13 de jul. de 2011

Tatua-me



Tatua-me
Marca-me
Crava-te em mim

Serei um pouco de ti!
Assina-me
Possui-me
Entrenha-te em mim
Estarei presente em ti!

Prende-me
Ata-me
Aprisiona-te em mim
Sou escrava de ti!

Devora-me
Saboreia-me
Alimenta-te de mim
Que eu sacio-me em ti!

Abraça-me
Envolve-me
Enrola-te em mim
Refugio-me em ti!

Faz
Desfaz
Refaz todas as de mim
Eu desfaço-me em ti!

Grita
Chora
Clama por mim
Chamo por ti!

Anda
Corre
Tropeça e vem a mim
Eu já cheguei a ti!

Apressa-te
Despacha-te
Urge ter-te em mim
E de mim desfaleço em ti!

Beija-me
Aperta-me
Enlaça-te em mim
Eu envolvo-me em ti!
Tatua-me
Já faço parte de ti!

A.

11 de jul. de 2011




“Em algum lugar, em toda aquela neve, ela via seu coração partido em dois pedaços.”

(A menina que roubava livros)

Flores com água




(...)Seu corpo
arderá para mim
sobre um lençol
mordido por flores
com água.

Ah! em cada mulher
existe uma morte
silenciosa;
e enquanto o dorso
imagina,
sob nossos dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos,
navega o sangue,
desfaz-se
em embriaguez
dentro do coração faminto.(...)

Herberto Helder

8 de jul. de 2011

Carmim






















"Sua
brunida
brancura (alfa-
zema) de pele
lunar em "carmim"-
seda envolta (pin-
tura chinesa) é
prata (luz pura
sobre luz) que
resplende"

(Claudio Daniel, Livro"
Yumê")

6 de jul. de 2011

Toca-me





















Toca-me
o silêncio
de cada palavra
gotas de chuva
manto transparente
cobrindo
a música de cada
letra
a dor de uma saudade
um suspiro de amor
o som de uma lágrima
diluindo-se partícula
por partícula
silenciosamente
pulsando
efervescendo a loucura
que é
o som de uma gota de chuva
sobre a pele quente

NANE

4 de jul. de 2011

Butterfly- O Cativeiro




















-Ainda sinto o cheiro forte e ácido do éter, o gosto amargo
que penetra nas entranhas e entontece, não pude lutar,
não vi ninguém, só a mão com um pano branco
aproximando-se de meu rosto incrédulo. Apaguei.
Acordo e olho em volta assustada.

O cômodo iluminado apenas por um lustre antigo
dá ao lugar uma atmosfera melancólica e assustadora.
As paredes e o chão de pedra, uma grande mesa
de madeira antiga organizadamente lotada de vidros
cheios de líquido de todas as cores e tubos de
ensaio fumegantes.

Tento levantar-me, só então sinto que estou
com as mãos amarradas à cama, meu instinto
impulsivo é reagir imediatamente, fugir:

- Preciso sair daqui, quem fez isso
comigo vai voltar. Onde estou?

Depois de várias tentativas de fuga sinto meu
corpo frágil, debilitado, não sei há quanto
tempo estou sem comer, sinto muita sede,
minha garganta dói e o cansaço toma
conta do meu corpo, durmo profundamente.

II
-Estaciono meu Sedan preto em frente ao chalé,
vou até o porta-malas e retiro uma mala de
primeiros-socorros e uma caixa de madeira
escura com alças de couro.

Na porta lateral do chalé olho ao redor,
todo cuidado é pouco, ninguém pode
ver nem saber o que estou fazendo aqui.
Entro no chalé e subo as escadas com pressa,
vou até a porta no final do corredor e entro
sem fazer barulho.

Logo percebo que minha pequena butterfly
 tentou soltar-se, os pulsos ainda estão vermelhos.
Desamarro as cordas com cuidado. Admirando
seus traços delicados por alguns instantes,
nunca estive tão perto dela.

Passei anos, meses, dias, horas observando
ela de longe, quando saía para o trabalho,
quando voltava para casa, se estava sozinha,
feliz ou triste. Sabia de cada passo e
o que gostava de fazer.
Só não gosto de a ver com o namorado, por isso
ela está aqui, para proteger a mulher que desejo.
Quero-a só para mim. Meu desejo arde, tenho
vontade amá-la assim mesmo ainda desacordada,
mas quero que ela seja minha na hora certa

-A manterei aqui até que perceba que
posso fazê-la feliz.
A primeira vez que a vi foi quando ela mudou-se
há dois anos para a casa em frente a minha.

Gostava de contemplá-la inteira, os ombros nus,
a beleza feminina dos seios, mas o que mais me
encanta são os olhos, misteriosos e tristes,
mesmo quando sorri seus olhos não escondem
uma pontinha de melancolia, seus olhos falam
por ela e me transportam para um mundo de
magia em que me sinto envolvido como raras
vezes me senti.
Nas minhas longas noites de sôfrego desejo e paixão,
vigiava sua janela enquanto trabalhava em minhas
pesquisas e preparava as aulas de biologia para
o dia seguinte.
Longas noites de trabalho e amor platônico que
só encontram alívio quando estou no meu chalé,
onde estudo e cuido de borboletas feridas,
as que não sobrevivem são catalogadas e
eternizadas com sua delicada beleza efêmera.

