22 de mai de 2010

CHANNEL Nº. 5























Olho o relógio pela quarta vez e concluo que ele já não vai chegar.
Sinto uma pontinha de decepção e inexplicavelmente um desejo
maior ainda por ele.
Todo meu corpo arde e pede para tocá-lo, sentir ele próximo,
ouvir seu riso solto e sexy, ele sabe me seduzir, ele sabe usar
os movimentos do corpo para atiçar meu instinto de loba,
me vicia e some, me abandona saciada e volta quando menos
espero, eu chamo e ele vem no minuto seguinte, ele chama e
eu saio vestida de gueixa para saciar a fome que sinto por ele,
mas o que mais me excita é que ele sempre me surpreende e eu
adoro isso, não saber o que ele vai fazer no minuto seguinte.
Todos os homens que eu conheci antes dele eram tão óbvios.
Ele não.
Pressinto o sinal vermelho de “fuja enquanto é tempo”, mas
algo nele me prende e me fascina como um imã, como um raio
de sol aquecendo a pele, como vinho bom descendo pela garganta,
deliciosamente viciante. Seco, forte, quente!

Sentimentos contraditórios, eu sozinha na mesa de uma restaurante
esperando por ele, a dúvida da espera, a falsa indiferença porque
ele não veio e o corpo sentindo a umidade ao pensar nele, a pele
nua por baixo do vestido preto, salto alto vermelho e o Chanel nº5
misturado ao cheiro de sexo quando estou sentindo muito
desejo como agora.  Uma poção fatal! Veneno!

Pago a conta e saio como se nada estivesse acontecendo,
um sorriso para o garçom.
Saio do restaurante sentindo olhos curiosos despindo meu
corpo inteiro. E fico imaginado o que os homens vêem através
de um fino tecido de seda, como funciona a mente masculina,
gosto de imaginar o que pensam. Como desenham meu corpo
através do tecido, eles jamais saberiam.
Meu corpo guarda segredos que só meus amantes sabem,
e nem todos tiveram a sensibilidade de descobrir.
Visto o casaco que estava na cadeira e me envolvo numa
echarpe preta que tem o cheiro dele.
Agora sinto saudade do corpo, da voz, das mãos e dos
olhos dele.
Os olhos dele me desnorteiam e me desafiam, ao mesmo
tempo me fazem sentir amada, desejada.
Ele me olha com um olhar de interrogação, não sei se
retribuo, não sei se meus olhos têm a resposta que ele
espera encontrar.

No táxi vez ou outra meus olhos cruzam com os olhos
no motorista pelo retrovisor, deduzo o que ele pensa,
porque eu penso o mesmo, talvez.
Meus olhos percorrem as ruas desertas, a luz fraca
e misteriosa da madrugada e a chuva escorrendo pelo
vidro da janela.
Sinto meu corpo ansiando por um abraço forte.
Apenas um abraço. O abraço dele.

No hotel, abro a porta, acendo a luz do abajur, jogo
a bolsa em cima da cama e vou caminhando em direção
ao banheiro despindo-me ao mesmo tempo o vestido e
a echarpe de seda, o casaco, o sapato vermelho
vão caindo pelo chão até eu ficar completamente nua.
No chuveiro a água morna, o cheiro, o toque na pele
macia e um só pensamento:
- Porque esse homem me excita tanto?
Porque simplesmente não o descarto como faço com
outro qualquer e esqueço que ele existe?

Volto para o quarto, nua, a pele ainda escorrendo gotas
de água e os cabelos ainda molhados.
Apago a luz do abajur e ainda absorta em pensamentos
confusos, uma voz:

-Não acenda a luz.

Meu corpo reage instintivamente. Sei que é ele.
Em minutos sinto as mãos fechando uma venda
em seus olhos e mãos percorrendo meu corpo
suavemente, mas pressionando nos lugares certos,
onde sinto mais prazer, ele conhece meu corpo:
a nuca, as coxas, os seios, as ancas.
As mãos quentes seguram uma pedra de gelo que
desliza pelo meu corpo causando arrepio e uma
vontade incontrolável de ser possuída logo.

Mas algo me excita ainda mais, a voz está longe e
as mãos estão agora no meio das minhas coxas. 
Não quero pensar, já não consigo.
Entrego-me

-Quero você! Ele diz.

