim posso caminhar com meu scarpin sem problemas.
Em 10 minutos estou em casa. Jogo a bolsa em cima da poltrona, vou tirando os scarpins e a roupa e vou direto para o banho.
Ainda estou penteando os cabelos quando o telefone toca insistente.

-Alô?

Ninguém responde.

-Alô, alô?

A pessoa do outro lado da linha não responde e não desliga. Fico em silêncio por um momento tentando ouvir alguma coisa.

Ouço apenas uma respiração abafada e o silêncio.

Desliguei. Quem quer que fosse não queria falar nada. Talvez apenas ouvir minha voz, mas quem?
Meu telefone é novo, de uma operadora nova. Quase ninguém além do pessoal do trabalho tem meu número.

Foi o suficiente para pensar em todas as hipóteses:
Quem faria isso?
Por qual motivo?
Pensei que pudesse ser algum homem interessado em mim que ligou e não teve coragem de falar, uma mulher que tem ciúmes do marido e acha que eu tenho um caso com ele e quer me incomodar, ameaçar, mas uma mulher com raiva não ficaria calada, meu ex-marido, meu ex-namorado, o homem que me assedia no trabalho, um homem que me segue na rua?
Quem?
Meu namorado tem o costume de me ligar para dar um toque apenas para que eu saiba que ele está pensando em mim, eu faço o mesmo com ele. Pode ter sido ele.

Ligo para meu ex-marido. Não foi ele. Para meu trabalho, ninguém de lá havia me ligado. Para meu namorado contei o que houve, não foi ele que ligou.

Deve ter sido algum engano. Volto a minha rotina. No outro dia chego em casa mais ou menos no mesmo horário e o telefone toca novamente.

No primeiro momento fiquei congelada. Não sabia o que fazer. Atendi e não falei nada, fiquei apenas tentando ouvir algo que me ajudasse a identificar de onde estavam falando.

Depois de alguns minutos desliguei. Saí de casa na mesma hora, olhava para trás com a sensação de que alguém estava me seguindo. Fui a uma loja e comprei um identificador de chamadas, voltei apressada e instalei o aparelho no meu telefone. Assim saberia o número de quem estava me ligando.

Sábado e Domingo o telefone não tocou. Pode ser alguém que está ligando para minha casa usando o telefone de alguma empresa.

Penso muito que pode ser meu colega de trabalho. Mas qualquer pessoa falaria comigo, não entendo o silêncio do outro lado da linha.

Na segunda-feira logo que abro a porta do apartamento o telefone toca. olho o número no identificador, não é um número comum, não é da minha cidade, parece ser do RJ ou do exterior.

Pronto. Meu ex-namorado.
Eu o deixei, disse que voltaria mas simplesmente desapareci. E sei que ele anda a minha procura.

Mas meu telefone é novo, como ele poderia saber o número? Se está com raiva ou quer falar comigo qual o motivo do silêncio?

Liguei para a operadora. Me informaram que o número é sigiloso.
Liguei para a delegacia anti-sequestro.

-Você precisa fazer o seguinte: anote todos os dias e horários em que recebe as ligações. Espere a pessoa fazer contato. Se houver alguma ameaça você nos procura.

Passamos horas e horas meu namorado e eu tentando desvendar o mistério. Imaginamos todo tipo de conspiração, vingança, trote, mas nunca chegamos a uma conclusão.

Anotei dia e hora das ligações, sempre por volta das quatro da tarde. Liguei para o número, mas a ligação não completava. Um mês se passou e ainda não identifiquei quem está me ligando.

Hoje vou atender e vou tentar falar com quem está ligando, pode ser que seja alguém precisando de ajuda.

-Alô?
Quem é você?
Posso ajudar em alguma coisa?
Fale comigo, por favor! Se você quer falar comigo estou aqui para ouvir o que você tem a dizer.

Silêncio.

Agora que falei com o desconhecido meu medo foi embora. A curiosidade não.

Uma semana depois, sábado onze da manhã o telefone toca.

Olho no identificador. É ele!

-Alô?

Um ruído alto como se alguém desbloqueasse algo, uma chave virada, um ruído e finalmente uma voz:

Uma voz feminina.

-Alô aqui é do Banco Ibis...


Vênus

16 de ago de 2010

Noiva em Fuga




















Olho ao redor, umas 100 pessoas distraídas não se dão conta da minha presença.
Mães com filhos, garotos conversando, meninas desfilando. Observo tudo como se eu não estivesse ali, como se estivesse vendo tudo através de um espelho.
Observo gestos, olhares, como as pessoas se vestem, como gesticulam, observo os solitários e penso se realmente são pessoas solitárias ou estão ali sozinhos apenas naquela noite.

O solitário, o homem realmente solitário procura estar junto das multidões, é um modo estranho de se sentir vivo, de sentir que faz parte de uma sociedade, de algo maior.
Mas no fundo sabe que é um engano, a solidão está dentro dele, está no olhar triste, na metade amputada de si mesmo, no amor arrancado de seu destino, da tristeza que sente ao ver uma cena real e simples como um casal andar de mão dadas, do namorado que tira alguns fios de cabelo do rosto da namorada.

A solidão está impregnada na alma.
Reconheço logo um deles. Sinto pena. Alguns são tímidos, outros fizeram opções erradas na vida.

Uma senhora na mesa quase ao lado da minha conversa com um jovem que deve ser seu filho. Conversam animados enquanto o lanche é servido.

Ele está de bermuda. Não deixo de notar pernas belíssimas. Logo minha atenção é desviada para um homem que chega e se senta na mesa em frente a minha.
Quando volto a olhar a mãe e o filho sumiram.

Á noite. Bar Ilhéus, toda quinta eu e Karize gostamos de dançar, conhecer pessoas.
Quando vou ao banheiro, sozinha dou de cara com o jovem do shopping. Em segundos tive uma ideia.

-Olá, tudo bom?

-Olá, tudo. De onde você me conhece?

-Nos conhecemos do shopping, você não lembra?

