30 de mai. de 2020

"Amanhã dar-lhes-emos apenas uma folha da árvore do nosso amor,
uma folha que há de cair sobre a terra
como se a tivessem produzido os nossos lábios,
como um beijo caído das nossas alturas invencíveis
para mostrar o fogo e a ternura de um amor verdadeiro."
Neruda




"Os amantes não se encontram em qualquer lugar.
Eles estão um no outro o tempo todo."
-Rumi


28 de mai. de 2020


Desliza pela nuca
lenta e calma
desce pelas costas
a última gota
na sinuosa curva
inesperada
tonta

inebriada

Desenha paraísos
insinua precipícios
em seu último suspiro
encontra tuas mãos
conchas puras
inicia-se o momento
do sonho que é amar você
no tempo da ilusão
Vênus 

27 de mai. de 2020

"Ele carrega estrelas nos bolsos
por que ele sabe
que ela teme o escuro.
Sempre que a tristeza chega
pinta galáxias
na parte de trás de suas mãos."

26 de mai. de 2020



“I want to love you wildly. 
I don’t want words, but inarticulate cries, 
meaningless, from the bottom of my most primitive being, 
that flow from my belly like honey. 
A piercing joy, that leaves me empty, conquered, silenced.”

― Anaïs Nin

(...) mar imenso,
praia deserta, 
horizontal e calma.
Sabor selvagem,
rosto da minha alma.
Eugênio de Andrade

Norah Jones - What Am I To You?



Você gravaria
meu nome
em uma árvore ?

25 de mai. de 2020



"Se eles perguntarem, amor, se perguntarem conte a velha história do navio que saiu e me perdi, não conte, amor, não conte que o mar é você e o navio sou eu. " . Fernando Namora, em "Relevos"

Stalker

O encontro de negócios havia sido marcado para quarta-feira.
Na segunda-feira o telefone toca, era ele.
Surpresa atendi...queria me ver já, antecipando o encontro.
Não demorei a me arrumar e sair, não, não me vesti para um encontro, mas nem sempre o simples e causal deixa de ser sensual, sem pretensões ou pensando em nada apenas que resolver o que tinha que resolver, um vestido preto e tênis.
De longe o vi, impossível não o ver no meio da multidão como alguém que me deixa intrigada no mínimo.
Somos iguais. É um discrição e postura que fala por gestos e olhares, mesmo quando não queremos.
Ele me viu chegando e parecia ansioso, mas discreto.
Senti um clima tenso. O olhar no meu, eu desviava e voltava a olhar para uns olhos de um verde impossível, meio tímida, meio segura, tentando decifrar naquele milésimo de segundo, aquela tensão que estava ali e aquecia e inebriava cada pedaço de mim. Como é possível imaginar mil coisas em tão pouco tempo?
Eu queria falar, eu queria ouvir, queria prolongar, mas acabou e cada um foi para sua vida.
Mas não foi simples assim.
Cheguei em casa e abri o envelope que ele me entregou.
O contrato e num papel amarelinho um endereço. 21 horas.

-Você quer?

Eu sorri, eu sorri tentando decifrar o que ele quis dizer com o olhar, o que não percebi nas entrelinhas, não, não vou.
Das 20 às 21 hora só conseguia pensar nele.
Fui para a banheira, passei meia hora no meio de espumas e espumante e isso atiçou ainda mais minha curiosidade.
Ele estaria também criando um cenário para me receber?
Estaria ansioso para me ver?
Estacionei o carro em frente a uma casa branca e envidraçada, com um jardim bem cuidado que contornava uma sinuosa e azul piscina...
Batia à porta...nada.
Estava entreaberta.
A casa toda em branco e azul...Hauser no telão.
Espumante e duas taças ainda vazias.
Ele não estava lá.
Algo chamou muito minha atenção, páginas do que parecia um livro por finalizar.
Sentei-me á mesa e comecei a ler e sim, ele estava escrevendo um drama sem fim.
Meticulosamente descrevia cada detalhe de uma vida cheia de mistérios.
Ouvi o som de um carro estacionando em frente casa.
 -Olá, você veio!
Sorriu e seus olhos brilhavam e eu pensei:
-Meu Deus...
Ele se aproxima e enche às duas taças e brindamos o que ainda não sei.
Só sei que queria ficar ali e esquecer o tempo e tudo mais, não me perguntar pq, não me fazer de difícil, não pensar em regras, em tabus, se devia ou não.
Eu o quero!
Ele tocou o ponto mais sensível de todo meu corpo e beijou suavemente, encostando seu corpo ao meu, senti o perfume, senti o calor do corpo dele colado ao meu.
Como num sonho onde você não consegue dar um passo ou gritar ou fugir eu apenas deixei meu corpo ser tocado, minha pele ficar arrepiada, também me permiti tocar e sentir
E todo o corpo dele me pertencia, cada toque era um êxtase, a respiração ofegante.
Os sentidos todos em sintonia e nesse momento ouço outro carro estacionar.
Foi como se um sinal de alerta de perigo, como quando um animal em perigo se coloca para preservar a vida.
A porta se abre e meu ex-namorado entra pela porta.
Não conseguia processar o que estava acontecendo, não me sentia segura, estava um pouco lenta ainda pelo espumante e só queria sair dali.
-Vem comigo!
-Eu não vou com você, o que quer aqui?
Ele me segurou forte e me levou para o seu carro, saiu a 200 kms por hora, estava alucinado.

