22 de jul de 2010

O Triângulo













-Por favor, pegue o “LP” do Pat Metheny. Está naquele balcão.
Meu olhar deve ter sido engraçado, tipo: - ”what????”
Nunca ouvi falar desse cara. A gerente com cara de sabe tudo viu meu olhar perdido e falou:

-Está junto com os clássicos.

Nossa grande ajuda! Chopin, Bach, Mozart, Erick Satie, Beethoven, Debussy, Vangelis, Vargo e nada de achar o tal “Pat Metheny”. Senti que fui diminuindo de tamanho, devo ter ficado com um metro e meio de altura. Olho para o caixa e vejo que o cliente já pagou a conta e olha em minha direção. Corei.

Então, como uma manada de búfalos que passa arrasando tudo ela veio com seu salto alto e seu nariz empinado, arrogante. Com um só gesto humilhante puxou o maldito LP de capa branca. Uma capa toda branca, que falta de imaginação! E o nome que jamais esquecerei “Pat Metheny”.
Quando o cliente saiu pela porta eu me tranquei no quartinho escuro dos fundos e chorei, chorei me sentindo humilhada e ferida, me sentindo burra e inútil.

Eu sei o motivo dessa implicação comigo. A gerente Léa tem um caso com um dos sócios da empresa que é casado e que deve pesar uns 120 kg. Mesmo assim ela cisma comigo, acha que ele me olha diferente. Quando ele chega, ela o leva rapidamente para a salinha dos fundos.

Mas quando ele não age como um cachorrinho domado vem falar comigo. Um homem simples, engraçado. Falo com ele normalmente, sem maldade, sem interesse alguma como falo com os colegas de trabalho.

Quando ele sai, ela se vinga. Se algum menino me liga ela diz que não estou, se ela passa a ligação me pede pra falar rápido. Sempre faço os trabalhos mais pesados em que acabo me sujando toda.

Mas acabou hoje foi à última vez. Com os olhos vermelhos e lábios inchados saí do quartinho escuro fui até a mesa dela:

-Estou pedindo demissão. Depois venho buscar minhas coisas.

Ela tentou argumentar alguma coisa, mas não dei ouvidos.

Senti o vento bater no meu rosto assim que saí da loja. De repente me senti leve, livre, a rua estava mais bonita, o choro de 10 minutos atrás eu já nem lembrava. Encontrei por acaso meu amigo Mário. Resolvi não voltar para casa naquela tarde. Não queria pensar nos problemas que viriam com a minha demissão. Mário me levou para o cinema. Passei em frente à loja e fui para a sessão da tarde. Cinema vazio e Batman na telona.
Uma semana depois o desespero:

- E agora? O que faço? Não conheço ninguém aqui, Mário foi para a França, não consigo trabalho, não tenho mais dinheiro e...tenho fome.

Tive que voltar na loja para buscar algumas coisas minhas que haviam ficado lá. Léa não estava uma colega minha entregou as coisas numa sacola da loja, quando a abri vi que havia um bilhete:

“Preciso falar com você. Compareça neste endereço o mais rápido possível.”

Eu perguntei a minha colega quem deixou o bilhete, mas ela disse não saber nada sobre o bilhete.
O endereço é bem aqui perto, vou até ali ver o que é.
No prédio onde já estive algumas vezes, quase em frente à loja onde eu trabalhava quinto andar, sala 503.
Uma sala simples. Uma recepcionista.

-Eu gostaria de falar com o Jaime. Ele está?

5 minutos depois ele aparece na porta. Um moreno claro, olhos muito verdes, alto, forte e mais jovem que eu.
Nunca o vi antes. Ele me pediu para entrar numa salinha pequena onde só havia uma mesa de reunião e cadeiras.

-Você quer trabalhar?

-Sim. Estou precisando, mas está difícil.

-Eu tenho um trabalho para você.

Fiquei surpresa. Não pode ser verdade, não tão fácil assim, o que vem depois? Quem é este jovem? De onde ele me conhece?

Todas as perguntas do mundo até que ele me diz:

-Amanhã, 10 horas neste endereço. Vista algo discreto. É uma senhora que vai entrevistá-la. Conservadora entende?