Ele fica desconsertado, não consegue lembrar de mim. Eu acho tudo muito divertido, como um brincadeira de criança que não faz mal a ninguém. Queria experimentar o que sentem os homens quando estão na caça, quando atacam e tentam seduzir uma mulher, quais táticas usam e como se sentem quando conseguem conquistar a eleita do momento.

Ele certamente não lembra de mim, mas finge que conhece. Entra no meu jogo de sedução.

E se entrega.

Vamos dançar juntos, ele passou a noite me olhando e falando:

-Puxa mas como pude não lembrar de uma garota como você.

Namoramos um três meses e nada de sexo. Era muito divertido nosso relacionamento, mas quando chegávamos no meu apartamento ele ficava só no beijo e me deixava pensando.

-Ou ele tem alguma problema ou é diferente de todos os outros homens que conheço. Os outros mal ficam sozinhos comigo logo querem me devorar.

Um tarde de Domingo fomos passear de Bug, ele estava como sempre carinhoso, paramos numa praia em Coqueiros para ver o mar.
Ficamos dentro do carro, sentindo o sol olhando o mar e ouvindo Marina Lima.
Então ele me disse:

-Adoro você, mas preciso falar algo muito sério.

Ficou muito sério e imaginei algo muito grave.

-Eu sou gay. Por isso nunca tivemos sexo, eu não consigo. Adoro você, adoro estar com você. Sinto sua falta, penso em você todos os dias, mas não quero iludir você mais.

Minha reação foi fingir que estava tudo bem.

-Tudo bem, Marcelo. Ficamos amigos, eu também adoro estar com você. Vamos nos encontrar sempre só que daqui pra frente como amigos.

Mas não fiquei bem não. Passei algumas semanas tentando entender o que aconteceu, como eu não notei nada. Como pude ser tão cega ou ingênua.

Depois de semanas de luto resolvi deixaria um no amor curar aquela dor. Conheci o Marcos.
Nunca gostei dele. Nada a ver comigo, mas é engraçado, quando menos gostamos dos homens, mais eles se sentem atraídos.
Conheci a família dele e logo depois, dois meses de namoro ele me pede em casamento.

Eu não quero festa, nem vestido branco, nada. Quero apenas viver com ele.

No dia combinado o interfone toca insistente.
Minhas malas todas no meio do apartamento.
Pensei no perfume dele que me causava enjoo, um perfume verde Sr N.
Pensei que passaria o resto da vida ao lado dele sem amá-lo.

Atendi o interfone e disse que não queria mais. Ele ficou enfurecido, tive que chamar a polícia. Logo o escândalo estava resolvido.
Desfiz as malas e comecei minha saga de Noiva em Fuga.

Vênus

12 de ago de 2010


















"Meu amante deve ter um coração de ouro e uma língua com gosto de mel.
Meu amante deve ter paixão como fogo do céu e histórias para contar.
Meu amante deve ter intenções de Stonewall e espírito nômade.
Meu amante deve ter os olhos do oceano e um toque de aranha.
Meu amante nunca deve se contentar com menos ."

8 de ago de 2010

A Outra















Saio do trabalho apressada, sexta-feira. Eufórica, livre para fazer o que quiser. Rose está a minha espera, dividimos o apartamento. Estamos subindo a Rua Tenente Silveira, perto de casa, ouço o som do motor de uma moto que acelera e para quase ao mesmo tempo ao nosso lado.

É ele.
Marcos, dono de uma loja na mesma rua, passo todos os dias por ali, almoçamos juntos algumas vezes, mas algo nele não me faz sentir vontade ir além. Ele é tudo de bom. Meu número. Mas o maldito instinto que tenho me avisa: Vai devagar ele é chave de cadeia.

Não costumo desprezar meus instintos. Então nunca passamos de encontros furtivos, encontros dos quais eu poderia me livrar dele. Território neutro.

Sei que se cair no território dele não resisto. Também sei das minhas fraquezas. Um bom perfume, olhos verdes, aquele jeito meio garoto, meio homem, tentando me seduzir e eu deixando ele pensar que não percebo, é muito bom.

-Olá meninas, tudo bom?

Rose respondeu que sim. Eu apenas sorri.

-O que você vai fazer hoje Velvet?

-Não sei ainda, acabei de sair do trabalho.

Um talvez que o encorajou (adoro esse jogo) ele caiu direitinho.

-Vamos sair hoje, jantar, balada, o que você quiser, o que acha?

-Sim. Pode ser lá pelas 21:00?

-Sim, eu passo no seu apartamento 21:00. Até mais então.

Despediu-se e saiu acelerando a moto sumindo na curva da Av. Rio Branco.

-Que homem! Como você conheceu ele?

Rose fala impressionada com a aparência de Marcos.

-Ele é dono de uma loja quase ao lado de onde trabalho. Falamos quase todos os dias, mas não estou interessada nele.

-Não está? Mas como? Ele é um gato e você já marcou de sair, como vai fazer?

-Não sei, Rose, até em casa penso em alguma coisa.

Em casa, tomei um banho bem demorado, ouvindo música.
Vestida apenas com um roupão de seda cor de vinho tinto, descalça, cabelos molhados. Senti fome.
Na mesa um café sem pressa como gosto, queijo, geleia de morango e pão italiano com suco de laranja.
Rose me olha atenta. Parece querer falar algo.

-E então? Está quase na hora, você não vai se arrumar?

-Quer saber? Não vou.

-Mas o Marcos vem aqui, como você vai fazer? Ele vem pronto para encontrar você.

-Você bem que poderia me ajudar não é Rose? Amigas são para tirar a gente dessas roubadas.

-Sim, mas o que faço? O que falo pra ele?

-Simples. Você diz que esqueci que eu tinha aula de inglês hoje e não pude cancelar. Que peço desculpas, mas hoje não poderei sair com ele.

-Está bem, você que sabe. Mas e se ele entrar aqui, ele vai ver você Velvet.

-Eu me viro.

21:00 em ponto. Sinal de que o mocinho está mesmo interessado. Mas o que ele quer não é o que eu quero. "Hoje".