-Não faça nenhuma besteira, o que está acontecendo?
Você estava me seguindo? Ele é seu amigo?
Vocês combinaram isso?

Só ouvi os freios do carro no asfalto.

Apaguei.

Acordo e tudo é branco ao meu redor, tudo claro demais, tudo frio demais.
Sinto dores e não consigo me mover.
-  O que aconteceu, onde estou?
Um mulher elegante, calma entra em meu quarto, olha para mim e seu olhar está perdido e triste.
Eu só quero respostas.

Ela á Márcia, mãe do meu ex-namorado e do Pedro com quem fui me encontrar.
Já havíamos terminado há meses, sem eu saber e inconformado com o fim do relacionamento ele me seguia.
Stalker
Me vigiava nas redes sociais, criava perfis falsos, eu desconfiava e bloqueava e ele criava outros e outros e outros, virou um obsecado.
Ele descobriu que eu e o Pedro estávamos em contato tratando de negócios porque entrou no meu notebook e espiava tudo o que eu fazia.
-Você não tem culpa. Ele passou dos limites
-Como assim o que aconteceu? Porque estou aqui?
-Ele tentou acabar com sua vida e a dele.
Fiquei sem ar.
-E como ele está onde ele está? E o Pedro?
-Ele não resistiu aos ferimentos.
-Por favor me deixe sozinha.
Eu queria morrer também, eu o amava, eu queria passar a minha vida com ele, mas o seu temperamento e sua ausência me faziam infeliz.
Mas ainda o amava e só queria chorar.
Um mês de dores, de solidão, de vontade acabar com tudo, de não ver sentido para continuar, me sentia culpada por tê-lo deixado.

Um ramo de flores coloridas num vaso branco.
Um bilhete.

-A vida continua, não desista. P

Não queria sentir o que senti, mas senti um ar fresco de primavera entrar pelo quarto.
Temos momentos na vida, eu em vários momentos, temos que decidir se queremos viver,
Ou morrer.
Se apenas estamos sobrevivendo não estamos vivendo.
Se nossa vida não é como desejamos, se não estamos com quem amamos, se não vamos a lugares que gostamos, se não sentimos o sol na pele e água do mar renovando nossas energias, se não lutamos por quem amamos, se não lutamos para ser feliz nessa doce e breve vida, o que somos?
Que sentido tem nossa vida??

Trabalhar, comer, dormir? Aceitarmos ser infelizes ou lutar para fazer cada dia valer á pena??

Eu disse sim!

Vênus 

HAUSER - Caruso

Chris Rea "And You My Love"

Cafe Anatolia '' Tango to Evora ''



Lara Fabian - Je T'aime ( I Promise I'll Never Leave You )

Nara Noïan - Hier Encore

L'un part, l'autre reste (Charlotte Gainsbourg)

13 de nov. de 2019

Solidão..anis nin


 «Não posso ter a certeza de nenhum acontecimento ou lugar a não ser da minha solidão. (...) Caminho à frente de mim própria na espera perpétua de milagres» Anais Nin in A Casa do Incesto, Assirio & Alvim, 1981



Soledad



Foi como beber uma dose de uísque bom. Desce pela garganta e amarga quente nas entranhas. Alivia a dor. Entontece! Deixa tudo mais leve e claro, tudo mais natural e permissível ou seria possível?

