30 de jul de 2011

Inquiesta-me


















A lua desce
imensa grave
aloja-se na concavidade
da minha insônia

Uma ternura doce
toma conta de mim
Saio pra rua viajo
pela noite
nos braços da lua cheia

Em noites assim
sinto teu olhar aqui
na luz da lua
derramando-se sobre mim
quente e alucinante...

Inquietas-me

Nane

28 de jul de 2011

Pele Nua



Ouço
o som intocável
da tua voz

Vejo teu corpo
que passa por mim
como nuvem
mas não te alcanço

Cisnes negros
dançam para mim,
flutuam
em imensos lagos
de gelo e luz

São meus sonhos
que prendem-se
em suaves teias,
algemas de vidro

Amanheço
ainda com o
toque dos teus dedos
a marca dos beijos
pedras preciosas
diamantes
cravados
em minha pele nua...

Nane

26 de jul de 2011







































(...)Num beijo certeiro
como quem corta morangos
de estribilho encarnado
plantaste-me
um eco na boca(...)

25 de jul de 2011

Poema mudo


Terror
de te amar
num sítio
tão frágil
como o mundo
Mal

de te amar
neste lugar
de imperfeição
Onde tudo
nos quebra
e emudece
Onde tudo
nos mente
e nos separa...

Sophia M. Breyner

24 de jul de 2011



















Don’t go far off, not even for a day, because —
because — I don’t know how to say it: a day is long
and I will be waiting for you, as in an empty station
when the trains are parked off somewhere else, asleep.

Don’t leave me, even for an hour, because
then the little drops of anguish will all run together,
the smoke that roams looking for a home will drift
into me, choking my lost heart.
Oh, may your silhouette never dissolve on the beach;
may your eyelids never flutter into the empty distance.
Don’t leave me for a second, my dearest,
because in that moment you’ll have gone so far
I’ll wander mazily over all the earth, asking,
Will you come back? Will you leave me here, dying?

By Pablo Neruda

22 de jul de 2011

Debaixo do azul sobre o vulcão




E eu vi tudo
até à dor.
Vi o amor
e a dança do amor.
Frente a frente,
a paixão e a morte
combatiam
sem tréguas.

O sangue procurava,
obsessivamente,
os becos da noite
como uma ribeira
quente e devoradora.

Caíam os amigos,
cantando.
Só quem ama
pode acabar assim,
cheio de um riso louco.

José A. Baptista

16 de jul de 2011

Tenho hambre e tu boca...





























Tengo hambre de tu boca,
de tu voz,
de tu pelo
y por las calles voy sin nutrirme,
callado, no me sostiene el pan,
el alba me desquicia,
busco el sonido líquido
de tus pies en el día.

Estoy hambriento de tu risa resbalada,
de tus manos color de furioso granero,
tengo hambre de la pálida piedra de tus uñas,
quiero comer tu piel como una intacta almendra.
Quiero comer el rayo quemado en tu.

"Tenho fome da tua boca,
da tua voz,
teus cabelos,
e pelas ruas vou sem me nutrir,
calado, não me sustenta o pão,
a aurora me desconcerta
busco o som líquido
dos teus pés pelo dia"

Pablo Neruda

13 de jul de 2011

Tatua-me



Tatua-me
Marca-me
Crava-te em mim

Serei um pouco de ti!
Assina-me
Possui-me
Entrenha-te em mim
Estarei presente em ti!

Prende-me
Ata-me
Aprisiona-te em mim
Sou escrava de ti!

Devora-me
Saboreia-me
Alimenta-te de mim
Que eu sacio-me em ti!

Abraça-me
Envolve-me
Enrola-te em mim
Refugio-me em ti!

Faz
Desfaz
Refaz todas as de mim
Eu desfaço-me em ti!

Grita
Chora
Clama por mim
Chamo por ti!

Anda
Corre
Tropeça e vem a mim
Eu já cheguei a ti!

Apressa-te
Despacha-te
Urge ter-te em mim
E de mim desfaleço em ti!

Beija-me
Aperta-me
Enlaça-te em mim
Eu envolvo-me em ti!
Tatua-me
Já faço parte de ti!

A.

11 de jul de 2011




“Em algum lugar, em toda aquela neve, ela via seu coração partido em dois pedaços.”