III
Acordo com os pulsos doloridos:
-Alguém esteve aqui e me desamarrou.

Levanto, vou até a mesa onde tem uma mala
branca de medicamentos e faço um curativo
nos pulsos, tomo água e penso em procurar
algo para comer quando uma caixa de madeira
chama a minha atenção, tenho a nítida impressão
de que já vi essa caixa antes.
Puxo a alça de couro e a caixa abre em pequenos
compartimentos, em cada um deles borboletas de
todas as cores com o nome científico, local e data
em que foi encontrada.

Vou até uma pequena porta de madeira e para minha
surpresa vejo que está destrancada, passo por um longo
corredor, desço a escada e entro na sala onde me deparo
com um ambiente aconchegante, a lareira acesa,
chego mais perto do fogo e fico ali por um instante até
ver uma parede inteira coberta de livros.
Tudo aqui é fascinante, mesmo com medo estou encantada.
Ouço passos na varanda se aproximando e não posso
deixar de sentir medo, ao mesmo tempo quero ver
quem me trouxe até aqui, quem quer que seja não
me fez mal algum pelo menos até agora.

Quando abre a porta e vejo meu vizinho não entendo
imediatamente o que ele faz ali, nunca nos falamos,
vejo-o sempre só.

Ele fala de todo seu amor e paixão e diz que agora
eu sou uma de suas borboletas, que não poderei
mais sair do chalé, que ali tem tudo o que preciso.

-Você não pode fazer isso comigo, eu quero ir
embora agora.
Vejo o semblante dele se transformando.
Onde antes via um homem sereno e doce agora
vejo a fúria em seus olhos, ele vem em minha direção
e segura minhas duas mãos junto ao peito dele,
meu corpo colado ao corpo dele.

Não sei de onde surge uma corda, ele amarra minhas
 mãos e fico imobilizada.

Ele me joga no chão, no tapete da sala e como um
 lobo faminto e selvagem rasga minha blusa, meu
peito arfante de medo e raiva. Grito, mas meu grito
é sufocado pelos lábios quentes dele, me beija com
tanta sofreguidão que seus dentes arranham meus lábios.

Desce a língua pelo meu corpo enquanto suas mãos
erguem minha saia e abrem minhas pernas, eu luto
e me debato, mesmo com as mãos amarradas
arranho a pele branca do peito dele, já estou cansada
e fraca, mas busco forças não sei de onde para me
livrar daquele corpo pesando sobre o meu.

Ele tira a própria roupa e nu me abraça e me faz
sentir seu cheiro, seu gosto, me faz sentir a textura
da pele, o desejo explodindo a espera de ser saciado.
Ele me possui inteira e eu não me debato mais.
Apenas me mantenho imóvel.
Como um animal já ciente do seu fim.

Ele ainda está ao meu lado e eu sem dizer nada,
apenas olho para o teto de madeira;

Sinto que a culpa é minha, eu o atraí mesmo sem
perceber, eu o seduzi. O pior de tudo é constatar
que senti prazer quando ele me possuiu,
senti prazer, raiva e dor.

Senti-me vulnerável como uma borboleta e
 culpada pelo prazer que ele despertou em mim.

Ele me leva de volta para o quarto de pedras,
me amarra a cama, ainda nua e me cobre
com uma manta, sem falar nada desparece pela porta.

Estou presa neste chalé e não sei quanto tempo
faz que estou aqui, aos poucos fui me habituando
a rotina dele, vem todos os dias, traz tudo que preciso.
Enquanto leio um livro ele trabalha naqueles tubos e nas
pequenas borboletas que ele toca com o maior cuidado.

Já não o rejeito mais, tornei-me amante dele.
Amante do meu seqüestrador.
Tornei-me uma de suas borboletas.
Mas não passa um dia em que eu não pense em
fugir daqui. E hoje notei que ele está estranho,
sempre fala pouco, mas hoje ele não falou
absolutamente nada.
Fez sexo comigo de uma forma delicada e intensa.

Enquanto tomo banho ouço os passos dele na escada,
ele está indo embora. De repente tenho uma sensação
de perda, saudade dele, como se ele fosse embora
para sempre e nesse momento me dou conta de que o amo.

Visto o roupão e corro até a sala, vejo que ele
deixou a porta aberta:
-Não acredito que finalmente vou conseguir fugir daqui.
Pensei.

Mesmo de roupão abro o grande portão de ferro e
saio para a rua. Ainda vejo o carro dele longe,
sumindo no meio do trânsito da cidade.

Relembro tudo que se passou comigo naquele
chalé e como um "déjà vu" todos os momentos
se juntam e se separam formando um puzzle.
Olho para as casas e as pessoas passando
indiferentes e apressadas por mim,
está anoitecendo e sinto frio.
Volto para o chalé e me deito em frente à lareira...

E espero por ele.

Vênus

1 de jul. de 2011

Armadilhas de um Sedutor





















Flores e um cartão.

Já sei até o que vem depois: Jantar, Cama.