Desde que o vi na sala de dança senti algo diferente. A timidez no olhar e uma altivez de dançarino andaluz, cigano ou seria árabe? Que mundo ele transita? Que medos o deixam assim tímido? Que paixões viveu que o tornam sensual e intrigante?

Danço para ele, em volta dele, somos envolvidos num clima de mistério, feito imã meu corpo quer aproximação e o dele me segue altivo e belo, colado ao meu. Esquecemos tudo enquanto a música toca em meio ás nuvens de gelo e os corpos fazendo um baile ao nosso redor. Nossos lábios quase se tocam provocantes e sedentos, nossas mãos cruzam-se e perdem-se no compasso do tango. Colados um no outro reconhecemos em nós os opostos ou seriam os iguais? Não pensei! Senti!

Ouvi os últimos acordes.

-Não posso ficar. Tenho que ir.

-Por favor, não. Fique mais um pouco. Eu levo você para casa.

-Tenho que ir. Boa noite!

Quando viro as costas sinto um aperto na minha cintura, as mãos dele em volta do meu corpo e um beijo roubado. Como se aquele beijo não fosse o primeiro, como se o cheiro invadindo meu desejo não fosse desconhecido. Retribuí. Saí apressada.

-Como é seu nome?

-Soledad.

Voltei á vida normal, aulas de dança, apresentações, trabalho e um pensamento.

O andaluz!

No auditório lotado de empresários e visitantes esperamos no camarim até a hora da apresentação.

-Soledad você vai fazer apresentação solo hoje?

-Sim. A última música.

O ruim de fazer apresentação solo é que tenho que esperar sozinha no camarim até os dançarinos terminarem as outras apresentações. Música, palmas e gritos, excitação da plateia. Clímax!

Alguém bate a porta.

-É a sua vez Soledad.

Retoco o batom cor de carne, o perfume, me olho no espelho mais uma vez.

A música começa. Um violino, num lamento lança notas envolventes. Esqueço tudo! As cortinas se abrem. Escuridão total. Entro no palco, me posiciono num passo do tango solitário. A luz me ilumina.

Danço como se fosse apenas para ele ou com ele.

Todos os passos do tango sem parceiro. No momento em que a música chega ao clímax, puxo uma parte do longo vestido preto com uma grande fenda lateral. Mais sensual e acelerada minha dança faz meu corpo se soltar e em gestos longos e sensuais leva a plateia a gritar e a aplaudir no escuro. Não sei quem são. Nem sei quantos são. Dancei para ele esta noite. Dancei com ele no pensamento.

A luz se apaga. A cortina se fecha. Sozinha pelos corredores como sempre, flores no camarim, fãs, alguma ou outra entrevista. Casa.

Chego ao camarim. Flores vermelhas e um cartão.

“Vem dançar comigo como naquela noite? Javier”

Um bilhete e um telefone.

Ligo. Ninguém atende. Quase todos já se foram, os amigos foram para o bistrô. Ruas vazias e carros silenciosos passam por mim. A luz cambaleante e dourada fazendo desenhos tortuosos nas poças de água fresca da chuva de outono.

Não quero entrar num táxi. Prefiro caminhar até minha casa aqui perto, assim sinto os pingos da chuva confundirem a chuva com ás lágrimas.

Não entendo ainda o que aconteceu. O bilhete, o telefone mudo. A vontade latente de revê-lo. Entro pelo beco na rua antes da minha casa. Uma rua suja estreita de prédios antigos. Mal iluminada e perigosa. Á noite travestis atravessam a madrugada a espera do calor do banco de trás de um carro e garantia do café quente do dia seguinte. Na porta que dá acesso a quartinhos estreitos no segundo andar esperam por clientes, mulheres de todas as idades, no meio da multidão que passa sem vê-las, passam o dia a espera de um cliente e de um dia mudar de vida. Sair da “vida”.

Um empurrão nas minhas costas , sinto meu rosto colado a uma grade de ferro enferrujada, fria e áspera como faca.

Mãos sedentas e sem cuidado tocam meu corpo, por baixo do vestido, ele cheira minha nuca, sinto a respiração ofegante e o cheiro que jamais esquecerei. De homem, de tesão, de medo, de suor, de perfume, de cigarro talvez.

-Pode levar tudo, mas não me machuque, por favor.

Ele não responde.

-Olha não tenho muito, mas tenho celular, relógio, joias e dinheiro.

Silêncio.

Preciso ganhar tempo e a confiança dele, preciso ver o rosto dele. Mas não posso me virar bruscamente.