(A menina que roubava livros)

Flores com água




(...)Seu corpo
arderá para mim
sobre um lençol
mordido por flores
com água.

Ah! em cada mulher
existe uma morte
silenciosa;
e enquanto o dorso
imagina,
sob nossos dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos,
navega o sangue,
desfaz-se
em embriaguez
dentro do coração faminto.(...)

Herberto Helder

8 de jul de 2011

Carmim






















"Sua
brunida
brancura (alfa-
zema) de pele
lunar em "carmim"-
seda envolta (pin-
tura chinesa) é
prata (luz pura
sobre luz) que
resplende"

(Claudio Daniel, Livro"
Yumê")

6 de jul de 2011

Toca-me





















Toca-me
o silêncio
de cada palavra
gotas de chuva
manto transparente
cobrindo
a música de cada
letra
a dor de uma saudade
um suspiro de amor
o som de uma lágrima
diluindo-se partícula
por partícula
silenciosamente
pulsando
efervescendo a loucura
que é
o som de uma gota de chuva
sobre a pele quente

NANE

4 de jul de 2011

Butterfly- O Cativeiro




















-Ainda sinto o cheiro forte e ácido do éter, o gosto amargo
que penetra nas entranhas e entontece, não pude lutar,
não vi ninguém, só a mão com um pano branco
aproximando-se de meu rosto incrédulo. Apaguei.
Acordo e olho em volta assustada.

O cômodo iluminado apenas por um lustre antigo
dá ao lugar uma atmosfera melancólica e assustadora.
As paredes e o chão de pedra, uma grande mesa
de madeira antiga organizadamente lotada de vidros
cheios de líquido de todas as cores e tubos de
ensaio fumegantes.

Tento levantar-me, só então sinto que estou
com as mãos amarradas à cama, meu instinto
impulsivo é reagir imediatamente, fugir:

- Preciso sair daqui, quem fez isso
comigo vai voltar. Onde estou?

Depois de várias tentativas de fuga sinto meu
corpo frágil, debilitado, não sei há quanto
tempo estou sem comer, sinto muita sede,
minha garganta dói e o cansaço toma
conta do meu corpo, durmo profundamente.

II
-Estaciono meu Sedan preto em frente ao chalé,
vou até o porta-malas e retiro uma mala de
primeiros-socorros e uma caixa de madeira
escura com alças de couro.

Na porta lateral do chalé olho ao redor,
todo cuidado é pouco, ninguém pode
ver nem saber o que estou fazendo aqui.
Entro no chalé e subo as escadas com pressa,
vou até a porta no final do corredor e entro
sem fazer barulho.

Logo percebo que minha pequena butterfly
 tentou soltar-se, os pulsos ainda estão vermelhos.
Desamarro as cordas com cuidado. Admirando
seus traços delicados por alguns instantes,
nunca estive tão perto dela.

Passei anos, meses, dias, horas observando
ela de longe, quando saía para o trabalho,
quando voltava para casa, se estava sozinha,
feliz ou triste. Sabia de cada passo e
o que gostava de fazer.
Só não gosto de a ver com o namorado, por isso
ela está aqui, para proteger a mulher que desejo.
Quero-a só para mim. Meu desejo arde, tenho
vontade amá-la assim mesmo ainda desacordada,
mas quero que ela seja minha na hora certa

-A manterei aqui até que perceba que
posso fazê-la feliz.
A primeira vez que a vi foi quando ela mudou-se
há dois anos para a casa em frente a minha.

Gostava de contemplá-la inteira, os ombros nus,
a beleza feminina dos seios, mas o que mais me
encanta são os olhos, misteriosos e tristes,
mesmo quando sorri seus olhos não escondem
uma pontinha de melancolia, seus olhos falam
por ela e me transportam para um mundo de
magia em que me sinto envolvido como raras
vezes me senti.
Nas minhas longas noites de sôfrego desejo e paixão,
vigiava sua janela enquanto trabalhava em minhas
pesquisas e preparava as aulas de biologia para
o dia seguinte.
Longas noites de trabalho e amor platônico que
só encontram alívio quando estou no meu chalé,
onde estudo e cuido de borboletas feridas,
as que não sobrevivem são catalogadas e
eternizadas com sua delicada beleza efêmera.

III
Acordo com os pulsos doloridos:
-Alguém esteve aqui e me desamarrou.