Seria assim se a presa caísse na armadilha do sedutor.

O plano deve funcionar, recebo vários ramos de flores com cartões convidando para um jantar e elogiando minha beleza ou com um poeminha já batido.
Quando recebo as flores claro que sinto meu instinto de fêmea satisfeito, seduzi mais um, eles acham que me seduzem quando na verdade foi eu que escolhi por qual deles fazer de conta que me deixei seduzir.
Eu sei que todos usam a mesma tática. Eu me apenas me divirto com isso. Nenhum deles vai me conquistar assim. Não assim.

Mas Antonio chamou minha atenção, deve ter minha idade 20 e poucos anos. Magro, alto, cabelos pretos, olhos que eu não consegui decifrar, um olhar meio distante, talvez tenha sido isso, ele é diferente dos outros sempre tão seguros, sedutores, bonitões. Antonio parecia não me oferecer risco. Segura de que dominaria a situação toda aceitei o convite.

Jantamos num restaurante a beira mar, ele foi gentil e atencioso.
Na frente do meu prédio ele tentou me beijar, eu sorri falei uma bobagem qualquer e o beijei no rosto, quando estava com a porta aberta e certa de que estava livre senti a mão dele me puxando pela cintura de volta para dento do carro.
Me beijou a força. Até gostei. Afinal ele não teria mais que isso. Um beijo no pobre coitado. Nunca mais vai me ver mesmo.
Foi o que pensei.

Estava errada.
Ele é daqueles homens que seguem a mulher, que vive uma paixão platônica, as vêem perfeitas e belas e que passam a noite a pensar como fazer para conquistá-las. Senti que ele é capaz de tudo.

Flores e mais flores chegam todos os dias, meus colegas de trabalho já não estranham mais, eu enfeito a cozinha, dou as flores para a Dona Nita uma senhora que trabalha na cozinha.
A princípio eu só achava graça, pensava como um homem pode agir assim?
Não vê que não tenho interesse nele?
Não vê que o desprezo e que as flores não vão mudar o que sinto?
Mas as flores pararam de chegar. Agora só via aquela figura macambuzia vestido todo de preto, sentado num dos bancos da praça em frente a empresa em que trabalho. Ele me via sair para o almoço, voltar do almoço e a noite quando eu saía lá estava ele. Eu o cumprimentava e inventava uma desculpa qualquer para me livrar dele, aula de inglês, academia, compromisso com uma amiga e o deixava ali plantando. Desconsolado.

Estranhei quando ele sumiu, me senti aliviada.

Finalmente livre!
Queria ficar sozinha, não gostava de ninguém e não pretendia gostar.

Manhã de sábado acordei animada, Janeiro 08:00 da manhã o sol é um convite sedutor, parece que chama: Vem morena , vem para a praia vem....vem andar descalça na areia e balançar as ancas bronzeadas e brilhantes do bronzeador de óleo, vem? Vem entrar no mar e sair de lá como quem está numa passarela com seu bikini amarelo tão pequenino...Ah morena o dia de sol sem você não é o mesmo.

Acho graça dos pensamentos bobos , tomo um banho demorado e visto o tal bikini amarelo e um vestidinho leve e colorido por cima. O kit praia está pronto na bolsa de palha. E claro, os tamanquinhos brancos número 35.

Tudo pronto. Toca o telefone, minha amiga Sandra me apressando.
Vou até a janela para ver como está o tempo. Ah! Céu completamente azul. Amo!

Olho para baixo e vejo o Opala Preto de Antonio estacionado na rua bem em frente a minha janela. Dou um passo para trás não acreditando no que estou vendo.
-O que esse cara quer aqui? Tá maluco? Ah não! Vai começar tudo de novo!

Minutos depois o interfone toca, demoro a tomar a decisão entre atender ou não.
Não atendi.

Olho novamente para baixo, o carro continua lá e Antonio está fora do carro, enconstado. Não parece ter pressa alguma.

-Sandra, acho que não dá pra sair, tem um cara na frente do meu prédio, quer falar comigo, mas eu não quero, ele me assusta, está num Opala Preto. Estou com medo.

-Ai logo hoje? Se ele está na frente do prédio sai pela garagem.

-Não saio daqui. Vem me ajudar, vem me buscar amiga. Por favor?

-Eu vou buscar você? Não faz sentido. Espera mais um pouco que ele deve desistir e não atenda ao interfone.

Estou com medo. Já meio dia e ainda não consegui sair de casa. Meu corpo pede sol quente e a brisa com cheiro de mar. Sandra ligou e disse que vai me esperar na praia. Fico zangada.
Ligo para o porteiro e falo para não deixar ninguém subir sem falar comigo. Ele me diz que um rapaz esteve na portaria perguntando por mim e que ele havia falado que não sabia se eu estava em casa.
Desci o elevador e fui até a garagem, nas laterais tem aqueles tijolos furados de onde eu posso ver a rua. Ele continua lá. Quando a garagem abre para um carro sair eu aproveito e saio do prédio, mas numa velocidade incrível percebo que Antônio já está quase ali na saída da garagem. Volto para dentro a tempo da porta automática se fechar.