Ele arranca meu relógio e joias. Junta minha bolsa do chão e vai embora, sem dizer nada desaparece como o vento.

Em casa, assustada ainda e sem saber o que fazer tomo uma ducha quente enquanto revivo os momentos de medo que passei.

Ele levou meu celular. A bolsa e o bilhete. Não tenho como ligar para Javier.



O som estridente da campainha ecoa pela casa. Visto um roupão e vou até a porta. Surpresa. Javier.

-Como ele chegou até aqui?

Estou de roupão, meus cabelos estão molhados, estou sem maquiagem. Tarde demais.

Abro porta.

Paramos um segundo para nos reconhecermos. Num gesto apenas, ele estende as mãos e me leva para seus braços, de onde não quero mais sair até...até o amanhecer.

O roupão branco caído no chão, um bilhete no travesseiro ao meu lado.

“Você é linda. Volto quando puder.”

Suspirei.

A experiência de vida me faz ver, ler, sentir, mas ficar com um pé atrás, eu não confio em tudo que vejo. Acho que tudo tem dois lados, ou não, fico atenta como uma gazela languidamente deitada, mas com todos os sentidos atentos, e as cicatrizes a secar.

Quando vou descer da cama vejo um pequeno papel rosa, igual o que uso na minha bolsa para fazer anotações, frases soltas, um telefone, fragmentos.

-Como esta anotação pode estar aqui?

A anotação do horário e local da próxima apresentação.

Muito intrigada procuro pela casa mais pistas como aquilo foi parar ali. Nada.

Vou até a delegacia, registro boletim de ocorrência. Chego ao teatro, mas não consigo me concentrar. Vou até o carro.

Noite, quem está na rua não me vê. Vidros escuros. Logo Javier aparece.

Parece desconfiado, olha para os lados, está inquieto. Para em frente ao teatro, faz uma ligação. Devem ter dito que já saí.

Sigo-o.

Ele vai até minha casa, ronda a casa e insatisfeito segue. Entra por uma rua mal iluminada e torta. Para em frente a um prédio antigo, com pintura descascada, janelas de madeira quase deterioradas.

A luz do andar de cima é acesa. Vejo pelo vulto da cortina ele e uma mulher. Conversam. Beijam-se.

Talvez eu já esperasse por algo assim quando comecei a segui-lo, mesmo assim sinto uma forte dor, uma nuvem de tristeza cobre meus olhos, abaixo a cabeça, ligo o carro e volto para casa.

Na noite seguinte ele aparece no teatro.

-Vamos sair para jantar?

-Vamos, vamos para a sua casa hoje pode ser? Você mora sozinho?

-Não tem nada lá.

-Passamos num restaurante, levamos vinho e japonês, topa?

-Tudo bem então. Noto certo desconforto que ele não consegue disfarçar.

Paro o carro em frente ao restaurante. Mal saio do carro noto a luz do celular acesa. Ele deve estar ligando para aquela mulher avisando que ela não poderá ir até aquela noite.

No apartamento a meia luz, quase nada.

Até gosto do estilo despojado, o essencial. Uma suíte, sala com um grande sofá vermelho, cozinha pequena e organizada.

-Enquanto você organiza a mesa posso tomar uma ducha quente?

-Sim.

Ele fecha a porta da suíte, o que me causa estranheza.

-O que tem ali que não posso ver?

Jantamos. Dançamos, falamos coisas banais, como gato e rato um buscando no outro alguma pista, algo que explicasse ou acalmasse aquela sensação de frio no estômago, medo.

Ele cai profundamente no sono. O calmante fortíssimo que pus no copo de vinho dele realmente faz efeito rápido.

Assim tenho tempo para buscar algo que ainda não sei o que é. Pressinto que aqui existe algo, ainda não sei o que posso encontrar.

No quarto um grande armário escuro. A parte de cima, nada.

No armário do meio entre um cobertor azul uma caixa preta me chama a atenção, só a vi por que quando foi guardada a ponta da tampa enganchou no cobertor. Abro. Algumas bolsas entre elas a minha bolsa. Joias, celulares, euros, dólares, reais, documentos, óculos.

Deixo tudo como estava.  Olho Javier pela última vez e vou embora.



















Terror
de te amar
num sítio
tão frágil
como o mundo
Mal
de te amar
neste lugar
de imperfeição
Onde tudo
nos quebra
e emudece
Onde tudo
nos mente
e nos separa...

Sophia M. Breyner