Rose atende o inter-fone e fala como combinamos. Mesmo assim ele ele insiste em subir.
Eu faço um sinal de ok. Vou para as escadas do edifício.
De repente me vejo só de roupão de seda, descalça, quase nua, escondida na escadaria escura.
Aqui de cima vejo o carro dele estacionado lá em baixo, posso saber quando ele vai embora.

-Ele está demorando demais no apartamento. O que será que aconteceu?

Não sei quanto tempo se passou, sei que foi bastante. Olho para a rua lá em baixo e vejo o carro acender os faróis e sair rapidamente rua abaixo.
Finalmente posso voltar para minha casa, mas estou curiosa para saber o que ele disse.

Abro a porta do apartamento. Senti o impacto do aroma forte e recentemente evaporando no ar. Meu perfume Poison.
A Rose não está na sala, nem no quarto, nem na cozinha, não está.
Em segundos entendi o que aconteceu. Ela saiu com ele e usou o meu perfume.

Sorri.
Passei um bom tempo pensando que Marcos não queria sair "comigo". Ele queria sair com qualquer uma. Queria sexo apenas.
Me senti aliviada por não ser a mulher descartável daquela noite.

No dia seguinte. 10:00 da manhã Rose aparece. Disse que foi uma noite maravilhosa.
Ela não é uma mulher bonita e uma noite dessas deve ser algo inesquecível, não deve pensar que foi apenas mais uma. Eles nunca mais saíram juntos.

Marcos nunca mais me procurou. Acho que entendeu que eu entendi. Acho que entendeu que o que ele quer no momento não é o que eu quero.

Mas um dia desses...quem sabe.

Um dias desses em que o sexo casual não deixar um vazio gigantesco na manhã seguinte, que a ligação que não vem não me faça sentir usada, ou que me faça pensar que não agradei o mocinho, o inquietante segundo encontro quando os olhos parece já conhecerem nossa alma, onde o charme e o encanto tem apenas dois rumos certos: ou cresce de vez e explode em paixão ou se esvai como o nevoeiro quando o sol aparece, poderoso e imbatível.

Fiquei com a solidão das ondas batendo nas rochas, fiquei com o pensamento longe....além-mar.

Vênus

22 de jul de 2010

O Triângulo













-Por favor, pegue o “LP” do Pat Metheny. Está naquele balcão.
Meu olhar deve ter sido engraçado, tipo: - ”what????”
Nunca ouvi falar desse cara. A gerente com cara de sabe tudo viu meu olhar perdido e falou:

-Está junto com os clássicos.

Nossa grande ajuda! Chopin, Bach, Mozart, Erick Satie, Beethoven, Debussy, Vangelis, Vargo e nada de achar o tal “Pat Metheny”. Senti que fui diminuindo de tamanho, devo ter ficado com um metro e meio de altura. Olho para o caixa e vejo que o cliente já pagou a conta e olha em minha direção. Corei.

Então, como uma manada de búfalos que passa arrasando tudo ela veio com seu salto alto e seu nariz empinado, arrogante. Com um só gesto humilhante puxou o maldito LP de capa branca. Uma capa toda branca, que falta de imaginação! E o nome que jamais esquecerei “Pat Metheny”.
Quando o cliente saiu pela porta eu me tranquei no quartinho escuro dos fundos e chorei, chorei me sentindo humilhada e ferida, me sentindo burra e inútil.

Eu sei o motivo dessa implicação comigo. A gerente Léa tem um caso com um dos sócios da empresa que é casado e que deve pesar uns 120 kg. Mesmo assim ela cisma comigo, acha que ele me olha diferente. Quando ele chega, ela o leva rapidamente para a salinha dos fundos.

Mas quando ele não age como um cachorrinho domado vem falar comigo. Um homem simples, engraçado. Falo com ele normalmente, sem maldade, sem interesse alguma como falo com os colegas de trabalho.

Quando ele sai, ela se vinga. Se algum menino me liga ela diz que não estou, se ela passa a ligação me pede pra falar rápido. Sempre faço os trabalhos mais pesados em que acabo me sujando toda.

Mas acabou hoje foi à última vez. Com os olhos vermelhos e lábios inchados saí do quartinho escuro fui até a mesa dela:

-Estou pedindo demissão. Depois venho buscar minhas coisas.

Ela tentou argumentar alguma coisa, mas não dei ouvidos.

Senti o vento bater no meu rosto assim que saí da loja. De repente me senti leve, livre, a rua estava mais bonita, o choro de 10 minutos atrás eu já nem lembrava. Encontrei por acaso meu amigo Mário. Resolvi não voltar para casa naquela tarde. Não queria pensar nos problemas que viriam com a minha demissão. Mário me levou para o cinema. Passei em frente à loja e fui para a sessão da tarde. Cinema vazio e Batman na telona.
Uma semana depois o desespero:

- E agora? O que faço? Não conheço ninguém aqui, Mário foi para a França, não consigo trabalho, não tenho mais dinheiro e...tenho fome.

Tive que voltar na loja para buscar algumas coisas minhas que haviam ficado lá. Léa não estava uma colega minha entregou as coisas numa sacola da loja, quando a abri vi que havia um bilhete:

“Preciso falar com você. Compareça neste endereço o mais rápido possível.”

Eu perguntei a minha colega quem deixou o bilhete, mas ela disse não saber nada sobre o bilhete.
O endereço é bem aqui perto, vou até ali ver o que é.
No prédio onde já estive algumas vezes, quase em frente à loja onde eu trabalhava quinto andar, sala 503.
Uma sala simples. Uma recepcionista.

-Eu gostaria de falar com o Jaime. Ele está?

5 minutos depois ele aparece na porta. Um moreno claro, olhos muito verdes, alto, forte e mais jovem que eu.
Nunca o vi antes. Ele me pediu para entrar numa salinha pequena onde só havia uma mesa de reunião e cadeiras.

-Você quer trabalhar?

-Sim. Estou precisando, mas está difícil.

-Eu tenho um trabalho para você.

Fiquei surpresa. Não pode ser verdade, não tão fácil assim, o que vem depois? Quem é este jovem? De onde ele me conhece?