Agora ele já sabe que eu estou em casa, que estou fugindo dele. Vejo raiva nos olhos dele. Estou em pânico.
Ele ficou parado na saída da garagem. Nesse momento abre a porta do lado oposto, eu saio correndo em direção ao terminal urbano. Entro no ônibus que está de partida e vou para á frente junto ao motorista.

Ufa! Consegui!

O ônibus começa a sair do terminal e eu respiro cansada e aliviada, mas quando olho para trás vejo Antonio lá nos fundos do ônibus. Ele não se aproxima apenas me olha, um olhar fulminante.
Para minha surpresa ele desce no primeiro ponto de ônibus, mas não tira os olhos de mim.

Me sinto mal, estou ferindo alguém. Até quando farei isso?
O dia para mim não foi mais o mesmo. Aquele olhar. Não consigo parar de pensar nele.

Volto para casa, olho pela janela percebo que o Opala Preto ainda está lá, estacionado no mesmo lugar, vazio. Já é noite, ando inquieta, olho constantemente para o carro preto lá em baixo. Continua lá.

No Domingo acordo cedo e desço para caminhar um pouco, quando dobro a esquina da minha rua vejo que o Opala está cercado de gente ao redor e a polícia tentando ordenar o caos.

Me aproximo e não entendo o que está acontecendo. O carro continua vazio.
Um bilhete gerou o caos.
- Não posso viver SEM você.
Melhor NÃO viver sem você. Fique com o carro.

Meu nome e endereço abaixo.

O corpo dele nunca foi e encontrado. Os policiais acreditam que com a maré o corpo pode aparecer muito longe dali ou nunca aparecer. Saio dali e vou caminhando sem saber bem para onde, ouvi o policial falar que ele suicidou-se na noite anterior.

O que me fez ser assim tão fria?
Como posso ter brincado com o sentimento dele?
Eu não sei amar, eu só sei ferir. O que tenho que faz os homens se aproximarem e se deixarem ser usados e rejeitados como se fossem nada?  Será a roupa que uso, será o jeito que eu ando?

Mudei de apartamento, troquei meu telefone. Mas o que mudou mesmo foi algo dentro de mim.
Passei a sentir uma solidão tremenda e a gostar da solidão.

Volto ao trabalho, alguns meses passam sem nada de novo.
O entegador chega e me entrega um ramo de flores brancas orvalhadas. Pensei:
-Quem será dessa vez. Entediada

Eram de Antonio.

Fiquei surpresa, liguei na mesma hora para a floricultura e perguntei quem havia mandado, não havia bilhetes. A atendente respondeu que um homem havia deixado pago para que fossem entregues flores brancas todas as segundas-feiras.

Pagou em dinheiro, não quis deixar o nome.

E foi assim que Antonio sumiu da minha vida. Eu quis brincar com ele, me divertir e o que aconteceu? Nunca o esquecerei aonde quer que ele esteja.

Vênus

20 de jun. de 2011

Luvas Pretas


Luvas pretas.
Foi o que ela deixou para trás. Esquecida displicentemente sobre a escrivaninha. Terá sido de propósito? Uma lembrancinha de como terminou aquilo que era para ser apenas um jantar, mas acabou na cama. Na minha cama.
A manhã de inverno gelada. Só mais dez minutos. Banho quente, croissant, café com leite, mais leite. Jornais. Rua. Estaciono o carro próximo ao escritório. Não tão perto que não tenha que andar pela rua principal. Lotada de pessoas apressadas, taciturnas. Sinto-me invisível na multidão.
Do outro lado da rua Ela.
Não deixei de notar que de todas as mulheres que passam por mim ela é a única que está de vestido. Meia calça, salto alto e casaco 7/8.
Negros cabelos ondulados não me deixam ver seu rosto. Dançam suavemente moldando seus traços. Lábios carmim. Alva pele. Negros olhos. Andar languido.
Ela não nota minha presença.
-Preciso fazer alguma coisa antes de perdê-la de vista.

Banho quente, café preto. Música para vestir-me. Ritual. . Chanel e batom. Observo meu corpo nu no espelho do quarto. Penso nele. Visto-me para ele. Mesmo que hoje eu não o encontre
A rua lotada, preciso correr, tem um contrato importante para fechar. Dizem que o empresário é casca dura. Ah deixa comigo. Adoro dominar o tipo sanguíneo. O vento frio gela meu rosto e corpo. De repente sinto que está faltando alguma coisa.
Sinto a meia calça roçar minha pele. Esqueci-me de vestir a calcinha, se pudesse andaria sem, sempre.
Estou sendo seguida ou é impressão minha? Do outro lado da rua, mesmo sem virar o rosto, percebo que um homem acompanha meus passos, no mesmo ritmo.
Sinto o olhar dele.
Ando mais rápido. Preciso entrar em algum lugar. Desviar meu caminho até ter certeza de que estou segura. Entro numa farmácia, a balança virada para a rua. Olho discretamente e o vejo.
Parado olhando a vitrine de uma loja de roupas masculinas, no outro lado da rua. Deve estar me observando pela vitrine da loja ou é paranoia?
Saio pela porta lateral e continuo meu caminho. Cada um que aparece!
Não deixei de pensar no estranho homem do outro lado da rua. Alto, cabelos muito curtos, barba muito baixinha. Bem vestido. Intrigante. (quer dizer: interessante)
No prédio de 12 andares.
-Por favor, posso falar com o Sr. Adriano?
-Ele acabou de chegar. Você pode aguardar uns 10 minutos?
-Sim, claro. Obrigada.
A recepcionista, uma mulher de uns 50 anos, elegante e tranquila fala com ele ao telefone.
-Sim, ela está aqui. Não posso fazer isto. Está na agenda, ela sabe que o senhor está aqui.

