17 de mai de 2010

VELVET


A transformação começa depois de uma ducha quente, visto meu
roupão vermelho e vou para o quarto, gosto de me vestir e me
preparar para a noite ouvindo música, uma música específica,
sempre a mesma....Portishead-Roads.

Visto cuidadosamente as meias de seda e o body branco, prendo
os cabelos e faço a maquiagem, visto a peruca rosa e o salto 10.

Ninguém consegue entrar na alma de quem está por trás desta
imagem. Apenas um homem até hoje conseguiu decifrar meu
enigma e sabe de todos os meus medos, fantasmas e todas as
minhas mais loucas fantasias.
Visto um casaco 7/8 e saio. Noite de sexta-feira é sempre
muito agitado na “Blue Room” onde trabalho. O locutor
avisa que sou a próxima a fazer a apresentação, a luz
adiquire um tom dourado e aconchegante, toca a minha música.
Por momentos esqueço os olhos sedentos dos homens nas
mesas, almas solitárias buscando afogar as mágoas,
esquecerem as dores e tentar mandar pra longe
a insônia, almas perdidas em sua própria escuridão, vejo
olhos de fogo, olhos de tesão, olhos de fome, olhos de solidão.

Esqueço de tudo o que existe ao meu redor e meu corpo desliza
e se contorce lânguido, sensual e faminto, sensual e solitário.
Aos poucos tiro o casaco e sinto meu corpo já quente se
encher de um desejo louco e como se houvesse ali um amante
invisível faço sexo com ele...ajoelho-me seminua de frente
para os olhos da noite e com as velas que estão ao meu redor
castigo minha pele e derramo o líquido quente nas costas...
nos seios...nas coxas...nessa hora a música se torna mais
vibrante e meus gestos mais rápidos até
sentir o êxtase da música e do liquido quente no meu corpo,
um castigo, um prazer, uma dor...
Ninguém vê, só eu sei que nesse momento choro.

Antes de terminar noto um estranho na platéia.
Ele é diferente,  não deve ser daqui. Logo as luzes se apagam.
Acabou.

A madrugada e as ruas vazias me fazem sentir uma solidão
insana, sinto falta de uns braços em volta do meu corpo,
sinto falta de todos os homens que desprezei, de todos os
amores que evitei viver por medo de sofrer. Dos homens
que eu vi ficarem para trás chorando enquanto eu partia, fria,
sem sentir nada...apenas queria ficar sozinha.
A solidão me chama.

Noite de sábado eu só me apresento no “Blue Room” sempre
para o mesmo homem, um milionário entediado da vida e que
vem ali apenas me olhar. Um tipo estranho e de pouca conversa,
sempre com seu copo de Chivas sem gelo e uma garrafa cheia
ao lado, na mesa. Quando entro no quarto, pronta para o que seria
mais uma noite me deparo com o estranho homem que estava
outro dia no bar.

Ele tem olhos misteriosos e tristes, ele olha não para meu o corpo,
ele invade minha alma, meus pensamentos, ele entra em mim e me
faz abaixar o olhar, ele toca meu corpo sem tocar, ainda sobre o
impacto desse momento a música começa a tocar e danço
lentamente para ele, inesperadamente ele levanta-se e
vem dançar comigo.

Mas não dançamos. Apenas nos abraçamos, forte, forte, como se
fossemos um do outro, como se fosse um reencontro, sinto o calor
morno e excitante sendo transportado aos poucos do corpo dele
para o meu corpo gelado, sinto o cheiro dele e sim, eu já sonhei
com este perfume, e sinto os lábios dele: leves, doces aquecendo
minha boca, um beijo suave e intenso como nunca senti.
Só conheço beijo de predadores, beijo de sexo.
Sinto as mãos d'ele tocar a pele da minha cintura e meu corpo
inteiro estremecendo com um simples gesto como esse.
Não sei quanto tempo durou o abraço, só sei  que estou no chão,
nua, ele me beija inteira, desvenda meu corpo
com as mãos...me toca e me leva ao mundo surreal do
prazer do toque...Ele pouco fala. Suas mãos e seu corpo,
seus olhos dizem tudo.

Amamos-nos como dois amantes separados pelo tempo,
distância ou qualquer outra barreira, com fome, com ternura,
com pressa, com saudade, com paixão.
Foi como se tivesse feito amor à primeira vez na vida.