Levanto, vou até a mesa onde tem uma mala
branca de medicamentos e faço um curativo
nos pulsos, tomo água e penso em procurar
algo para comer quando uma caixa de madeira
chama a minha atenção, tenho a nítida impressão
de que já vi essa caixa antes.
Puxo a alça de couro e a caixa abre em pequenos
compartimentos, em cada um deles borboletas de
todas as cores com o nome científico, local e data
em que foi encontrada.

Vou até uma pequena porta de madeira e para minha
surpresa vejo que está destrancada, passo por um longo
corredor, desço a escada e entro na sala onde me deparo
com um ambiente aconchegante, a lareira acesa,
chego mais perto do fogo e fico ali por um instante até
ver uma parede inteira coberta de livros.
Tudo aqui é fascinante, mesmo com medo estou encantada.
Ouço passos na varanda se aproximando e não posso
deixar de sentir medo, ao mesmo tempo quero ver
quem me trouxe até aqui, quem quer que seja não
me fez mal algum pelo menos até agora.

Quando abre a porta e vejo meu vizinho não entendo
imediatamente o que ele faz ali, nunca nos falamos,
vejo-o sempre só.

Ele fala de todo seu amor e paixão e diz que agora
eu sou uma de suas borboletas, que não poderei
mais sair do chalé, que ali tem tudo o que preciso.

-Você não pode fazer isso comigo, eu quero ir
embora agora.
Vejo o semblante dele se transformando.
Onde antes via um homem sereno e doce agora
vejo a fúria em seus olhos, ele vem em minha direção
e segura minhas duas mãos junto ao peito dele,
meu corpo colado ao corpo dele.

Não sei de onde surge uma corda, ele amarra minhas
 mãos e fico imobilizada.

Ele me joga no chão, no tapete da sala e como um
 lobo faminto e selvagem rasga minha blusa, meu
peito arfante de medo e raiva. Grito, mas meu grito
é sufocado pelos lábios quentes dele, me beija com
tanta sofreguidão que seus dentes arranham meus lábios.

Desce a língua pelo meu corpo enquanto suas mãos
erguem minha saia e abrem minhas pernas, eu luto
e me debato, mesmo com as mãos amarradas
arranho a pele branca do peito dele, já estou cansada
e fraca, mas busco forças não sei de onde para me
livrar daquele corpo pesando sobre o meu.

Ele tira a própria roupa e nu me abraça e me faz
sentir seu cheiro, seu gosto, me faz sentir a textura
da pele, o desejo explodindo a espera de ser saciado.
Ele me possui inteira e eu não me debato mais.
Apenas me mantenho imóvel.
Como um animal já ciente do seu fim.

Ele ainda está ao meu lado e eu sem dizer nada,
apenas olho para o teto de madeira;

Sinto que a culpa é minha, eu o atraí mesmo sem
perceber, eu o seduzi. O pior de tudo é constatar
que senti prazer quando ele me possuiu,
senti prazer, raiva e dor.

Senti-me vulnerável como uma borboleta e
 culpada pelo prazer que ele despertou em mim.

Ele me leva de volta para o quarto de pedras,
me amarra a cama, ainda nua e me cobre
com uma manta, sem falar nada desparece pela porta.

Estou presa neste chalé e não sei quanto tempo
faz que estou aqui, aos poucos fui me habituando
a rotina dele, vem todos os dias, traz tudo que preciso.
Enquanto leio um livro ele trabalha naqueles tubos e nas
pequenas borboletas que ele toca com o maior cuidado.

Já não o rejeito mais, tornei-me amante dele.
Amante do meu seqüestrador.
Tornei-me uma de suas borboletas.
Mas não passa um dia em que eu não pense em
fugir daqui. E hoje notei que ele está estranho,
sempre fala pouco, mas hoje ele não falou
absolutamente nada.
Fez sexo comigo de uma forma delicada e intensa.

Enquanto tomo banho ouço os passos dele na escada,
ele está indo embora. De repente tenho uma sensação
de perda, saudade dele, como se ele fosse embora
para sempre e nesse momento me dou conta de que o amo.

Visto o roupão e corro até a sala, vejo que ele
deixou a porta aberta:
-Não acredito que finalmente vou conseguir fugir daqui.
Pensei.

