4 de jul de 2011

Butterfly- O Cativeiro




















-Ainda sinto o cheiro forte e ácido do éter, o gosto amargo
que penetra nas entranhas e entontece, não pude lutar,
não vi ninguém, só a mão com um pano branco
aproximando-se de meu rosto incrédulo. Apaguei.
Acordo e olho em volta assustada.

O cômodo iluminado apenas por um lustre antigo
dá ao lugar uma atmosfera melancólica e assustadora.
As paredes e o chão de pedra, uma grande mesa
de madeira antiga organizadamente lotada de vidros
cheios de líquido de todas as cores e tubos de
ensaio fumegantes.

Tento levantar-me, só então sinto que estou
com as mãos amarradas à cama, meu instinto
impulsivo é reagir imediatamente, fugir:

- Preciso sair daqui, quem fez isso
comigo vai voltar. Onde estou?

Depois de várias tentativas de fuga sinto meu
corpo frágil, debilitado, não sei há quanto
tempo estou sem comer, sinto muita sede,
minha garganta dói e o cansaço toma
conta do meu corpo, durmo profundamente.

II
-Estaciono meu Sedan preto em frente ao chalé,
vou até o porta-malas e retiro uma mala de
primeiros-socorros e uma caixa de madeira
escura com alças de couro.

Na porta lateral do chalé olho ao redor,
todo cuidado é pouco, ninguém pode
ver nem saber o que estou fazendo aqui.
Entro no chalé e subo as escadas com pressa,
vou até a porta no final do corredor e entro
sem fazer barulho.

Logo percebo que minha pequena butterfly
 tentou soltar-se, os pulsos ainda estão vermelhos.
Desamarro as cordas com cuidado. Admirando
seus traços delicados por alguns instantes,
nunca estive tão perto dela.

Passei anos, meses, dias, horas observando
ela de longe, quando saía para o trabalho,
quando voltava para casa, se estava sozinha,
feliz ou triste. Sabia de cada passo e
o que gostava de fazer.
Só não gosto de a ver com o namorado, por isso
ela está aqui, para proteger a mulher que desejo.
Quero-a só para mim. Meu desejo arde, tenho
vontade amá-la assim mesmo ainda desacordada,
mas quero que ela seja minha na hora certa

-A manterei aqui até que perceba que
posso fazê-la feliz.
A primeira vez que a vi foi quando ela mudou-se
há dois anos para a casa em frente a minha.

Gostava de contemplá-la inteira, os ombros nus,
a beleza feminina dos seios, mas o que mais me
encanta são os olhos, misteriosos e tristes,
mesmo quando sorri seus olhos não escondem
uma pontinha de melancolia, seus olhos falam
por ela e me transportam para um mundo de
magia em que me sinto envolvido como raras
vezes me senti.
Nas minhas longas noites de sôfrego desejo e paixão,
vigiava sua janela enquanto trabalhava em minhas
pesquisas e preparava as aulas de biologia para
o dia seguinte.
Longas noites de trabalho e amor platônico que
só encontram alívio quando estou no meu chalé,
onde estudo e cuido de borboletas feridas,
as que não sobrevivem são catalogadas e
eternizadas com sua delicada beleza efêmera.

III
Acordo com os pulsos doloridos:
-Alguém esteve aqui e me desamarrou.

Levanto, vou até a mesa onde tem uma mala
branca de medicamentos e faço um curativo
nos pulsos, tomo água e penso em procurar
algo para comer quando uma caixa de madeira
chama a minha atenção, tenho a nítida impressão
de que já vi essa caixa antes.
Puxo a alça de couro e a caixa abre em pequenos
compartimentos, em cada um deles borboletas de
todas as cores com o nome científico, local e data
em que foi encontrada.

Vou até uma pequena porta de madeira e para minha
surpresa vejo que está destrancada, passo por um longo
corredor, desço a escada e entro na sala onde me deparo
com um ambiente aconchegante, a lareira acesa,
chego mais perto do fogo e fico ali por um instante até
ver uma parede inteira coberta de livros.
Tudo aqui é fascinante, mesmo com medo estou encantada.
Ouço passos na varanda se aproximando e não posso
deixar de sentir medo, ao mesmo tempo quero ver
quem me trouxe até aqui, quem quer que seja não
me fez mal algum pelo menos até agora.

Quando abre a porta e vejo meu vizinho não entendo
imediatamente o que ele faz ali, nunca nos falamos,
vejo-o sempre só.

Ele fala de todo seu amor e paixão e diz que agora
eu sou uma de suas borboletas, que não poderei
mais sair do chalé, que ali tem tudo o que preciso.

-Você não pode fazer isso comigo, eu quero ir
embora agora.
Vejo o semblante dele se transformando.
Onde antes via um homem sereno e doce agora
vejo a fúria em seus olhos, ele vem em minha direção
e segura minhas duas mãos junto ao peito dele,
meu corpo colado ao corpo dele.

Não sei de onde surge uma corda, ele amarra minhas
 mãos e fico imobilizada.