-Sim. Obrigada
Só consegui dizer sim. Saí da sala ainda duvidando da facilidade, da rapidez, do bilhete, do lindo jovem de olhos verdes.

E assim no mesmo dia, logo após a entrevista eu estou sentada em uma mesa trabalhando numa das maiores empresas da cidade, recebendo um ótimo salário, num ambiente ótimo e com pessoas muito acolhedoras.
Meses depois Jaime apareceu na empresa onde trabalho. Combinamos de sair. Marcamos um jantar na minha casa e assim começamos a namorar.
Um mês de namoro e ainda não descobri de onde ele me conhece. Tivemos uma noite maravilhosa e logo ao amanhecer tento mais uma vez desvendar o mistério que me aflige.

-Jaime, você precisa me dizer de onde você me conhece? Como conseguiu meu emprego? Por que eu?

-Eu conheci você numa praça.
-Mas que praça é essa? Em que cidade? Quando?
-Numa praça onde existe um triângulo, você não me viu. Desde aquele dia eu procurava você. Temos uma ligação que vai além do que você imagina.
-Mas que ligação? Como você me encontrou?

-Procurei você por todas as cidades onde você já morou. Quando consegui descobrir onde você estava trabalhando fazia dois dias que você havia pedido demissão.

-Eu não entendo. Por que você fez isso por mim? Alguém pediu para você fazer isso por mim, me fala quem foi?

-Não sei explicar. Algo me ligou a você no momento em que vi você naquela praça. Dentro do triângulo.
-E onde você trabalha? Quem é você? Onde você mora?

-Eu trabalho com um amigo, viajamos muito de avião, sou o braço direito dele. Ele é dono do maior jornal aqui da cidade. Fala isso, me beija, se enrosca todo em mim e volta a dormir.


Desisto. Nada do que quero saber ele responde. Cada frase me deixa mais confusa.

Um dia ele deixou de ligar, deixou de me visitar, um dia ele sumiu, assim como apareceu.

Um anjo? Um membro da maçonaria? Um fã? Um amigo?

Jamais saberei...

Vênus

16 de jul de 2010

*POESIA NUA*























Quem sabe a noite
deitada languidamente
nos braços da loucura
onde a vida renasce
sinto-me nua

Em mim a poesia
é um momento delirante
procura constante
um medo
um jeito insano de ser

É um perder-me sem fim
encanto
um jeito
á procura do ser
á procura de você

Vênus 

13 de jul de 2010

Amante profissional





















I

Ainda no aeroporto ele procura uma mesa no café quase vazio. Abre o jornal e como já esperava estava lá a notícia na capa do jornal:
-Suicídio em hotel na capital!

Joga o jornal no lixo e se dirije para o embarque. Logo estará longe.

II


Um dia antes num hotel na rua mais movimentada da cidade o detetive revista o quarto.
De estranho nada além de fita adesiva, nenhum sinal de luta, nada fora do lugar, tudo parece perfeito demais.

O corpo na calçada. Olhando da janela do 9º andar o que se vê é apenas uma massa desfigurada e sem vida formando um contrate absurdo com a linda manhã de Janeiro e do sol banhando cada vez mais quente as ruas.

-Qual o nome do hóspede, telefone?

-Estão aqui.

O gerente do hotel entrega a ficha que havia sido preenchida horas antes pela vítima.

O detetive liga para o número do telefone, mas não existe ninguém com o nome de Paulo Fonseca naquele número e endereço em Santos. Procura então e acha pelo nome um Paulo Fonseca em Belo Horizonte, mas o próprio Paulo atende ao telefone.
No corredor os hóspedes começam a aparecer no corredor em busca do café da manhã, na sua maioria executivos saindo para suas reuniões de negócios.
Não fazem idéia do que aconteceu. Parece tudo normal não fosse a presença de dois policiais na porta do quarto 905.

Lá embaixo o corpo de bombeiros e a polícia já não deixaram vestígio do acidente. Em pouco tempo a rua estará lotada de gente por todo lado.

Um dos policiais que está na porta de guarda diz calmamente ao seu colega:

- Foi assassinato.