Ela olha para mim e tenta disfarçar. Mas entendi que ele não quer me atender.
-O Sr. Adriano está numa reunião e vai demorar. Você se importa de voltar no final de tarde?
-Não. Não poderei voltar no final da tarde, Tenho que visitar outro cliente e não posso remarcar.
A porta da sala dele abre e o homem do outro lado da rua aparece.
 
Ela percebeu que a estou observando. Entrou na farmácia e não saiu mais de lá. Olho para uma vitrine. Olho sem ver. Só um pensamento. Ela! Quero ao menos saber o nome.
Depois de meia hora já não consigo disfarçar. Os vendedores me olham de dentro da loja, devem achar que sou maluco. No mínimo narcisista.
-Cara, entra lá. Seja cara de pau mesmo. Pode ser sua última chance de encontra-la.
Na farmácia poucos clientes. Compro uma coisa qualquer. Olho ao redor. Ela não está aqui.
-Fugiu, sumiu. Será que ela percebeu que eu a estava seguindo?
Saí também pela porta lateral.
-Ela sabe. Ela viu que eu a seguia. Sem chance.
Volto á rotina. Marquei com uma consultora, mas não quero falar com ninguém hoje de manhã. Na sala de espera ela me aguarda, tento dispensa-la, mas a moça parece insistente.
Vou deixa-la esperar.
Dulce me liga informando que a moça insiste em falar comigo.
Decidido a expulsá-la dali eu mesmo abro a porta da sala e não acredito no que vejo.
Ela.
Nossos olhares se cruzaram surpresos. Como se já nos conhecêssemos. Como se já fossemos cumplices. Em segundos tomei uma decisão.
Eu a quero.
Na minha sala, na minha cadeira, na minha vida.
Mas ela parece resistir. Não demonstra interesse. Termina de falar dos detalhes e me pede para assinar o contrato. Gestos delicados e elegantes.
Despedimo-nos formalmente. Ela deixa um cartão. Não a deixarei sumir novamente.
 
Na sala dele. Decorada com muito bom gosto. Os livros e DVDs chamam minha atenção. No canto, ao lado de um grande armário de madeira escura uma adega. Estanho. Adega no escritório?
Será que ele faz festinhas aqui.
-Ah! Não é o que você está pensando. Sou apreciador de vinhos e recebo vinhos de clientes e amigos ou que trago nas viagens que faço.
Tinto, carmim? Não sei, apenas senti que corei.
Ele me observa, sinto os olhos dele me desnudando. Será que um homem pode saber quando uma mulher está sem calcinha? Será que imagina as fantasias que temos em qualquer hora do dia? Fantasias impossíveis de se realizarem. Fantasias que só dão prazer por que são fantasias? Ou será que não?
Desço o elevador. Uma sensação estranha toma conta de mim. Ímpeto de voltar e falar mais com ele, saber mais. Entender o que querem aqueles olhos de interrogação.
O telefone toca. Já estou em casa. Ele.
-Sim, posso voltar ainda hoje só preciso de uns quarenta minutos.
Ele quer alterar algo no contrato. Marcamos de nos encontrar no hall do hotel onde está hospedado.
Sem problemas. Consigo fazer isso sem me deixar ser surpreendida.
O hall está vazio. Apenas duas pessoas na recepção do hotel. Olho ao redor. Ele está no bar do hotel. Já é noite. As luzes acesas e uma música suave. Perigo.
-Isso aqui não parece um ambiente para revolver assunto de trabalho.
-Não. Por isso mesmo chamei você aqui. Drinks e mais drinks. Afinidades e olhares.
Quarto 906
Acordo e sinto o corpo dele colado ao meu. Nu. Quente. Relembro tudo o que aconteceu. 
Louca!
Vesti-me sem fazer barulho. Deixei a luva de recordação daquela noite maravilhosa. Gostaria de revê-lo. Ainda dorme.
Senti que se acontecesse um segundo encontro me apaixonaria. Ele tem tudo a ver comigo. Tudo. Além de ser persistente. Sei que se eu não sumir ele vai atrás de mim e eu não saberei dizer não.
Fecho a porta e desço para a branca manhã coberta de bruma.
Ainda na lembrança a sensação do corpo dele junto ao meu, o sabor dele na minha boca e o perfume dele atordoando meu pensamento.

Luvas pretas.
Mais nada, nenhum bilhete.
Ela se foi. 
Ligo para o celular. Fora de área. Liguei mil vezes. Telefone não existe.
Procurei pela cidade. Nunca mais a encontrei.