Ele partiu e foi como se tivesse levado metade de mim, prometeu
voltar, mas nunca mais o vi pessoalmente.
Vejo-o nos meus sonhos, nas minhas fantasias, nos meus delírios
e nos pesadelos. Só queria saber onde ele está, se está bem,
quem é ele. Investiguei durante seis meses, mas nada descobri,
o nome que ele dera era falso e pagou em dinheiro.
Ninguém sabe quem ele é, nem de onde surgiu.

Seis anos se passaram e até hoje ainda espero por ele.....

Estou num café perto da minha casa, vejo o jornal em cima
da mesa e na primeira página uma manchete pequena
do lado esquerdo me chama a atenção.

“Volta hoje para o Brasil depois de seis anos o escritor Nel,
enquanto esteve fora escreveu um livro com lançamento
previsto para Junho com o título de Velvet“
E mais nada.

Ele escreveu um livro com o nome que eu usava há anos
atrás no “Blue Room”até o dia em que ele apareceu por lá.

-Preciso encontrá-lo, mas onde? Ele vai me procurar no BR.

Está tudo fechado, ninguém atende ao telefone. Sento no banco
no outro lado da rua e espero. Enquanto o tempo passa eu
me faço mil perguntas:
-Por que ele não ligou, por que não deu notícias?

Um carro para em frente a Blue Room, vejo que é ele e
meu coração dispara.
Ele bate, ninguém atende...ele leva às mãos a cabeça..e
quando se vira encontra meus olhos nos olhos dele.

Ele atravessa a rua para falar comigo, mas um som
abafado e ensurdecedor me atordoa, o som de
pneus se arrastando no asfalto e o silêncio gritante e infinito....

Ele trazia um livro para mim, mas não pode me entregar.

Ajoelho-me e beijo seus lábios, olho pra ele pela última vez
e vou embora com o livro que ele escreveu para mim....
novamente pelas ruas desertas...agora sem ninguém para
esperar, agora serei eu apenas e minha inseparável
solidão e a última frase que ele me falou antes de partir:

"Don't stop believing"

VÊNUS

9 comentários:

Ricardo Simões disse...

Olha, preciso ler novamente e novamente e novamente, intrigante, forte, calor e o q mais sentirei ao reler, é isso, falarei muito mais...

Ricardo Simoes@1008

Ricardo Simões disse...

Sinto um certo tremor ao ler suas palavras, na ruim, somente o inexplicável, será que a janela do conhecer algo além da sensibilidade da pele está nascendo? Que maravilha poder, da minha forma simples, sentir essas palavras que desabrocham de alguém de um sentimento intenso, o inexplicável altera a respiração, isso é doce...

Ricardo Simões disse...

...fiquei te esperando, vontade grande de falar sobre suas palavras, vou esperar...

A. Mandel disse...

Lindo conto que traz uma alma Blues, magicamente suburbana com um glamour indescritível..
Eliane é uma poetisa cronicamente apaixonada, e apaixonante - em cada estrofe, em cada suspiro sentido que a nós transmite e faz entrar em um mundo pleno de sensações.
Sempre esperamos mais.

Inez Alvarez disse...

Adorei, muito gostoso e envolvente o seu conto. A sua forma de narrar nos envolve de tal forma que parece que nos tonamos o personagem principal e aqueles sentimentos descritos são os nossos.
Beijão :)

But I Must Confess disse...

simplismente perfeito.

Anônimo disse...

ótimo texto Nane. Como sempre me agrada com seu belo olhar noir sobre tudo. Me apaixonei pela Velvet.. demais.... e merece sim uma continuação... várias por sinal.. proponho uma série alá Sylvia Kristel em Emmanuelle com a Velvet.... ela é personagem forte e com uma presença marcante e pertinente...

Igor cFernandes disse...

Ganhou mais um acompanhante assíduo do seu blog, texto perfeito... Contexto que desperta a atenção!

Welita disse...

eu nao consigo descrever ainda o que senti ,já li e reli,é tão maravilhoso ,intenso,forte...é perfeito!!lindo saber que existem pessoas como você, que consegue escrever de uma forma tão linda, tão envolvente.
espero ler muitos outros contos escritos por você..beijos!