Sexta-feira, Janeiro 22, 2010

Este Cais Vertical
















Vem escolher o encanto para que o mar nos respire
quando a calma sufoca
Vem prender esta visão de inquietante alegria no silêncio mais alto
para que seja farol na ponta de um desejo alado

Esquece o mar absurdo
os barcos de papel eternamente longe os olhos ancorados
os passos como pedras para os braços crescerem verticais
e os sonhos inautênticos
o mar das armaduras submersas por enquanto vem
içar as gaivotas para que as possas baixar quando quiseres
se um céu apenas negro for preciso

Vem dormir sobre mim com o peso das coisas arribadas
o peso de nascerem sem mastros as noites e ser ainda cedo
e ser sempre tão cedo ao pé do mar que os olhos nem repousam
nem as espadas se cumprem erectas na fímbria de água dos desejos

Vem dormir sobre mim ainda é esta a manhã
de quando o mar unificava as escarpas
e as mãos os cumes e os destinos os anseios e as vozes
e é tempo de enfrentar a distância das coisas aqui
onde as coisas não cabem mas todos os rumos se concentram


Carlos nogueira

Segunda-feira, Janeiro 18, 2010

Entre os teus lábios...

















Húmido de beijos e de lágrimas,
ardor da terra com sabor a mar,
o teu corpo perdia-se no meu.

(Vontade de ser barco ou de cantar.)


Eugênio de Andrade

Terça-feira, Janeiro 12, 2010


























...tomou conta de mim!
Toda eu me sinto assim, nua
porque tardas em me fazer tua;
e o teu calor sabe a ausência e a dor...

E percorro, sem olhar, esse lugar...
e tenho medo de
reparar e ver...que não te sei
por te não reconhecer...
Só porque ousei
desnudar-me, assim, para ti, amor...

A.D

Quinta-feira, Janeiro 07, 2010

Intemporal




















Dás-me a tua mão e guias-me no escuro?
Contas-me uma história de encanto
Para que como criança
No teu colo me esconda
Na tua mão adormeça
Os fantasmas se afastem
E a escuridão não exista?

Acendes um sol para mim
Até amanhecer?


O tempo não para
mas o tempo do meu amor
por ti
não tem fim...

Sexta-feira, Janeiro 01, 2010


Aqui cantaste nua.
Aqui bebeste a planicie, a lua,
e ao vento deste os olhos a beber.
Aqui abandonaste as mãos
a tudo o que não chega a acontecer.


Aqui vieram bailar as estações
e com elas tu bailaste.
Aqui mordeste os seios por abrir,
fechaste o corpo à sede das searas
e no lume de ti própria te queimaste.


"Na varanda de Florbela" - Eugénio de Andrade

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