NANE

18 de jun. de 2011

Mise-en- abîme









Pego no meu copo em frente do fogo e tenho uma certeza absoluta, mas não sei a respeito de quê.
Não me basta a alegria do riso. Não me basta ser feliz por ignorância.
Inventámos a palavra, a música e até inventámos Deus.
E não contentes com isso, ainda inventámos a felicidade.
Mas a felicidade é a perfeição no tempo presente, portanto com limites; ora a perfeição com limites é um absurdo.
Eu amo a utopia, a loucura e o infinito!
Ah se ao menos estivesses aqui…
Que pena que te baste a felicidade e não venhas enlouquecer docemente comigo.
Vem beber deste vinho e olhar a vertigem do fogo.
Quando olhamos o abismo não há quem nos devolva o olhar, ficamos a sós com o infinito.
Vem cair na fundura da memória, vem voar na antecipação do futuro; transpor os limites do tempo é que nos aproxima dos deuses.
Vem sofrer comigo, vem. Há mais contentamento para além da felicidade.
Ser feliz é ficarmos emparedados no presente.

Manuel Guinato

17 de jun. de 2011

Momento



Uma espécie de céu
Um pedaço de mar
Uma mão que doeu
Um dia devagar
Um Domingo perfeito
Uma toalha no chão
Um caminho cansado
Um traço de avião
Uma sombra sozinha
Uma luz inquieta
Um desvio na rua
Uma voz de poeta

Uma garrafa vazia
Um cinzeiro apagado
Um hotel na esquina
Um sono acordado
Um secreto adeus
Um café a fechar
Um aviso na porta
Um bilhete no ar

Uma praça aberta
Uma rua perdida
Uma noite encantada
Para o resto da vida
Pedes-me um momento
Agarras as palavras
Escondes-te no tempo
Porque o tempo tem asas
Levas a cidade

Solta no cabelo
Perdes-te comigo
Porque o mundo é o momento
Uma estrada infinita

Um anuncio discreto
Uma curva fechada
Um poema deserto
Uma cidade distante
Um vestido molhado
Uma chuva divina

Um desejo apertado
Uma noite esquecida
Uma praia qualquer
Um suspiro escondido
Numa pele de mulher
Um encontro em segredo

Uma duna ancorada
Dois corpos despidos
Abraçados no nada
Uma estrela cadente
Um olhar que se afasta
Um choro escondido

Quando um beijo não basta
Um semáforo aberto

Um adeus para sempre
Uma ferida que dói
Não por fora, por dentro...



Pedro Abrunhosa

15 de jun. de 2011

Intemporal






















Nem sempre consigo
falar o que sinto
e deslizar
no teu corpo
lentamente
buscando
o brilho
onde te encanto