Todas as perguntas do mundo até que ele me diz:

-Amanhã, 10 horas neste endereço. Vista algo discreto. É uma senhora que vai entrevistá-la. Conservadora entende?

-Sim. Obrigada
Só consegui dizer sim. Saí da sala ainda duvidando da facilidade, da rapidez, do bilhete, do lindo jovem de olhos verdes.

E assim no mesmo dia, logo após a entrevista eu estou sentada em uma mesa trabalhando numa das maiores empresas da cidade, recebendo um ótimo salário, num ambiente ótimo e com pessoas muito acolhedoras.
Meses depois Jaime apareceu na empresa onde trabalho. Combinamos de sair. Marcamos um jantar na minha casa e assim começamos a namorar.
Um mês de namoro e ainda não descobri de onde ele me conhece. Tivemos uma noite maravilhosa e logo ao amanhecer tento mais uma vez desvendar o mistério que me aflige.

-Jaime, você precisa me dizer de onde você me conhece? Como conseguiu meu emprego? Por que eu?

-Eu conheci você numa praça.
-Mas que praça é essa? Em que cidade? Quando?
-Numa praça onde existe um triângulo, você não me viu. Desde aquele dia eu procurava você. Temos uma ligação que vai além do que você imagina.
-Mas que ligação? Como você me encontrou?

-Procurei você por todas as cidades onde você já morou. Quando consegui descobrir onde você estava trabalhando fazia dois dias que você havia pedido demissão.

-Eu não entendo. Por que você fez isso por mim? Alguém pediu para você fazer isso por mim, me fala quem foi?

-Não sei explicar. Algo me ligou a você no momento em que vi você naquela praça. Dentro do triângulo.
-E onde você trabalha? Quem é você? Onde você mora?

-Eu trabalho com um amigo, viajamos muito de avião, sou o braço direito dele. Ele é dono do maior jornal aqui da cidade. Fala isso, me beija, se enrosca todo em mim e volta a dormir.


Desisto. Nada do que quero saber ele responde. Cada frase me deixa mais confusa.

Um dia ele deixou de ligar, deixou de me visitar, um dia ele sumiu, assim como apareceu.

Um anjo? Um membro da maçonaria? Um fã? Um amigo?

Jamais saberei...

Vênus

16 de jul de 2010

*POESIA NUA*























Quem sabe a noite
deitada languidamente
nos braços da loucura
onde a vida renasce
sinto-me nua

Em mim a poesia
é um momento delirante
procura constante
um medo
um jeito insano de ser

É um perder-me sem fim
encanto
um jeito
á procura do ser
á procura de você

Vênus 

13 de jul de 2010

Amante profissional





















I

Ainda no aeroporto ele procura uma mesa no café quase vazio. Abre o jornal e como já esperava estava lá a notícia na capa do jornal:
-Suicídio em hotel na capital!

Joga o jornal no lixo e se dirije para o embarque. Logo estará longe.

II


Um dia antes num hotel na rua mais movimentada da cidade o detetive revista o quarto.
De estranho nada além de fita adesiva, nenhum sinal de luta, nada fora do lugar, tudo parece perfeito demais.

O corpo na calçada. Olhando da janela do 9º andar o que se vê é apenas uma massa desfigurada e sem vida formando um contrate absurdo com a linda manhã de Janeiro e do sol banhando cada vez mais quente as ruas.

-Qual o nome do hóspede, telefone?

-Estão aqui.

O gerente do hotel entrega a ficha que havia sido preenchida horas antes pela vítima.

O detetive liga para o número do telefone, mas não existe ninguém com o nome de Paulo Fonseca naquele número e endereço em Santos. Procura então e acha pelo nome um Paulo Fonseca em Belo Horizonte, mas o próprio Paulo atende ao telefone.
No corredor os hóspedes começam a aparecer no corredor em busca do café da manhã, na sua maioria executivos saindo para suas reuniões de negócios.
Não fazem idéia do que aconteceu. Parece tudo normal não fosse a presença de dois policiais na porta do quarto 905.

Lá embaixo o corpo de bombeiros e a polícia já não deixaram vestígio do acidente. Em pouco tempo a rua estará lotada de gente por todo lado.

Um dos policiais que está na porta de guarda diz calmamente ao seu colega:

- Foi assassinato.

O policial mais jovem e ainda tentando se habituar ao que viu ali responde:

- Como pode se ele parecia estar sozinho? Não há sinal de luta é suicídio. Mas deve haver um motivo, um bilhete, algo assim.

-Vai saber?

O policial mais velho, cansado de ver casos estranhos conta os dias para se aposentar e não precisar mais ver coisas desse tipo.

No quarto do hotel o detetive Pedro está intrigado e não se convence que foi suicídio.

- Tem que haver um motivo, um bilhete. Algum vestígio.
Senta-se numa poltrona ao lado da cama e observa atentamente o quarto, em silêncio.
Algo detém seu olhar por um momento, um volume maior no colchão, mas já havia retirado tudo e não havia nada de estranho ali de repente salta da poltrona:
-Uma tesoura, uma faca afiada, por favor?
O gerente sai e logo volta com uma tesoura ainda não entendendo nada. Quando entra no quarto percebe que já não é necessário tesoura nenhuma.

O detetive Pedro encontra no tecido aberto na parte de baixo do colchão um laptop e um celular enrolados em fita adesiva.

Um técnico em informática é chamado. Todos os dados do laptop foram apagados.
Enquanto o técnico trabalha na recuperação dos dados, o detetive Pedro descobre que todos os números de telefone da agenda foram apagados menos um último número discado do celular.

O irmão de Paulo do outro lado da linha parece resignado com a notícia e conta ao policial que o irmão sumia de vez em quando de casa. Há um mês saiu dizendo que iria viajar e não dera notícias até a noite anterior quando ligou dizendo que não estava muito bem e não sabia ainda quando voltaria para casa. Parecia triste, confuso, desiludido com algo que lhe acontecera.

Nos dados recuperados do notebook está o motivo. Muitas fotos de Paulo e um jovem de aproximadamente 1,90m, olhos verdes e corpo definido. Os dois juntos em um cruzeiro. Pareciam muito íntimos.