O policial mais jovem e ainda tentando se habituar ao que viu ali responde:

- Como pode se ele parecia estar sozinho? Não há sinal de luta é suicídio. Mas deve haver um motivo, um bilhete, algo assim.

-Vai saber?

O policial mais velho, cansado de ver casos estranhos conta os dias para se aposentar e não precisar mais ver coisas desse tipo.

No quarto do hotel o detetive Pedro está intrigado e não se convence que foi suicídio.

- Tem que haver um motivo, um bilhete. Algum vestígio.
Senta-se numa poltrona ao lado da cama e observa atentamente o quarto, em silêncio.
Algo detém seu olhar por um momento, um volume maior no colchão, mas já havia retirado tudo e não havia nada de estranho ali de repente salta da poltrona:
-Uma tesoura, uma faca afiada, por favor?
O gerente sai e logo volta com uma tesoura ainda não entendendo nada. Quando entra no quarto percebe que já não é necessário tesoura nenhuma.

O detetive Pedro encontra no tecido aberto na parte de baixo do colchão um laptop e um celular enrolados em fita adesiva.

Um técnico em informática é chamado. Todos os dados do laptop foram apagados.
Enquanto o técnico trabalha na recuperação dos dados, o detetive Pedro descobre que todos os números de telefone da agenda foram apagados menos um último número discado do celular.

O irmão de Paulo do outro lado da linha parece resignado com a notícia e conta ao policial que o irmão sumia de vez em quando de casa. Há um mês saiu dizendo que iria viajar e não dera notícias até a noite anterior quando ligou dizendo que não estava muito bem e não sabia ainda quando voltaria para casa. Parecia triste, confuso, desiludido com algo que lhe acontecera.

Nos dados recuperados do notebook está o motivo. Muitas fotos de Paulo e um jovem de aproximadamente 1,90m, olhos verdes e corpo definido. Os dois juntos em um cruzeiro. Pareciam muito íntimos.

Num dos textos recuperados Paulo escreve sobre a desilusão que sofreu quando depois de 20 dias maravilhosos no cruzeiro as coisas se complicaram, o jovem começou a sumir por horas. Numa noite Paulo o seguiu e o viu entrando na cabine de uma linda loira. Paulo ficou parado sem saber o que fazer, desnorteado haviam feito mil planos e agora ele sentia-se traído, perdido, sozinho e ainda apaixonado. Sabe que foi usado. Na noite anterior havia feito um depósito de uma grande quantia em dinheiro para o jovem. Voltou para á cabine. Quando o jovem voltou fingiu que nada havia acontecido.
Estavam chegando á cidade onde o navio ficaria atracado por dois dias e lá resolveria o que fazer.
Disse ao jovem que precisava ficar sozinho e que passaria a noite num hotel. O jovem se mostrou contrariado, mas ele sabia que no fundo era tudo falso. Ele aproveitaria a noite livre para passar com a Loira da cabine 25.

Começou a escrever o que seria um bilhete de despedida que ficou pela metade. Talvez tenha começado a chorar e não conseguiu terminar o bilhete. Talvez por medo de perder a coragem do próximo ato. O fato é que ao que tudo indica foi mesmo suicídio.
-Caso encerrado: Suicídio!
Os policiais na porta do quarto se entreolham surpresos pela rapidez com que o detetive resolveu o caso.

O detetive Paulo guardou na pen drive o texto e as fotos e foi embora. Sabe que vai continuar a investigação em segredo.

III

No primeiro vôo para Alemanha naquela noite, poucos passageiros, um homem sentado sozinho numa das últimas poltronas. Uma expressão de alívio.

Pensa nas folhas e mais folhas de texto que escreveu até achar ao mais adequado, o texto não deixaria dúvidas. Fez tudo certo, as fotos, os textos apagados do laptop, cada passo havia sido cuidadosamente estudado.

Por um momento lembra-se do último beijo que pediu a Paulo perto da janela.

Logo depois o corpo caindo.
Saiu apressado pelas escadas de incêndio. Jogou as luvas na lixeira perto de onde deixou o carro estacionado na rua deserta. O vento gelado desalinha seus cabelos negros.

