29 de mai de 2010

A MENINA DA VITRINE


















A princípio não notei a menina na vitrine, mas aos
poucos fui percebendo que sempre no mesmo horário,
ao cair da tarde, lá pelas cinco ela para em frente á
loja e observa as pessoas aqui dentro.

De aparência simples, olhar tímido e insistente,
uma pasta branca do colégio e mais nada.
Fiquei imaginando o que desperta a atenção dela,
certamente algum produto da vitrine que ela deseja
ter. Aparenta ter uns 15 anos, a idade dos sonhos
de toda menina, do mundo a descobrir, das coisas
novas do mundo feminino que ela poderá usar,
do vestido ou do salto alto que experimenta sozinha
em seu quarto, em seu mundo. O desejo de se
transformar logo em mulher e ser como alguém
que admira a mãe, uma irmã, uma amiga, uma atriz.

Não, ela não é como ás outras pessoas que param
para observar a vitrine, ela não olha para as lingeries
sedutoras e coloridas que enfeitiçam todas as mulheres,
nem para as jóias, os vestidos brilhantes, o tênis da moda,
ela olha para dentro da loja, sempre na mesma direção,
por um momento achei que ela estava olhando para mim.
Mas me chamaram e quando voltei, ela já não estava mais.

Numa tarde em que ela voltou a olhar a vitrine meu amigo
Luiz também notou a presença da menina e comentou comigo:

-Essa menina vem todos os dias aqui vocês notaram?
Fica parada ali olhando pra cá.

-Você a conhece de algum lugar? Pergunto.

-Não. Ela deve estar vendo algum produto que gosta.

-Ela parece querer mais que isso, é estranho, ela fica
parada olhando em nossa direção, mas não sorri, não
entra na loja, parece querer dizer algo.

Falo mais para mim mesma do que para Luiz.

Não consigo tirar aquele rosto triste do meu
pensamento, minha intuição me diz que não
é normal ver aquela menina todos os dias as
cinco com aquele olhar perdido. Já pensei em
ir até lá, conversar com ela, perguntar seu nome,
se ela procura alguém, se precisa de ajuda, se
me conhece de algum lugar. O jeito como ela me
olha me faz sentir que talvez a conheça de
algum lugar, mas de onde?

Os meses foram passando e numa tarde muito
fria de inverno, a chuva fina cobrindo a cidade e
os carros invadindo as ruas, as pessoas em frente
á loja com seus capotes pretos e ombros encolhidos
procuram refúgio apressadas.

Isso me leva a pensar que adoro a chuva ao
contrário da maioria das pessoas, vejo uma
beleza melancólica na chuva que cai, na loja
o som baixinho de um piano me faz sentir
saudade de um amor que nunca vivi, sonho
com um grande amor futuro, desses dos
clássicos de cinema como Casablanca,
Romeu e Julieta, personagens de livros
que guardo na memória.

De repente ouço o som abafado de uma batida
de carro, estilhaços de vidro pelo chão, gritos
de socorro e depois o indesejável grito do silêncio.

É assim que conheço a morte, chega silenciosa
ou faz uma tempestade deixando depois tudo vazio,
oco e uma solidão infinita, a certeza de que por mais
que busquemos ter alguém ao nosso lado no final
sempre seremos sós.

Em frente á loja as pessoas se aglomeram ao lado
dos carros que colidiram, algumas mulheres tapam
seus rostos com as mãos horrorizadas.

No chão ao lado de um dos carros uma pasta branca
de colégio e o corpo já sem vida da menina.
Olho para a pasta entreaberta e vejo um envelope
de carta com desenhos de borboleta e corações e
quase sem acreditar meu vejo meu nome escrito
em letras miudinhas.
Aproximo-me da pasta e pego sem que ninguém
veja o envelope, algo me faz acreditar que a menina
queria me dizer alguma coisa.

Os bombeiros chegam e a levam dali, as pessoas
nas ruas não se mexem ainda em choque.
Falam baixinho entre si consternadas.

Corro para dentro da loja, meus colegas na porta
da loja comentam o que aconteceu.
Vou para uma sala no segundo andar e fecho a porta.

No som da loja ainda ouve-se o piano de
Erik Satie triste e belo.

Na sala numa mesinha perto da janela o envelope
ainda molhado parece ter sido escrito há algum tempo.
Abro o envelope e noto a data em que foi escrito,
em Janeiro, oito meses se passaram desde que foi escrito.
Em letrinhas miúdas, as palavras foram formando
uma confissão que eu não esperava.

A carta é para mim, uma declaração de amor, falava
dos dias em que a loja fechava e ela não podia me ver,
do medo, a dúvida do que estava sentindo,
a incerteza e depois a confirmação.

Viu-me a primeira vez quando eu estava voltando para
a loja, eu havia saído para ir ao banco do outro lado da rua.
Toda molhada, os cabelos escorriam pelo rosto e tremia
de frio, mesmo assim a cumprimentei quando passei, sorri.
Ela estava voltando da escola e depois daquele dia parava
ali e apenas me olhava, mas foi crescendo um sentimento
de admiração que ela não sabia identificar.
Dizia para si mesma que estava errada, que não entendia
o que sentia, não era possível, mas a cada dia foi sentido
algo mais forte.
Conta que apenas algumas vezes eu notara sua presença
outras vezes nem sequer percebi as lágrimas em seus
olhos procurando os meus.
Precisava falar comigo, mas não teve coragem.
Escreveu e guardou a carta na pasta em meio aos
cadernos esperando um dia ter coragem de entregá-la.

Fechei o envelope com todo cuidado.
E pensei como eu ainda preciso aprender sobre o amor,
sobre os sentimentos e como pude despertar um
sofrimento assim naquela menina.

Que segredos têm o amor que nos faz sofrer quando 
ele chega e sofrermos mais ainda quando ele não vem?

A tarde cai, a chuva fina continua pintando de cinza
e de melancolia tudo ao meu redor.

No relógio da catedral o sino bate cinco horas.

VÊNUS

5 comentários:

A. Mandel disse...

@nanecandido (Venus) vem com mais um conto que toca fundo a alma, e desta vez, faz um homem grande ir ás lágrimas com um conto que mostra que, além de todo lado intenso de uma mulher que celebra o amor entre um homem e uma mulher, existe todo um universo de sensibilidade às formas de amos puras e incondicionais que deram forma efêmera a um alma inocente e só que com certeza faz-nos pensar que temos pouco tempo para amar, mas muitas oportunidades que só o exercício dos sentidos propiciam notar e aproveitar.

LaU disse...

El relato te llega al corazón, la inocencia del amor siempre existirá...

bello relato.

Un beso

Teresa disse...

Adorei a menina da vitrine, muito bom, muito bem escrito. Parabéns.
beijos

Luis Gustavo disse...

Uma palavra: EMOCIONATE. De verdade. Para mim o melhor conto que tu já escreveste. Confesso que chorei.Mostra um amor pastoril, melancólico e incerto, impreciso.... nos mostra o quanto não sabemos do tão falado amor. Um conto de verdade. Um conto da verdade. Ganhaste meu coração com "A Menina da Vitrine" - como se já não o tivesse feito. Curvo-me às tuas doces e belas palavras e à tua intensidade....

Inez Alvarez disse...

Nane,

Esse seu conto me fez reviver situações de minha adolescencia que já nem lembrava. Acho que conheci algumas meninas da vitrine com inocentes paixões, amores sem cobranças, amores platônicos. Achei lindo seu conto Nane.

Bjs