Num dos textos recuperados Paulo escreve sobre a desilusão que sofreu quando depois de 20 dias maravilhosos no cruzeiro as coisas se complicaram, o jovem começou a sumir por horas. Numa noite Paulo o seguiu e o viu entrando na cabine de uma linda loira. Paulo ficou parado sem saber o que fazer, desnorteado haviam feito mil planos e agora ele sentia-se traído, perdido, sozinho e ainda apaixonado. Sabe que foi usado. Na noite anterior havia feito um depósito de uma grande quantia em dinheiro para o jovem. Voltou para á cabine. Quando o jovem voltou fingiu que nada havia acontecido.
Estavam chegando á cidade onde o navio ficaria atracado por dois dias e lá resolveria o que fazer.
Disse ao jovem que precisava ficar sozinho e que passaria a noite num hotel. O jovem se mostrou contrariado, mas ele sabia que no fundo era tudo falso. Ele aproveitaria a noite livre para passar com a Loira da cabine 25.

Começou a escrever o que seria um bilhete de despedida que ficou pela metade. Talvez tenha começado a chorar e não conseguiu terminar o bilhete. Talvez por medo de perder a coragem do próximo ato. O fato é que ao que tudo indica foi mesmo suicídio.
-Caso encerrado: Suicídio!
Os policiais na porta do quarto se entreolham surpresos pela rapidez com que o detetive resolveu o caso.

O detetive Paulo guardou na pen drive o texto e as fotos e foi embora. Sabe que vai continuar a investigação em segredo.

III

No primeiro vôo para Alemanha naquela noite, poucos passageiros, um homem sentado sozinho numa das últimas poltronas. Uma expressão de alívio.

Pensa nas folhas e mais folhas de texto que escreveu até achar ao mais adequado, o texto não deixaria dúvidas. Fez tudo certo, as fotos, os textos apagados do laptop, cada passo havia sido cuidadosamente estudado.

Por um momento lembra-se do último beijo que pediu a Paulo perto da janela.

Logo depois o corpo caindo.
Saiu apressado pelas escadas de incêndio. Jogou as luvas na lixeira perto de onde deixou o carro estacionado na rua deserta. O vento gelado desalinha seus cabelos negros.

No avião ele observa atentamente. A procura da próxima vítima.


Vênus

3 de jul de 2010

A Menina que enterrava jóias















O primeiro presente secreto foi um Anel Solitário.


Fiquei completamente fascinada. Vesti delicadamente para não quebrar o anel no meu dedo, mas ficou grande demais.

Passei horas no banco do jardim admirando aquele tesouro. A brisa da tarde traz o aroma das flores de jasmim tornando aquele aroma o aroma do Anel Solitário.

Depois de passado o encanto e o medo a dúvida:

-E agora, o que faço com isso? Meus pais não podem ver. Vão achar que roubei, vão querer saber como surgiu isso aqui.

Tive uma idéia brilhante. Corri até meu quarto, esvaziei minha caixinha de bijuterias que está quase vazia, só tenho um par de brincos que usava quando bebê e umas continhas coloridas. A caixa de madeira toda forrada de veludo preto por dentro vai ser o meu pote do tesouro.

Corri de volta até o jardim e fui para uma casinha velha que meu pai usa para guardar ferramentas de trabalho e outras coisas.É um lugar estranho, cheio de coisas, escuro. Não entro sozinha na casinha.

Com uma colher de jardim abro um buraco na terra, no vão entre o chão e o assoalho da casinha de madeira. Suando, com medo que alguém visse, enterrei o mais rápido que pude o meu tesouro.

Voltei para casa, meus pais e irmãos não notaram meu olhar sonhador. Eles não prestavam muita atenção em mim e eu só pensava no Anel Solitário.

-Que nome lindo! Aquela pedra transparente e brilhante no alto de braços delicados. Solitário.

Tênis e meias brancas até o joelho, saia plissada marinho, camisa branca. Cabelo num rabo de cavalo. É assim que vou todos os dias para a escola. Todos os dias com um segredo que só eu o meu admirador secreto sabemos. Este segredo me dá uma sensação boa, como pode acontecer isso comigo? Será que minhas amigas também escondem segredinhos assim?

Na saída da escola ele caminha comigo de volta para casa. Não falamos muito. Não sei o que dizer para aquela figura fina, alto e magro, tímido que nunca ousa olhar para mim.

Eu não sinto nada por ele a não se a cumplicidade de um grande segredo. Mas imagino que ele sinta algo por mim. Eu sinto-me forte e cheia de energia, ativa e exuberante em todos os sentidos, não levo desaforo para casa, vejo nele um menino fraco. Isso me cega e não me deixa ver algo bonito nele.

O apelidei de Farinha Seca. Ele não reclama, parece feliz que eu o chame assim, deve sentir como o único afeto que lhe dou.

Perto da minha casa, ele não levanta os olhos, apenas me entrega um embrulhinho vermelho e sai correndo.

-Hei? Espera Farinha Seca? Fala comigo!

Mas ele já estava longe. Sem olhar para traz.

Minha família inteira na mesa me esperando para o almoço. Meu irmão mais velho nota que estou muito vermelha:

-O que é isso, você andou aprontando no colégio?

-Não aconteceu nada, é o sol, está muito forte.

Mal comi, cabeça baixa durante todo o almoço. Meu irmão me olha de vez em quando de rabo de olho.

Durou uma eternidade aquele almoço.

Ainda de uniforme, com o embrulhinho vermelho corri para o meu banco no jardim.

Abri o embrulho apressada, meus olhos brilham. Um anel dourado. Nunca senti algo assim em minhas mãos, admirava a forma, a cor brilhante dourada e a pedra de rubi vermelha como sangue, retangular, presa apenas por quatro pequenas e delicadas garras.

-Que lindo! O que faço com isso? É grande para meus dedos e não poderia usá-lo, como explicar isso para os meus pais? Será que “Farinha Seca” rouba dos pais dele para me dar?