No avião ele observa atentamente. A procura da próxima vítima.


Vênus

3 de jul de 2010

A Menina que enterrava jóias















O primeiro presente secreto foi um Anel Solitário.


Fiquei completamente fascinada. Vesti delicadamente para não quebrar o anel no meu dedo, mas ficou grande demais.

Passei horas no banco do jardim admirando aquele tesouro. A brisa da tarde traz o aroma das flores de jasmim tornando aquele aroma o aroma do Anel Solitário.

Depois de passado o encanto e o medo a dúvida:

-E agora, o que faço com isso? Meus pais não podem ver. Vão achar que roubei, vão querer saber como surgiu isso aqui.

Tive uma idéia brilhante. Corri até meu quarto, esvaziei minha caixinha de bijuterias que está quase vazia, só tenho um par de brincos que usava quando bebê e umas continhas coloridas. A caixa de madeira toda forrada de veludo preto por dentro vai ser o meu pote do tesouro.

Corri de volta até o jardim e fui para uma casinha velha que meu pai usa para guardar ferramentas de trabalho e outras coisas.É um lugar estranho, cheio de coisas, escuro. Não entro sozinha na casinha.

Com uma colher de jardim abro um buraco na terra, no vão entre o chão e o assoalho da casinha de madeira. Suando, com medo que alguém visse, enterrei o mais rápido que pude o meu tesouro.

Voltei para casa, meus pais e irmãos não notaram meu olhar sonhador. Eles não prestavam muita atenção em mim e eu só pensava no Anel Solitário.

-Que nome lindo! Aquela pedra transparente e brilhante no alto de braços delicados. Solitário.

Tênis e meias brancas até o joelho, saia plissada marinho, camisa branca. Cabelo num rabo de cavalo. É assim que vou todos os dias para a escola. Todos os dias com um segredo que só eu o meu admirador secreto sabemos. Este segredo me dá uma sensação boa, como pode acontecer isso comigo? Será que minhas amigas também escondem segredinhos assim?

Na saída da escola ele caminha comigo de volta para casa. Não falamos muito. Não sei o que dizer para aquela figura fina, alto e magro, tímido que nunca ousa olhar para mim.

Eu não sinto nada por ele a não se a cumplicidade de um grande segredo. Mas imagino que ele sinta algo por mim. Eu sinto-me forte e cheia de energia, ativa e exuberante em todos os sentidos, não levo desaforo para casa, vejo nele um menino fraco. Isso me cega e não me deixa ver algo bonito nele.

O apelidei de Farinha Seca. Ele não reclama, parece feliz que eu o chame assim, deve sentir como o único afeto que lhe dou.

Perto da minha casa, ele não levanta os olhos, apenas me entrega um embrulhinho vermelho e sai correndo.

-Hei? Espera Farinha Seca? Fala comigo!

Mas ele já estava longe. Sem olhar para traz.

Minha família inteira na mesa me esperando para o almoço. Meu irmão mais velho nota que estou muito vermelha:

-O que é isso, você andou aprontando no colégio?

-Não aconteceu nada, é o sol, está muito forte.

Mal comi, cabeça baixa durante todo o almoço. Meu irmão me olha de vez em quando de rabo de olho.

Durou uma eternidade aquele almoço.

Ainda de uniforme, com o embrulhinho vermelho corri para o meu banco no jardim.

Abri o embrulho apressada, meus olhos brilham. Um anel dourado. Nunca senti algo assim em minhas mãos, admirava a forma, a cor brilhante dourada e a pedra de rubi vermelha como sangue, retangular, presa apenas por quatro pequenas e delicadas garras.

-Que lindo! O que faço com isso? É grande para meus dedos e não poderia usá-lo, como explicar isso para os meus pais? Será que “Farinha Seca” rouba dos pais dele para me dar?

Os pais dele têm uma grande loja de tecidos, roupas, jóias, relógios e armarinhos. Estava ficando perigoso demais.

-Mas como parar algo tão maravilhoso e belo?

Vou até a casinha e com a espátula desenterro minha caixinha de madeira. Abro rapidamente e olho fascinada para os meus dois tesouros. O Anel Solitário não está mais só.