Sinto sua voz, sinto seu cheiro mais próximo e
mais, até que seus lábios tocam os meus e sei que
ele chegou, finalmente.
Não sei se a outra pessoa está assistindo a tudo,
ou se foi embora, não sei se é um homem ou uma
mulher, não sei.
Só sei que me perdi em momentos de prazer que
nunca senti antes. Só consigo dizer:

Você demorou tanto!

Amanhece e estou só na cama, um bilhete no travesseiro ao lado:
-Eu volto

Vênus

10 comentários:

A. Mandel disse...

Conto excitante, que prende e reporta em um determinado ponto ao filme 9 1/2 semanas de amor, porém mais intenso e explícito a ponto de fazer-nos querer ir a este restaurante e admirar a dama sensual, e jurarmos que nuca a deixaríamos esperar..

Cristina disse...

Claro que li, e leio tudo que me enviam, assim como gosto que leiam o que peço...rss
Gosto do jeito que vc escreve, vc é muito talentosa, traduz em palavras sentimentos e sensações.
Parabéns!!
Cris Bracco

Anônimo disse...

que loucura isso!!! muito excitante!! to me recuperando ainda ....intenso!!!parece q estava la ....uiiiiiiii!fiquei sem folego! LINDO!!!!Envolvente!!!!Perfeito!!!!!!!!!

Inez Alvarez disse...

Nane,

Ainda bem que voltei pra ler do começo. Seus contos não devem ser interrompidos pois o forte deles é o clima que vc cria e nos envolve junto. Por isso ao ser interrompida voltei ao começo. Sempre gosto do que vc escreve, mesmo quando não é o tipo de conto que prefiro, sua forma de escrever nos faz participar do conto, de sentir que estamos presentes como personagens nele. Gosto disso.
Bjsssssss
Inez

Anônimo disse...

Um bom texto é aquele que prende a atenção da gente do começo ao fim. Você desenvolveu isso aqui. Parabéns, Vênus!

X Lover
Brasília/DF - Brasil

But I Must Confess disse...

perfeito, um conto excitante, simplesmente perfeito, uma parte que eu adorei.

"Mas algo me excita ainda mais, a voz está longe e
as mãos estão agora no meio das minhas coxas.
Não quero pensar, já não consigo.
Entrego-me"

ta de parabens amiga, teu talento é unico, abraços

Luis Gustavo disse...

Nane és surpreendente. Adoro contos onde nomes não são ditos.É bm mais excitante, sem compromisso. O sexo pelo sexo; o prazer pelo prazer. Objetos triviais tornam-se de uma impertinencia voraz em seu conto. É impossível não se excitar no momento em que ela se despe, tirando os saltos altos, o vestido de seda finissimo... nossa é muito luxuriante... um tesão.... fico imaginando e pensando na Velvet... me apaixonei por ela loucamente... SUAS MULHERES SÃO COMO AS DE MANARA OU A VALENTINA DE GUIDO CREPAX: QUASE QUE IMPOSSIVEIS E INTANGIVEIS. ETERNAS E SUPERIORES.

Ricardo Simões disse...

Bom, vc consegue fazer o q ainda não faço, sinto uma mistura de realidade e fantasia, local onde sempre queremos visitar, mas sempre há um limitador, uma barreira do óbvio q me atormenta e me faz sonhar mais ainda, sinto isso e muito mais ao ler as suas palavras. A busca do desconhecido, leite quente ou gelado, nada morno, itensidade e pressa, o relógio não para, o cheiro, ah o cheiro,o sabor...como atingir tudo isso? Vc consegue, sinto isso em suas palavras, desconexão com o externo, apenas sensações...

Ricardo Simões disse...

O que vejo nas fotos? As expressões, as cores, os seus sentimentos e a arte da inquietação, criação espontânea de quem faz o q gosta, qdo elas são o seu rosto, observo com mais atenção, pois nesse universo de só escrever e não ouvir e nem ver, o que resta é observar!

Ricardo Simões disse...

Li novamente, ahh se pudéssemos passar um tempo lendo intensamente e dividindo essa intensidade com alguém que fosse sensível a isso, mas acredito nessas possibilidades e acho q a irei alcançar uma certa calmaria, para q o raciocínio funcione a meu favor, quero colaborar com algom mais intenso, necessidade guardada...