Os pais dele têm uma grande loja de tecidos, roupas, jóias, relógios e armarinhos. Estava ficando perigoso demais.

-Mas como parar algo tão maravilhoso e belo?

Vou até a casinha e com a espátula desenterro minha caixinha de madeira. Abro rapidamente e olho fascinada para os meus dois tesouros. O Anel Solitário não está mais só.

Enterrei a caixinha e fui direto para o meu quarto. Passava horas olhando para o teto pensando no meu tesouro e no “Farinha Seca”.

Minha mãe preocupada quer chamar o seu Diamantino, homem que me dá medo, gordo, forte, dono da farmácia. Tudo para ele se resolve com uma injeção e eu tenho tanto medo.

-Não tenho nada mãe, só quero ficar aqui no quarto.

-Mas Lúcia você nunca foi assim, conta para a mãe o que está acontecendo? Conta?

-Mãezinha, não é nada. Eu estou bem.

Meu deu um forte abraço e saiu do quarto. Naquela noite não dormi. Sonhei que a polícia estava na casa dos meus pais, que tentaram prender o “Farinha Seca” e eu o defendi dos policiais e o salvei.

Meses se passaram e minha caixinha estava quase cheia. Meu tesouro agora já não me causa medo. Ninguém vai descobrir. Falei com “Farinha Seca”, fiz ele me prometer que não vai mais me dar jóias.

O ano escolar terminou. Não vejo mais o menino dos anéis e passam dias que não me lembro do tesouro enterrado no jardim.


Tenho 15 anos agora. Já não sou mais a meninas de meias até os joelhos e “Carlos” o meu “Farinha Seca” mudou muito.

Passei a vê-lo com outros olhos. Quando estamos com nossos amigos e amigas, sinto aquele olhar de cumplicidade dele a procura dos meus olhos. Sinto que ele quer dizer algo, mas nada fala.

Um dia ele aparece na casa dos meus pais e pede para falar comigo. Fiquei surpresa e apavorada:

-Ele veio pedir as jóias de volta. Os pais descobriram tudo. Ele vai contar tudo para os meus pais.

Mas não. Sentamos lado a lado na varanda da casa. Tímidos buscando palavras que faltavam, pensamentos e a certeza que de que sentíamos algo um pelo outro, algo que nos ligaria para sempre.

Fui passar uma semana na casa de praia da minha irmã. Minha mãe ligou e disse:

- Lúcia, vendemos a casa. Já estamos na casa nova. Você vai adorar! Vem logo para casa!

-Sim mãe. Vou hoje mesmo.

No caminho de volta para a nova casa fui lembrando casa vez que desenterrava e enterrava as jóias e de como agora ela ficavam lindas nos meus dedos. Do prazer de ver tudo brilhando e a melancolia por saber que nunca poderei usá-los. Ficariam lá para sempre como prova do amor de Carlos. Como um segredo só nosso. Não sei o valor financeiro das jóias, só sei o valor sentimental e a beleza.

Cheguei à minha cidade com o coração apertado. Se a casa estiver vazia ainda vou tentar desenterrar minha caixinha secreta, mas a casa já tinha outro dono. Tudo estava em obras. Um homem pintava a fachada casa. Outros construíam um enorme muro de pedras. A casinha velha de madeira puseram-lhe abaixo, construíram no lugar uma garagem enorme.

E foi assim que meu tesouro ficou para sempre enterrado. Mas jamais esquecido.

Poderiam ser bijuterias fajutas, dessas que vem como brinde junto de algum produto, poderiam ser jóias caríssimas, mas o segredo que me unia a Calor e a declaração silenciosa do afeto dele tornou essa caixinha o maior tesouro que já possuí na vida.



Vênus

1 de jul de 2010

O Malandro sedutor




















Ele tem o tipo físico de homem que me atrai, chama minha atenção. Mexe comigo. Quando o vi chegando senti imediatamente um arrepio, mas faço de conta que não percebo a presença dele.

Ele também me vê, tanto que uma hora depois telefonou.
Fiquei feliz, ego inflado.
Quem é a caça? Quem é o caçador?
Marcamos um jantar num restaurante muito diferente, um antigo vagão de trem.

Agora as dúvidas de toda mulher no primeiro encontro:
-O que vestir, que sandália usar?

Ele aparece sempre bem vestido quando vai até a empresa em que trabalho resolver algum coisa ou inventa alguma coisa para ir até lá me ver?
Delicio-me com essas hipóteses.

Pronto decidi. Vestido preto junto ao corpo, sandália também preta, salto e tiras finas que deixam os pés quase nus e levemente curvados, sinuosos. Perfume Poison.

Ansiedade.

Ele vem, não vem. O que vai acontecer depois?
Uma coisa eu sei: - Quero-o!

Um pouco atrasado, primeiro defeito. Nunca deixe uma mulher esperando. Erro fatal.

Ele ligou avisando que está esperando no estacionamento. Demorei um pouco para dar a entender que ainda não estava pronta. Quando chego ao estacionamento fico perplexa.
Pensei:
-Mas o que é isso? Não acredito no que estou vendo.

O homem trajava nada mais nada menos que o traje inusitado.
Chapéu panamá, camisa listrada de verde e branco, calça branca justa, sapatos brancos e para completar uma Brasília amarela caindo aos pedaços.

Chegamos ao restaurante Vagão. Ele sempre querendo agradar, muito falante, olhos azuis estonteantes.
Eu sempre delicada e simpática tentando disfarçar, mas estava incomodada com tudo aquilo. Havia algo errado com aquele homem. As roupas, o carro, chegar atrasado.

Comigo também estava tudo errado. O vestido justo, o salto alto, nada tinha a ver com aquele lugar, verão, calor e eu tentando sorrir para ele, sensual, enquanto milhares de mosquitos devoravam minhas pernas debaixo da mesa.

Uma mulher pode ser sensual sentindo picada de mosquitos sugando seu sangue quente e fresco? Impossível!

Queria sumir. Sabe quando você deseja ter o direito de fazer um pedido? Eu faria um:
-Quero minha cama, minha casa, socorro!