Ele me joga no chão, no tapete da sala e como um
 lobo faminto e selvagem rasga minha blusa, meu
peito arfante de medo e raiva. Grito, mas meu grito
é sufocado pelos lábios quentes dele, me beija com
tanta sofreguidão que seus dentes arranham meus lábios.

Desce a língua pelo meu corpo enquanto suas mãos
erguem minha saia e abrem minhas pernas, eu luto
e me debato, mesmo com as mãos amarradas
arranho a pele branca do peito dele, já estou cansada
e fraca, mas busco forças não sei de onde para me
livrar daquele corpo pesando sobre o meu.

Ele tira a própria roupa e nu me abraça e me faz
sentir seu cheiro, seu gosto, me faz sentir a textura
da pele, o desejo explodindo a espera de ser saciado.
Ele me possui inteira e eu não me debato mais.
Apenas me mantenho imóvel.
Como um animal já ciente do seu fim.

Ele ainda está ao meu lado e eu sem dizer nada,
apenas olho para o teto de madeira;

Sinto que a culpa é minha, eu o atraí mesmo sem
perceber, eu o seduzi. O pior de tudo é constatar
que senti prazer quando ele me possuiu,
senti prazer, raiva e dor.

Senti-me vulnerável como uma borboleta e
 culpada pelo prazer que ele despertou em mim.

Ele me leva de volta para o quarto de pedras,
me amarra a cama, ainda nua e me cobre
com uma manta, sem falar nada desparece pela porta.

Estou presa neste chalé e não sei quanto tempo
faz que estou aqui, aos poucos fui me habituando
a rotina dele, vem todos os dias, traz tudo que preciso.
Enquanto leio um livro ele trabalha naqueles tubos e nas
pequenas borboletas que ele toca com o maior cuidado.

Já não o rejeito mais, tornei-me amante dele.
Amante do meu seqüestrador.
Tornei-me uma de suas borboletas.
Mas não passa um dia em que eu não pense em
fugir daqui. E hoje notei que ele está estranho,
sempre fala pouco, mas hoje ele não falou
absolutamente nada.
Fez sexo comigo de uma forma delicada e intensa.

Enquanto tomo banho ouço os passos dele na escada,
ele está indo embora. De repente tenho uma sensação
de perda, saudade dele, como se ele fosse embora
para sempre e nesse momento me dou conta de que o amo.

Visto o roupão e corro até a sala, vejo que ele
deixou a porta aberta:
-Não acredito que finalmente vou conseguir fugir daqui.
Pensei.

Mesmo de roupão abro o grande portão de ferro e
saio para a rua. Ainda vejo o carro dele longe,
sumindo no meio do trânsito da cidade.

Relembro tudo que se passou comigo naquele
chalé e como um "déjà vu" todos os momentos
se juntam e se separam formando um puzzle.
Olho para as casas e as pessoas passando
indiferentes e apressadas por mim,
está anoitecendo e sinto frio.
Volto para o chalé e me deito em frente à lareira...

E espero por ele.

Vênus

6 comentários:

Ricardo Simões disse...

Preciso ler novamente, sempre demais, mas p/escrever preciso estar sozinho, a força dos sentimentos surpreende sempre, isso tenho q falar!

A. Mandel disse...

Conto auto-flagelante que denota uma entrega por senso bizarro de justiça, posto que ciente que atraiu e despertou em um homem seus instintos mais selvagens, faz-se vítima de uma sede incessante que como chama pende acesa em glamour, violência e desejos mútuos; uma síndrome de Estocolmo adaptada a momentos ímpares entre quatro paredes.

Luis Gustavo disse...

ótimo texto Nane. Adorei a disposição do texto, a intercalação dos fatos, o ponto de vista de ambos os personagens. Em certos pontos, principalmente a final, onde ela é abusada pelo algoz, lembra muito Milo Manara em sua graphic novel Encontro Fatal. O clima intimista e soturno predomina de forma pertinete, clara e direta. O cenário lembra aqueles filmes de Polanski ou Lars Von Tier... muito bom mesmo.... a frágil e doce borboleta a disposição do cientista, como em uma 'Aula de Anatomia'.... uma experiência instigante e excitante.

Ricardo Simões disse...

elogiar? Não, repetição não é o q gostamos! No universo das fantasias é q buscamos o inesperado, sonhos q por através de suas palavras eles se tornem mais evidentes, o cheiro, pronunciar ou escrever estava palavra me enche a boca d'água, pois buscamos isso, só que vc externa em suas nuances, ousadia deliciosa e previlégio de quem lê, sem elogios cara! Quem não quer ser uma butterfly? Todos queremos, mas deixamos limitadores a nossa volta criar força! A intensidade é vc, atração e desejo, irreal ou surreal, isso é delicioso.
O relógio é cruel...

But I Must Confess disse...

sem palavras, simplismente unico e original, os detalhes, as situçoes, ficaram muito originais, muito perfeito, parabens!

Nina Pilar disse...

complexo, e interessanre...

gostei,

beijinhos minha linda