Enterrei a caixinha e fui direto para o meu quarto. Passava horas olhando para o teto pensando no meu tesouro e no “Farinha Seca”.

Minha mãe preocupada quer chamar o seu Diamantino, homem que me dá medo, gordo, forte, dono da farmácia. Tudo para ele se resolve com uma injeção e eu tenho tanto medo.

-Não tenho nada mãe, só quero ficar aqui no quarto.

-Mas Lúcia você nunca foi assim, conta para a mãe o que está acontecendo? Conta?

-Mãezinha, não é nada. Eu estou bem.

Meu deu um forte abraço e saiu do quarto. Naquela noite não dormi. Sonhei que a polícia estava na casa dos meus pais, que tentaram prender o “Farinha Seca” e eu o defendi dos policiais e o salvei.

Meses se passaram e minha caixinha estava quase cheia. Meu tesouro agora já não me causa medo. Ninguém vai descobrir. Falei com “Farinha Seca”, fiz ele me prometer que não vai mais me dar jóias.

O ano escolar terminou. Não vejo mais o menino dos anéis e passam dias que não me lembro do tesouro enterrado no jardim.


Tenho 15 anos agora. Já não sou mais a meninas de meias até os joelhos e “Carlos” o meu “Farinha Seca” mudou muito.

Passei a vê-lo com outros olhos. Quando estamos com nossos amigos e amigas, sinto aquele olhar de cumplicidade dele a procura dos meus olhos. Sinto que ele quer dizer algo, mas nada fala.

Um dia ele aparece na casa dos meus pais e pede para falar comigo. Fiquei surpresa e apavorada:

-Ele veio pedir as jóias de volta. Os pais descobriram tudo. Ele vai contar tudo para os meus pais.

Mas não. Sentamos lado a lado na varanda da casa. Tímidos buscando palavras que faltavam, pensamentos e a certeza que de que sentíamos algo um pelo outro, algo que nos ligaria para sempre.

Fui passar uma semana na casa de praia da minha irmã. Minha mãe ligou e disse:

- Lúcia, vendemos a casa. Já estamos na casa nova. Você vai adorar! Vem logo para casa!

-Sim mãe. Vou hoje mesmo.

No caminho de volta para a nova casa fui lembrando casa vez que desenterrava e enterrava as jóias e de como agora ela ficavam lindas nos meus dedos. Do prazer de ver tudo brilhando e a melancolia por saber que nunca poderei usá-los. Ficariam lá para sempre como prova do amor de Carlos. Como um segredo só nosso. Não sei o valor financeiro das jóias, só sei o valor sentimental e a beleza.

Cheguei à minha cidade com o coração apertado. Se a casa estiver vazia ainda vou tentar desenterrar minha caixinha secreta, mas a casa já tinha outro dono. Tudo estava em obras. Um homem pintava a fachada casa. Outros construíam um enorme muro de pedras. A casinha velha de madeira puseram-lhe abaixo, construíram no lugar uma garagem enorme.

E foi assim que meu tesouro ficou para sempre enterrado. Mas jamais esquecido.

Poderiam ser bijuterias fajutas, dessas que vem como brinde junto de algum produto, poderiam ser jóias caríssimas, mas o segredo que me unia a Calor e a declaração silenciosa do afeto dele tornou essa caixinha o maior tesouro que já possuí na vida.



Vênus

1 de jul de 2010

O Malandro sedutor




















Ele tem o tipo físico de homem que me atrai, chama minha atenção. Mexe comigo. Quando o vi chegando senti imediatamente um arrepio, mas faço de conta que não percebo a presença dele.

Ele também me vê, tanto que uma hora depois telefonou.
Fiquei feliz, ego inflado.
Quem é a caça? Quem é o caçador?
Marcamos um jantar num restaurante muito diferente, um antigo vagão de trem.

Agora as dúvidas de toda mulher no primeiro encontro:
-O que vestir, que sandália usar?

Ele aparece sempre bem vestido quando vai até a empresa em que trabalho resolver algum coisa ou inventa alguma coisa para ir até lá me ver?
Delicio-me com essas hipóteses.