Terminamos o jantar. Ele me levou para casa. No carro para fechar a noite com chave de ouro ele faz uma confissão (fatal):
-Olha, já era para ter falado, mas não queria falar antes de jantar com você, conhecer você melhor. Eu tive receio que você não aceitasse meu convite se soubesse que eu sou casado.

Pensei: Calma mulher. Classe.
Ele foi embora e eu subi para o apartamento, tomei um banho, passei remédio nas pernas, mas não conseguia deixar de me sentir ridícula.

-Como pude me deixar enganar assim? Que idiota que eu fui.

No dia seguinte ele ligou. Fui simpática, recusei o convite para o cinema.
Na semana seguinte, já sem paciência, não atendi mais o telefone.
Na terceira semana ele apareceu no meu prédio. A primeira vez eu atendi o interfone, desconfiada fiz de conta que era outra pessoa:
-Quem quer falar com ela? Não, ela não está. Você quer deixar recado?

Ninguém respondeu. Foi embora. Não vai me procurar mais.

Na noite de sexta-feira sempre saio para dançar com minhas amigas. Para recarregar as energias, para esquecer os problemas da semana. Minha amiga já está pronta. Estou calçando a sandália quando a campainha toca.
Achei estranho, ninguém sobe sem ser avisado. Deve ser algum vizinho.
Quando chego á porta e vejo quem está do outro lado me afasto da porta.
Só o ouço dizer:

“Devassa!
Eu sei que você está em casa. Você não tem coração? Não saio daqui sem falar com você. Abra essa droga de porta! Abra ou quebro tudo. Abra por favor. Eu preciso ver você. ”

Quando será que um homem se dá conta de que ele não está no controle?
Que momento é este em que ele perde a cabeça a razão e até a vergonha e o orgulho próprio ferido?

Silêncio! Ele foi embora.

Sentimento de culpa.

Preciso de um drink. Um Dry Martini com uma cereja vermelha para esquecer o episódio lamentável.
Uma hora depois estamos chegando ao clube. De longe vejo uma Cherokee preta com a porta do carona aberta, som ligado e dois homens conversando e bebendo.

Um deles é Jorge.

Eu sabia. A Brasília e aquela roupa “discretíssima” eram para não chamar atenção. Engraçado.
Sorri.

Desistimos do clube. Fomos para um barzinho e Jorge desistiu de sair comigo, quando nos encontramos casualmente ele apenas me olha.

Poderia ser diferente essa história?

Sim. Poderia.


Vênus

24 de jun de 2010

Velvet- O Sequestro




















A inauguração da loja está sendo um sucesso, pessoas influentes, empresários, políticos e a imprensa. Ontem quando recusei o convite de Claudia imaginei uma festa chata e sem graça, mas agora estou gostando.
Estamos as duas conversando quando ele se aproxima.

Meu instinto animal logo me alerta do perigo. Tento fugir, mas ele nos envolve numa conversa descontraída e mantém nossas taças de vinho sempre cheias.

Por um momento notei um olhar de cumplicidade entre ele e Claudia, mas o vinho já estava me deixando relaxada e com o rosto quente pensei: É bobagem.

Igor é meu chefe, diretor geral da empresa de tecnologia para a qual trabalho desde que deixei o “Blue Room”.

Mudei minha vida radicalmente tentando fugir do mundo do sexo e das drogas.

A maior parte dos funcionários é formada por jovens recém formados. Eles passam o dia na grande “ilha” desenvolvendo softwares. Eu fico no andar superior junto com as outras secretárias.

Agora me visto como uma executiva. Sempre de saia ou vestido, salto alto e cabelos arrumados. Roupas discretas e femininas. Maquiagem leve.

Procuro não chamar a atenção dos homens, mas parece que o efeito é o contrário do que eu esperava.

Olhares de lobos famintos arranham minha pele, olhares que desnudam meu corpo até a alma. Sorrisos e cantadas sutis.

Toda mulher deve gostar de ser notada. Eu não.
Queria que olhassem para além das minhas coxas e dos meus seios.

Igor é um deles. Tem um olhar cínico. É baixinho, usa barba, gordinho. Sempre de terno, corrente grossa dourada e o inseparável anel de ouro com uma enorme pedra de rubi. Descobri mais tarde que o anel é um símbolo usado pelos membros da maçonaria.

Entendi tudo. Ele não tem o menor perfil para ser diretor de uma grande empresa, é despreparado e prepotente. Essa mistura me enoja. Ele é asqueroso. Pior do que os homens todos que eu recebia no “Blue Room”. Eles pagavam para me ver dançar, para ver meu corpo. Eles não exerciam nenhum poder sobre mim. Na verdade o poder era meu. Sentia prazer em dominar um homem poderoso ou um homem bonito. Sentia prazer em vê-lo aos meus pés, loucos de desejo quando eu os tratava como escravos do seu próprio vício. O sexo.

Mas Igor sim. Ele tinha poder sobre minha vida, meus passos, meu dia. Nós dois sabíamos disso. Nós dois sabíamos que ele poderia tentar se beneficiar do cargo para me possuir. Mas eu fingia não saber. Fingia não perceber os olhares famintos e ás milhares de vezes que ele me chamava na sala dele para fazer algo inútil só para me ver saindo da sala e ficar me observando.

A festa está quase no fim. Os convidados se despedem e vão embora. Igor que foi inesperadamente simpático e atencioso não nos deixou sozinhas um minuto.

Na hora de voltarmos para casa ele nos oferece carona.

Eu recusei com a desculpa de que moro muito perto, mas Claudia mora longe, precisa ir até o terminal urbano para de lá ir para casa.

Aceitei. Entramos no carro. Um carro lindo, mas com aquele cheiro de chiclete insuportável que alguns homens colocam para perfumar o carro. Achei graça. Sorri. O que mais poderia esperar de um homem desses? Que mau gosto.

Deixamos Claudia no terminal urbano e seguimos juntos.

As ruas estão desertas e molhadas por uma chuvinha fina e fria, sinto um arrepio percorrer meu corpo e muita vontade chegar logo em casa, tirar a roupa, tomar um banho quente depois ficar quietinha em baixo do edredom.
Seguimos por uma rua central, mas do lado oposto da cidade e da minha casa.

