10 de mai de 2010

A TROCA

 






















A voz fria e desconhecida do outro lado da linha, a mente tentado
captar algo familiar, um sotaque, um timbre. Não conseguiu.
O silêncio depois do final da ligação e aquela voz repetindo sem
parar:

-Pedro quer encontrar você hoje em frente a igreja no centro
ás 23:00. Não se atrase, não leve ninguém com você. Ele diz que
você corre perigo. Tome cuidado. Leve o pacote com você.

Ele vai se esgueirando pela madrugada, este é o seu horário
de sair da toca. Bicho noturno e arisco sente-se mais seguro
na ruas escuras, nas calçadas vazias e nos parques assombrados
por outros notívagos como ele.
Está com pressa, deixou a namorada no quarto do porão escuro
e frio, um cortiço minúsculo onde se esconde durante o dia e
onde pessoas normais não o incomodam com seus falsos º
códigos morais.

Estava a caminho de uma missão importante e disso dependia
quem sabe uma vida diferente longe do porão e daquela
cidade negra. O carvão cobria tudo e as minas traiçoeiras
por baixo da terra causavam medo,  era uma cidade prestes
a afundar deixando o ar pesado, quase insuportável.

A pressa, o nervosismo, o telefonema, tudo aquilo já havia
acontecido antes, mas desta vez algo não estava cheirando bem.
Sentia que o problema era sério.
Atravessou a avenida principal já vazia e se dirigiu ao parque
em frente a igreja, ali no meio da noite e das grandes árvores
seria  o local da troca.
Pacote x dinheiro.
Um carro da polícia passa fazendo a ronda no exato momento
em que ele chega ao parque e é encoberto pela sombra
da noite e das árvores.

Alguém se aproxima, mas passa por ele sem falar nada,
apenas olha  e segue em frente. Logo Pedro aparece.

-Rápido, não tenho muito tempo, me meti numa enrascada e
preciso sumir por um bom tempo.

-Mas o que aconteceu cara?

-Uma briga com minha namorada e acabei perdendo cabeça, fiquei
nervoso, ela caiu do oitavo andar, fugi, os irmãos dela estão todos
atrás de mim. Ela morreu cara.

Pedro falava com pressa, dizia coisas sem nexo, parecia duvidar
das próprias palavras.

João entregou o pacote com os documentos falsos e recebeu
o pacote de dinheiro. Pedro se despediu e sumiu na escuridão
da noite com o homem que o acompanhava, um segurança armado.

João subiu a escada lateral que o levaria a torre da igreja,
gostava de ficar lá vendo a cidade na madrugada, os sons,
os silêncios, os solitários , as prostitutas, os travestis,
os garotos atrás de drogas e a polícia sempre rondando,
as corujas, os morcegos.

Naquela noite algo havia mudado na paisagem, olhou para local
onde havia estado  minutos antes com Pedro e o que viu o deixou
gelado. Alguns homens, uns 4 ou 5 procuravam por alguém,
rondavam o parque, olhavam para os lados, logo depois chegou
a polícia conversaram e saíram todos na mesma direção, 
a casa de Pedro.
Sentiu que desta vez a missão poderia lhe sair caro demais.
Poderia ser descoberto e não queria nem pensar em voltar para
a cadeia. Passou dois amargos anos em meio ao mais baixo nível
a que um homem pode descer, sujeira, drogas, doenças,
violência, humilhações e medo.

Esperou algum tempo e seguiu de volta para o seu esconderijo.
-Vamos viajar, vamos para bem longe por um tempo. Até as
coisas esfriarem. Viviane vai comigo. Não precisamos levar nada,
Temos que fugir esta noite ainda.
Pensava enquanto caminhava apressado.

Chegou no alto do terreno viu que as luzes do porão estavam
acesas. Desceu correndo as escadas de chão batido, pulando
de dois em dois degraus, quando chegou ao porão a porta
estava aberta.
Não havia ninguém ali.

Um bilhete pendurado na porta da geladeira.
-Nos diga onde está aquele assassino e nós a devolveremos
sem ferimentos. Aliás ela é muito bonita.

Mil pensamentos, um tormento de ideias e raiva de viver
no submundo e ter levado a mulher que ama para aquele lugar.
Foi para o quarto, pegou uma garrafa de whisky e bebeu,
cheirou, bebeu até perder os sentidos.

Nunca  mais soube de Viviane e nem o paradeiro de Pedro.
Seguiu viajando sozinho. Estava numa praia no norte do país.
Ali ninguém  o conhecia, vivia com seus fantasmas
e só tinha como amigo o mar azul e inquieto.

Na frente da casinha onde vivia havia um trapiche onde
desembarcavam os raros turistas em busca de aventura
já que o lugar era selvagem e sem infraestrutura nenhuma.

De repente algo lhe chamou a atenção, um casal de mãos
dadas desce do barco e segue até um quiosque em frente a praia.

Não tinha nenhuma dúvida eram Pedro e Viviane.

Ele jamais havia desconfiado de nada entre os dois.
Não resistiu a raiva e a busca por respostas foi mais forte,
e saiu atrás deles, mas o quiosque estava vazio.

Olhou para o barco no trapiche  e só viu os cabelos de Viviane
balançando ao vento, levando embora junto com ela todas
as respostas, todos as dúvidas e toda a culpa
que sentia por achar que ela havia morrido.

Ficou na areia, no trapiche, olhando o mar, o vazio…

Vênus

3 comentários:

A. Mandel disse...

mais um lindo conto que prende e surpreende com sua atmosfera e convida-nos a criar o cenário.
parabéns!!

Inez Alvarez disse...

Gostei ! Adoro contos e histórias que nos levam a acreditar numa situação mas que no final percebemos que estávamos na trilha errada :)
Já tentei escrever contos também (e do estilo desse que é o que mais gosto) mas não consigo criar este clima que vc cria e para esse tipo de conto isso é fundamental.
Gostei muito.
Bjssssss

But I Must Confess disse...

amazing! muito original e lindo!