Pronto decidi. Vestido preto junto ao corpo, sandália também preta, salto e tiras finas que deixam os pés quase nus e levemente curvados, sinuosos. Perfume Poison.

Ansiedade.

Ele vem, não vem. O que vai acontecer depois?
Uma coisa eu sei: - Quero-o!

Um pouco atrasado, primeiro defeito. Nunca deixe uma mulher esperando. Erro fatal.

Ele ligou avisando que está esperando no estacionamento. Demorei um pouco para dar a entender que ainda não estava pronta. Quando chego ao estacionamento fico perplexa.
Pensei:
-Mas o que é isso? Não acredito no que estou vendo.

O homem trajava nada mais nada menos que o traje inusitado.
Chapéu panamá, camisa listrada de verde e branco, calça branca justa, sapatos brancos e para completar uma Brasília amarela caindo aos pedaços.

Chegamos ao restaurante Vagão. Ele sempre querendo agradar, muito falante, olhos azuis estonteantes.
Eu sempre delicada e simpática tentando disfarçar, mas estava incomodada com tudo aquilo. Havia algo errado com aquele homem. As roupas, o carro, chegar atrasado.

Comigo também estava tudo errado. O vestido justo, o salto alto, nada tinha a ver com aquele lugar, verão, calor e eu tentando sorrir para ele, sensual, enquanto milhares de mosquitos devoravam minhas pernas debaixo da mesa.

Uma mulher pode ser sensual sentindo picada de mosquitos sugando seu sangue quente e fresco? Impossível!

Queria sumir. Sabe quando você deseja ter o direito de fazer um pedido? Eu faria um:
-Quero minha cama, minha casa, socorro!

Terminamos o jantar. Ele me levou para casa. No carro para fechar a noite com chave de ouro ele faz uma confissão (fatal):
-Olha, já era para ter falado, mas não queria falar antes de jantar com você, conhecer você melhor. Eu tive receio que você não aceitasse meu convite se soubesse que eu sou casado.

Pensei: Calma mulher. Classe.
Ele foi embora e eu subi para o apartamento, tomei um banho, passei remédio nas pernas, mas não conseguia deixar de me sentir ridícula.

-Como pude me deixar enganar assim? Que idiota que eu fui.

No dia seguinte ele ligou. Fui simpática, recusei o convite para o cinema.
Na semana seguinte, já sem paciência, não atendi mais o telefone.
Na terceira semana ele apareceu no meu prédio. A primeira vez eu atendi o interfone, desconfiada fiz de conta que era outra pessoa:
-Quem quer falar com ela? Não, ela não está. Você quer deixar recado?

Ninguém respondeu. Foi embora. Não vai me procurar mais.

Na noite de sexta-feira sempre saio para dançar com minhas amigas. Para recarregar as energias, para esquecer os problemas da semana. Minha amiga já está pronta. Estou calçando a sandália quando a campainha toca.
Achei estranho, ninguém sobe sem ser avisado. Deve ser algum vizinho.
Quando chego á porta e vejo quem está do outro lado me afasto da porta.
Só o ouço dizer:

“Devassa!
Eu sei que você está em casa. Você não tem coração? Não saio daqui sem falar com você. Abra essa droga de porta! Abra ou quebro tudo. Abra por favor. Eu preciso ver você. ”

Quando será que um homem se dá conta de que ele não está no controle?
Que momento é este em que ele perde a cabeça a razão e até a vergonha e o orgulho próprio ferido?

Silêncio! Ele foi embora.

Sentimento de culpa.

Preciso de um drink. Um Dry Martini com uma cereja vermelha para esquecer o episódio lamentável.
Uma hora depois estamos chegando ao clube. De longe vejo uma Cherokee preta com a porta do carona aberta, som ligado e dois homens conversando e bebendo.

Um deles é Jorge.

Eu sabia. A Brasília e aquela roupa “discretíssima” eram para não chamar atenção. Engraçado.
Sorri.

Desistimos do clube. Fomos para um barzinho e Jorge desistiu de sair comigo, quando nos encontramos casualmente ele apenas me olha.

Poderia ser diferente essa história?

Sim. Poderia.


Vênus