Mesmo de roupão abro o grande portão de ferro e
saio para a rua. Ainda vejo o carro dele longe,
sumindo no meio do trânsito da cidade.

Relembro tudo que se passou comigo naquele
chalé e como um "déjà vu" todos os momentos
se juntam e se separam formando um puzzle.
Olho para as casas e as pessoas passando
indiferentes e apressadas por mim,
está anoitecendo e sinto frio.
Volto para o chalé e me deito em frente à lareira...

E espero por ele.

Vênus

1 de jul de 2011

Armadilhas de um Sedutor





















Flores e um cartão.

Já sei até o que vem depois: Jantar, Cama.

Seria assim se a presa caísse na armadilha do sedutor.

O plano deve funcionar, recebo vários ramos de flores com cartões convidando para um jantar e elogiando minha beleza ou com um poeminha já batido.
Quando recebo as flores claro que sinto meu instinto de fêmea satisfeito, seduzi mais um, eles acham que me seduzem quando na verdade foi eu que escolhi por qual deles fazer de conta que me deixei seduzir.
Eu sei que todos usam a mesma tática. Eu me apenas me divirto com isso. Nenhum deles vai me conquistar assim. Não assim.

Mas Antonio chamou minha atenção, deve ter minha idade 20 e poucos anos. Magro, alto, cabelos pretos, olhos que eu não consegui decifrar, um olhar meio distante, talvez tenha sido isso, ele é diferente dos outros sempre tão seguros, sedutores, bonitões. Antonio parecia não me oferecer risco. Segura de que dominaria a situação toda aceitei o convite.

Jantamos num restaurante a beira mar, ele foi gentil e atencioso.
Na frente do meu prédio ele tentou me beijar, eu sorri falei uma bobagem qualquer e o beijei no rosto, quando estava com a porta aberta e certa de que estava livre senti a mão dele me puxando pela cintura de volta para dento do carro.
Me beijou a força. Até gostei. Afinal ele não teria mais que isso. Um beijo no pobre coitado. Nunca mais vai me ver mesmo.
Foi o que pensei.

Estava errada.
Ele é daqueles homens que seguem a mulher, que vive uma paixão platônica, as vêem perfeitas e belas e que passam a noite a pensar como fazer para conquistá-las. Senti que ele é capaz de tudo.

Flores e mais flores chegam todos os dias, meus colegas de trabalho já não estranham mais, eu enfeito a cozinha, dou as flores para a Dona Nita uma senhora que trabalha na cozinha.
A princípio eu só achava graça, pensava como um homem pode agir assim?
Não vê que não tenho interesse nele?
Não vê que o desprezo e que as flores não vão mudar o que sinto?
Mas as flores pararam de chegar. Agora só via aquela figura macambuzia vestido todo de preto, sentado num dos bancos da praça em frente a empresa em que trabalho. Ele me via sair para o almoço, voltar do almoço e a noite quando eu saía lá estava ele. Eu o cumprimentava e inventava uma desculpa qualquer para me livrar dele, aula de inglês, academia, compromisso com uma amiga e o deixava ali plantando. Desconsolado.

Estranhei quando ele sumiu, me senti aliviada.

Finalmente livre!
Queria ficar sozinha, não gostava de ninguém e não pretendia gostar.

Manhã de sábado acordei animada, Janeiro 08:00 da manhã o sol é um convite sedutor, parece que chama: Vem morena , vem para a praia vem....vem andar descalça na areia e balançar as ancas bronzeadas e brilhantes do bronzeador de óleo, vem? Vem entrar no mar e sair de lá como quem está numa passarela com seu bikini amarelo tão pequenino...Ah morena o dia de sol sem você não é o mesmo.

Acho graça dos pensamentos bobos , tomo um banho demorado e visto o tal bikini amarelo e um vestidinho leve e colorido por cima. O kit praia está pronto na bolsa de palha. E claro, os tamanquinhos brancos número 35.

Tudo pronto. Toca o telefone, minha amiga Sandra me apressando.
Vou até a janela para ver como está o tempo. Ah! Céu completamente azul. Amo!

Olho para baixo e vejo o Opala Preto de Antonio estacionado na rua bem em frente a minha janela. Dou um passo para trás não acreditando no que estou vendo.
-O que esse cara quer aqui? Tá maluco? Ah não! Vai começar tudo de novo!

