31 de jul. de 2007

29 de jul. de 2007

O poeta não tem fim...O amor, sim


Eu deixarei que morra em mim
o desejo de amar os teus olhos
(que são doces)
Porque nada te poderei dar senão
a mágoa de me veres
(eternamente exausto)
No entanto a tua presença
é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe
o teu gesto
e em minha voz
(a tua voz).
Não te quero ter
porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim
como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho
nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne
como um nódoa do passado.
Eu deixarei...
tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros
e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás
que quem te colheu fui eu,
(porque eu fui o grande íntimo da noite)
Porque eu encostei minha face na face da noite
e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram
os dedos da névoa suspensos
(no espaço)
E eu trouxe até mim
a misteriosa essência do teu abandono
(desordenado).
Eu ficarei só como os veleiros
nos portos silenciosos.
Mas eu te possuirei mais que ninguém
porque poderei partir
E todas as lamentações
do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente,
a tua voz ausente,
a tua voz serenizada.


Vinicius de Moraes

27 de jul. de 2007



Resvalas neste sopro.
Sabes
que tens o olhar ferido
desde sempre, que o incêndio
das palavras em trânsito celebra
prescritas sílabas, ancorados
ritos, desprevenidos
equinócios.
Dantes,
havia um mar crispado
na fissura dos lábios. Hoje, apenas
algumas gotas de sal.


Albano Martins

21 de jul. de 2007

O silêncio de Florbela


Silêncio!...
Noite alta, noite...
Sou o vento que geme,
Sou o vento que vai bater-te à porta...
Vivo longe de ti, mas que me importa?
Se eu já não vivo em mim!
Ando a vaguear
A procurar-te
Beber-te a voz, apaixonada.
Estou junto de ti, e não me vês...
Quantas vezes no livro que tu lês
Meu olhar se pousou e se perdeu!
E na tua casa... Escuta!...
Uns leves passos...Silêncio, meu Amor!...
Abre! Sou eu!...

18 de jul. de 2007



Cold, cold water surrounds me now
And all I've got is your hand,
can you hear me now?
Or am I lost?

10 de jul. de 2007


Yo hubiera sido tu hijo, por beberte
la leche de los senos como de un manantial,
por mirarte y sentirte a mi lado
y tenerte en la risa de oro y la voz de cristal.
Por sentirte en mis venas como Dios en los ríos
y adorarte en los tristes huesos de polvo y cal,
porque tu ser pasara sin pena al lado mío
y saliera en la estrofa —limpio de todo mal—

Cómo sabría amarte,
cómo sabría amarte,
amarte como nadie supo jamás!
Morir y todavía amarte más.
Y todavía amarte más y más.
Neruda

7 de jul. de 2007


Ainda molhadas
de secar as lágrimas
prosseguem
no rosto
nos olhos
nos lábios
sobreviventes
das dores
da memória
de ti
percorrem
os silenciosos
corredores da memória
recompondo as ruínas
rebuscando as palavras
serpenteando cânticos
incensos
ternura

"amo-te"

15 de jun. de 2007


Deita-te agora, a meu lado, sobre o feno,
deixa que o incenso perfume
os celeiros onde adormecemos.

Toca o meu rosto voltado para cima,
como se procurasse no céu as
carruagens de cedro e ouro,
nos caminhos onde me perdi.

Traz-me o cântaro das tuas fontes.
Dá-me a beber a sua água
porque os meus lábios
ardem.
Tenho sede.


José Agostinho Baptista

7 de jun. de 2007

2 de jun. de 2007


... de ti colho as flores
que em minha casa
fazem explodir de luz
os corredores
e esqueço a solidão
que trago acesa
acima de outras dores...

Torquato da Luz

19 de mai. de 2007

Caos do sentidos


As mãos
as tuas mãos
contornam sinuosas
as minhas ancas
na harmonia tempestuosa
de uma melodia hesitante
insinuante
A voz
a minha voz
sussurrando
implorando
a sensação
no caos dos sentidos
e ao longe
não sei onde
não sei
mas sinto o cheiro
devasso da tua ausência

Desejo
o teu desejo...

Tocar o céu...



Queria o

impossível

tocar o céu e

chegar a ti


Vens

todas as noites

apenas

nos meus sonhos


13 de mai. de 2007

Uma colina para os lábios


Folheamos agora
dicionários
cada vez mais breves.

De noite,
os teus cabelos
emigram como espigas
de incenso.

Há gerânios pisados
entre os dedos,
dálias virgens sufocadas
na epiderme.

As palavras
só conhecem o limbo,
a rigorosa película da sede...


Albano Martis

"Bebi tuas palavras,
gotas delicadas
sentirei saudade
quando o silêncio chegar
Sacie minha sede,
sede de amar..."

8 de mai. de 2007

Quando aqui não estás...


Quando aqui não estás
O que nos rodeou põe-se a morrer
A janela que abre para o mar
Continua fechada só nos sonhos
Me ergo
Abro-a
Deixo a frescura e a força da manhã
Escorrerem pelos dedos prisioneiros
Da tristeza
Acordo
Para a cegante claridade das ondas
Um rosto desenvolve-se nítido
Além
Rasando o sal da imensa ausência
Uma voz
“Quero morrer
Com uma overdose de beleza”


Al Berto

3 de mai. de 2007

Lugar secreto

Incomum

lugar secreto

para esconder

o jeito

o gemido

sem sentido

para escalar

num segundo

um lampejo de amor

que me leve

ao infinito

segundo de ti

em mim


1 de mai. de 2007

É um silêncio sem ti...


No instante
em que
senti
o medo
numa incisão
lenta
cortando
a pele
tua voz
imprimiu
no silêncio
a contenção
das mágoas
perdeu-se
no vácuo
solitário
sem palavras

29 de abr. de 2007

Perdi-me de ti


Espelho, és a terra onde as raízes
rebentam de mistérios.
Repetes as perguntas que te faço, porquê?
Repetes os olhares sem fim das coisas paradas.
Repetes o meu olhar.

És um silêncio a morrer, a noite,
a verdade mais triste .

Espelho
quis conhecer-te
e perdi-me de ti.


José Luís Peixoto in "A criança em ruínas"

22 de abr. de 2007


Ficávamos
no quarto
onde por vezes
o mar vinha
irromper

É sem dúvida
em dias
de maior
paixão
que pelo
coração
se chega
à pele


Luis Miguel Nava