Por nós
a noite
faria um canto
intemporal

Uma canção
de amor e tanto

Nane

14 de jun. de 2011

Conto: O Amante Inglês


O avião lotado, ao meu lado um homem de 50 e poucos anos, sério, fechado, quase grudado á janelinha do avião, absorto em seus pensamentos. Um livro no colo, marcando uma página qualquer, abandonado á espera de atenção. No jantar servido no avião ele pede apenas vinho. Tinto.
Agradece e mergulha novamente em profunda melancolia. Ou será por alguém que acabara de deixar em algum hotel da cidade fria e agora distante?
“O sabor ainda na boca”. Talvez queira ficar assim alheio a tudo para aproveitar cada segundo a memória ainda fresca dos momentos bons. Num dos bolsos do casado não posso deixar de notar, displicente pende adorável uma fitinha vermelha de cetim. A calcinha?
O vinho e o jantar a meia luz do interior do avião e a longa demora até a chegada. Sono.Naturalmente tiro os scarpins vermelhos, dobro o tecido preto do meu vestido sobre os joelhos e me acomodo para fechar os olhos e descansar. Durmo.
Sinto mãos firmes tocarem meus pés delicadamente, quase com medo, quase sem tocar. As mãos sem pressa tateiam cada centímetro da pele nua no meio da escuridão e de umas poucas vozes. Não me mexo. Passiva. Quero ver até onde ele vai. O que pretende. Deve pensar que estou dormindo e não vou acordar. Um jogo perigoso. Até onde ele vai? Até onde permitirei? Terei eu limites?
Minutos depois de repente ele para. Segue para os fundos do avião. Eu vou atrás.
-Olá. Para onde você vai?
-Para Londres e você?
-Também. Eu vivo em Londres e você?
-Turista.
Trocamos telefone e nos beijamos. Os últimos assentos livres e vazios. Só nós dois. 
A carne lasciva e macia, alva, arranhada e mordida.
Os lábios carmim sangrando ainda famintos, doloridos.
Os seios fartos de tantos beijos de bocas e mãos ávidas e curiosas.
A única roupa que restou foi uma pequena blusinha que uso por baixo do vestido. Ele inteiramente nu sob a manta vermelha.
Sinto frio, frio que percorre a espinha. Corta. Os olhos lacrimejam. Luz! Dia! Abro os olhos. Estou no mesmo assento. O homem ao meu lado intocável e ausente.
Foi um sonho?!
Falta pouco para chegar ao aeroporto.  Ele me espera. Penso nos nossos planos, o coração aos pulos, louco de ansiedade, o corpo anseia pelos braços dele. Vida nova! Recomeçar!
Ao chegar ao aeroporto dois seguranças me chamam, saio da fila gigante, pedem meu passaporte. Um deles, loiro, alto de olhos azuis impenetráveis, cheira meu passaporte, olha para o outro segurança, moreno, magro e alto. Os dois sorriem e chamam uma tradutora.
Não entendi o que eles falaram. Não entendi o gesto de cheirar meu passaporte, nunca saberei. Não falaram inglês. Uma agente veio falar comigo, fez algumas perguntas e logo fui liberada, segui sem deixar de perceber o olhar atento do agente loiro.
Retirei as malas. Procurei por Edward. Não o vi na sala de desembarque. Esperei algum tempo, procurei com o olhar e nada. A multidão se retirava apressada e logo ficava um imenso vazio. Um homem alto, muito forte, olhos muito azuis me fez sinal. Sorriu feliz por me ver. Fiquei muito surpresa! Mais ainda quando ele se apresentou como Edward.
Fique em choque! Tão surpresa, tão sem chão que resolvi não fazer perguntas. No táxi a caminho do hotel tentava ainda entender quem era aquele homem. Era o Edward. Mas não o “meu” Edward.
Não vi a paisagem por onde passamos, não vi o nome do lugar, não ouvi o que Edward falava com o motorista do táxi.
- Senhor, por gentileza pare o carro.
-Não, é perigoso parar aqui, vamos até o hotel. Por favor, precisamos conversar.
Um mar azul, tão azul como nunca havia visto antes. Calor. 40 graus e casas brancas, todas brancas, lindas. Numa delas o taxista nos deixa meio desconfiado.
-Por favor, ouça-me. Eu amo você. Todo esse tempo eu sofri, queria falar a verdade, mas tive medo de perder você. Sempre enviei fotos minhas com meu irmão ao lado. Você gostou dele, da imagem dele, não tive coragem de falar que eu era o outro. Não imaginei que a nossa história fosse chegar até aqui.
-Você não poderia ter feito isso comigo. Você é um desconhecido para mim. Preciso sair, respirar, pensar.
Ele chora e ajoelha-se. Tira do bolso um anel solitário.
-Case-se comigo, prometo lhe fazer feliz.  Por favor, não me abandone.
Lágrimas dele.
Raiva, desprezo, desilusão, pena, medo.
E o “outro”? Onde ele está? Quem é ele? Como se chama? Senti saudades do outro que possivelmente não me conhece. Tentei raciocinar, entender, mas só queria fugir dali.
Fui até a praia. Tirei os sapatos e caminhei descalça pela areia solta. Não sei por quanto tempo caminhei sozinha sem rumo. Procuro cigarros na bolsa. Encontro o cartão do homem do avião. Garry.
O telefone chama, chama. Ninguém atende.
O telefone toca toca....ninguém atende, deixei recado.
O telefone toca, toca.
-Alô?
-Garry, você está sozinho agora?
-Sim. Onde você está?
-Perto. Posso ficar com você, só essa noite? Amanhã volto para casa.
Não fez perguntas. Abraçou-me apertado. Afeto.
Chorei nos braços dele que me desnudou calmamente entre lágrimas e beijos.
Amou-me, tocou-me, como se já me conhecesse há muito.
Como os homens conseguem fingir tão bem?
Tiveram aulas com Dom Juan “Faça cada mulher sentir-se única, amada, exclusiva”.
Acordei e todo pesadelo do dia anterior agora parecia não importar mais. Queria esquecer.
 Erro: Fingir, fugir dos problemas que atingem a alma profundamente.
Garry saiu. O notebook em cima da mesa da sala. Preciso antecipar a volta para casa. Faço login como visitante. No pano de fundo uma foto minha. Intrigada e surpresa abro a pasta de documentos. Já esperava. Todas as fotos que enviei para o Edward.
-Quem é esse homem? O que ele faz com minhas fotos aqui?  Eu nunca o vi antes do encontro no avião.
Numa das fotos Edward e Garry juntos. Sem saber com quem fiz planos, sem saber com quem falei todo esse tempo, sem saber direito o que aconteceu.
-Me perdoe. Eu sou irmão do Edward. O homem da foto é um amigo. Nada sabe sobre nossa história. Edward a ama. Eu também. Ele não sabe que estou aqui. Ele não sabe que muitas vezes falei com você usando o nome dele.
Não sabe que a amo desde que a vi. Sei que você vai me odiar e me deixar, mas, por favor, não nos abandone. Não fuja.  Abraçou-me por um longo tempo. Senti-me tão bem nos braços dele.
Uma paz que nunca senti antes. Senti seu coração bater apressado. Senti que queria ficar assim. Que não queria fugir mais de tudo e de todos. Fugir e não tentar.
O amor revela-se e quando tentamos negá-lo torna-se mais forte ainda.
A paixão nos faz ver o tamanho da nossa solidão!


Nane



































(...)Pelas tuas mãos medi o mundo
E na balança pura dos teus ombros
Pesei o ouro do Sol e a palidez da Lua(...)