Minutos depois o interfone toca, demoro a tomar a decisão entre atender ou não.
Não atendi.

Olho novamente para baixo, o carro continua lá e Antonio está fora do carro, enconstado. Não parece ter pressa alguma.

-Sandra, acho que não dá pra sair, tem um cara na frente do meu prédio, quer falar comigo, mas eu não quero, ele me assusta, está num Opala Preto. Estou com medo.

-Ai logo hoje? Se ele está na frente do prédio sai pela garagem.

-Não saio daqui. Vem me ajudar, vem me buscar amiga. Por favor?

-Eu vou buscar você? Não faz sentido. Espera mais um pouco que ele deve desistir e não atenda ao interfone.

Estou com medo. Já meio dia e ainda não consegui sair de casa. Meu corpo pede sol quente e a brisa com cheiro de mar. Sandra ligou e disse que vai me esperar na praia. Fico zangada.
Ligo para o porteiro e falo para não deixar ninguém subir sem falar comigo. Ele me diz que um rapaz esteve na portaria perguntando por mim e que ele havia falado que não sabia se eu estava em casa.
Desci o elevador e fui até a garagem, nas laterais tem aqueles tijolos furados de onde eu posso ver a rua. Ele continua lá. Quando a garagem abre para um carro sair eu aproveito e saio do prédio, mas numa velocidade incrível percebo que Antônio já está quase ali na saída da garagem. Volto para dentro a tempo da porta automática se fechar.

Agora ele já sabe que eu estou em casa, que estou fugindo dele. Vejo raiva nos olhos dele. Estou em pânico.
Ele ficou parado na saída da garagem. Nesse momento abre a porta do lado oposto, eu saio correndo em direção ao terminal urbano. Entro no ônibus que está de partida e vou para á frente junto ao motorista.

Ufa! Consegui!

O ônibus começa a sair do terminal e eu respiro cansada e aliviada, mas quando olho para trás vejo Antonio lá nos fundos do ônibus. Ele não se aproxima apenas me olha, um olhar fulminante.
Para minha surpresa ele desce no primeiro ponto de ônibus, mas não tira os olhos de mim.

Me sinto mal, estou ferindo alguém. Até quando farei isso?
O dia para mim não foi mais o mesmo. Aquele olhar. Não consigo parar de pensar nele.

Volto para casa, olho pela janela percebo que o Opala Preto ainda está lá, estacionado no mesmo lugar, vazio. Já é noite, ando inquieta, olho constantemente para o carro preto lá em baixo. Continua lá.

No Domingo acordo cedo e desço para caminhar um pouco, quando dobro a esquina da minha rua vejo que o Opala está cercado de gente ao redor e a polícia tentando ordenar o caos.

Me aproximo e não entendo o que está acontecendo. O carro continua vazio.
Um bilhete gerou o caos.
- Não posso viver SEM você.
Melhor NÃO viver sem você. Fique com o carro.

Meu nome e endereço abaixo.

O corpo dele nunca foi e encontrado. Os policiais acreditam que com a maré o corpo pode aparecer muito longe dali ou nunca aparecer. Saio dali e vou caminhando sem saber bem para onde, ouvi o policial falar que ele suicidou-se na noite anterior.

O que me fez ser assim tão fria?
Como posso ter brincado com o sentimento dele?
Eu não sei amar, eu só sei ferir. O que tenho que faz os homens se aproximarem e se deixarem ser usados e rejeitados como se fossem nada?  Será a roupa que uso, será o jeito que eu ando?

Mudei de apartamento, troquei meu telefone. Mas o que mudou mesmo foi algo dentro de mim.
Passei a sentir uma solidão tremenda e a gostar da solidão.

Volto ao trabalho, alguns meses passam sem nada de novo.
O entegador chega e me entrega um ramo de flores brancas orvalhadas. Pensei:
-Quem será dessa vez. Entediada

Eram de Antonio.

Fiquei surpresa, liguei na mesma hora para a floricultura e perguntei quem havia mandado, não havia bilhetes. A atendente respondeu que um homem havia deixado pago para que fossem entregues flores brancas todas as segundas-feiras.

Pagou em dinheiro, não quis deixar o nome.

E foi assim que Antonio sumiu da minha vida. Eu quis brincar com ele, me divertir e o que aconteceu? Nunca o esquecerei aonde quer que ele esteja.

Vênus