-Para onde você está indo? Eu moro na Rua Padre Júlio do outro lado da cidade?

Ele sorriu. Um sorriso nervoso e apavorante. Senti medo. Ele apenas disse:


- Estou sequestrando você. Você vai ser minha hoje.

Minutos, segundos e tudo ficou claro para mim:

Ele combinou tudo com Claudia! Ele deu algum presente, prometeu algum cargo, sabe algum segredo dela. Não sei, mas não tenho dúvidas de que ele usou Claudia para me deixar nas mãos dele. Ofereceu-me vinho e boa conversa e eu sem saber bebi, bebi.

Sinto meu corpo mole, minhas pernas pesam.
Como reagir?
Como fugir dele?
Como fui cair nessa cilada?

Vi muitos casos em que as mulheres são assassinadas quando negam sexo ou mesmo depois de serem violentadas. Não posso reagir com agressividade. Preciso me mostrar compreensiva.

-Por favor, não faça isso, hoje não. Estou cansada, daqui a pouco tenho que trabalhar. Não entendo por que você está agindo assim.

Ele não responde. Não toca meu corpo, não me olha. Apenas segue como um louco pelas ruas molhadas do centro da cidade. Aos poucos percebi para onde ele está indo.

Para um motel.

Eu só tenho certeza de uma coisa: Ele não vai fazer sexo comigo. Se ele me obrigar vai pagar caro por isso.

Ele para o carro na garagem do motel. Eu não saio do carro.

-Ainda tem tempo de você desistir dessa idéia maluca. Não é assim que um homem leva uma mulher para a cama. Você deve saber que toda mulher gosta de ser conquistada, seduzida. Você vai me violentar?

-Vamos entrar Velvet. Prometo que só vamos beber uma taça de champanhe e conversar um pouco.

-Velvet?? Você está louco? De onde você tirou esse nome. Meu nome não é Velvet, é Isabella.

-Eu sei quem você é Velvet. Agora desça do carro e entre no quarto.

Fiquei atônita. Ele sabe que trabalhei no “Blue Room”. Só usava esse nome lá. Quando mudei minha vida assumi meu nome verdadeiro e tentei deixar para trás tudo o que representava aquela aquele lugar e o nome Velvet. Agora entendo os olhares de Igor, o cinismo em seu olhar, a segurança e arrogância quando falava comigo.

Entrei no quarto. Uma cama gigante redonda com espelhos por todo lado, uma banheira enorme, uma mesa e um sofá preto. Decoração de muito mau gosto.

Ele abriu um champanhe e me ofereceu uma taça. Sentei-me no sofá pensando como sair daquela situação perigosa. Eu sei do que é capaz um homem enlouquecido de desejo e raiva, rejeitado.

Ele bebe toda a taça de champanhe de uma vez e fala:

-Eu descobri tudo sobre você quando notei que você parecia guardar algum segredo.

Você é misteriosa, diferente das outras meninas. Seus olhos fogem quando olho para você, mas seu corpo pede para ser tocado. Fiquei curioso então contratei um detetive amigo meu.

Foi difícil, mas consegui descobrir o que você fazia antes de trabalhar comigo.

-Não sei o que você quer dizer com “sabe tudo”. Eu não fazia nada demais. Eu apenas dançava para poder sobreviver. Não havia sexo como sua mente suja deve imaginar e isso não llhe dá o direito de me raptar e me obrigar a fazer sexo com você.

-Você acha que sou burro, menina? Acha que vou cair nessa?

-Você pode pensar o que você quiser. Mas a vida é minha e só eu sei o que eu fiz ou deixei de fazer. Só eu sei também o que não quero fazer.

Ele ligou a banheira que logo ficou cheia de água e espuma. Despiu-se e foi para a banheira.

Eu no sofá, pernas cruzadas. Séria e um pouco tonta. Apavorada.
O medo não era ser violentada. O medo é o que ele faria comigo depois.
Mil coisas, mil pensamentos, artigos de jornais, notícias de casos semelhantes.

-Você não sente nada por mim?

-Não. Você é casado e meu chefe na empresa. Não pretendo ter problemas na minha vida. Você não pensa que se me forçar a fazer sexo vai ter problemas depois?

-Eu faço tudo o que você quiser, eu lhe dou o cargo que você quiser na empresa. Um carro? Você quer um carro? Diz-me qual o seu preço, eu pago.

-Eu não tenho preço, eu não sou uma mercadoria. Será que você não entende? Vamos embora, por favor?

Ele sai da banheira, se enrola em uma toalha e vai para a cama.

-Vem aqui comigo, não vou fazer mal a você. Vem?

-Não. Desista e me leva embora daqui.

Ele levanta-se da cama enfurecido. Me pega pelos punhos e me leva para a cama.

Arranca minha roupa, eu tento contê-lo, mas ele é muito forte. Ele vira meu corpo. Fico com as costas para cima. Com a gravata ele amarra minhas mãos na cabeceira da cama e com as minhas meias amarra minhas pernas aos pés da cama.

Fiquei totalmente vulnerável.

O vinho e o champanhe faziam tudo circular ao meu redor.
Tentei pensar em algo bom, talvez o mar.
Sim, o mar azul, a areia fina.
Meus pés descalços.
O cheiro do mar.
O corpo inteiro sentindo a onda bater nos meus quadris.
O vento soprando no meu rosto e o sol dourando minha pele.

Mas aquele corpo pesando sobre o meu, aquele perfume forte e ruim, o suor dele pingando nas minhas costas o sexo dele ferindo minhas entranhas, meu corpo desobediente gozando enquanto eu era violada física e psicologicamente.

Todo o trajeto até em casa, nenhuma palavra.

Ele venceu. O mais forte venceu.


Será que é possível recomeçar sem carregar o estigma do passado?
Será que é possível confiar em alguém depois do que aconteceu?
Eu provoquei tudo isso?

Não sei.

Talvez esteja na hora de voltar a viver como Velvet


Vênus