(Sophia de Mello B)

12 de jun. de 2011

Dá-me tua nudez



Dá-me tua nudez,
Tua nudez úmida
Outorgada em pêlos e dobras,
Nas dobras desfeitas
De dez e mil lençóis.

Dá-me tua nudez,
Tua nudez traçada,
Declarada
em gotas e curvas,
Nas vidas desfeitas
Por uma ou tantas canções.

Dá-me tua nudez,
Tua nudez rasgada,
Marcada em veias e carnes,
Nos pactos esquecidos
De todas e outras juras.

Dá-me tua nudez,
Tua nudez faminta,
Destrancada de almas e corpos,
Nos sonhos destruídos
De meus e teus desejos.

Paulo Mont'Alverne

11 de jun. de 2011

Labirintos
















Meus
pés descalços
abrem caminhos
sem trilhas,
sem mapas.
Deixo-me cair
nos precipícios
do teu corpo
Em cada
queda
um vôo,
em cada
beijo,
veneno
a percorrer
meu sangue
e corpo

Deixo-me perder
em ti...


10 de jun. de 2011

Lui



Per persuadermi
al tuo amore
vieni da me
a sciogliere
questo nodo
d'angoscia.

Tu solo puoi.
Tu fitto
d'ali di laridi.

Guarda
siamo alti sul ramo
al sole del mattino.

E lasciamo perle
sul cammino,
dolci gocce
dell'ingano"

Annalisa Cima

9 de jun. de 2011

Quero




Quero
Nos teus quartos forrados de luar
Onde nenhum dos meus gestos faz barulho
Voltar.

E sentar-me um instante
Na beira da janela contra os astros
E olhando para dentro
comtemplar-te,
Tu dormindo antes de jamais
teres acordado,
Tu como um rio adormecido
e doce
Seguindo a voz do vento
e a voz do mar
Subindo as escadas
que sobem pelo ar.



Sophia de Mello Breyner Andressen

"A blue sea painted red the flight of seagulls"



Voando só
por mares e sonhos
procuro o sentido de todas as coisas
na brisa
na maresia
no gosto do mar na pele
e no calor do sol
despindo todos os sentidos...

7 de jun. de 2011

O Veneno da Serpente










 
A serpente negra rasga ao meio a planície verde em sinuosas curvas e retas infinitas aguçando a curiosidade de saber o que virá pela frente.

Casinhas simples quase invisíveis longe da rodovia, imagino como seria viver assim, longe do mundo, longe da vida que segue louca de passos apressados, de relógios atrozes e informações do que acontece no mundo. Um povoado logo aparece, essa mistura me fascina.

O sol suave do amanhecer, o carro deslizando pelo asfalto e a presença misteriosa dele.
Pouco fala.
Sorri meio nervoso ás vezes e parece distante como eu.

-Viajarei sozinho de qualquer forma. Você não conhece o país, será uma viagem agradável e logo estaremos de volta. Eu sei o que você está pensando, mas não se preocupe. Respeitarei você, só farei aquilo que você também quiser fazer.

-Frase fatal!

No hotel ele já havia reservado um quarto. Para casal.
Eu nada disse, fiz de conta que não notei a intenção dele. No quarto tomei um longo banho quente. Vesti algo confortável e sexy e naturalmente transamos como se fossemos amantes, namorados ou ficantes.

Cruzamos a fronteira e a diferença incrível que encontrei depois de atravessar “a ponte” me deixou perplexa. Um misto de espanto e medo. Muita terra vermelha, uma aparente sujeira e desorganização, pessoas estranhas, com olhares desconfiados e suspeitos.
Por um momento senti que não deveria estar ali. Fiquei sozinha num restaurante enquanto ele foi comprar algo numa loja ao lado.

Um homem com a pele queimada de sol, meio índio, meio chinês veio falar comigo.

-Hablas espanhol?
-Não
-Su amigo me pidió que lo lleve a él.

-Mas, onde ele está? Quem é você?
-Yo soy su amigo. Él tiene un problema y me pidió que cuidar y usted. Ven conmigo por favor.

Eu fui com ele, insegura e desconfiada. Um país estranho, um homem estranho.
Entramos no carro dele quando percebi que atravessamos novamente “a ponte”. Logo depois ele parou o carro num local movimentado. Sem dizer nada parou o carro, me mandou descer.

-Gracias a Dios para ser salvos. ¡Aléjate de aquí. No hablar con nadie. Su amigo no va a volver.

Olhei para os lados desesperada. Já estava fora daquele país estranho, mas muito longe de casa, sem dinheiro, sem minha mala, sem nada e com medo.
Muito medo!

Passei  horas parada, sentada num banco na beira da estrada.
Não sentía fome…pensava apenas em como voltar para casa.

Desamparo!

Não sei quanto tempo se passou, imagino que muito.
Um carro preto parou ao meu lado, dois homens se aproximaram, sem falar nada me seguraram um de cada lado e me levaram para dentro do carro que saiu em alta velocidade.

Pânico!
Não se falavam. Não reagi. Não sabia como agir.

Esperava pelo pior sem tentar me salvar não sei de quem.

O carro para em frente a um prédio cinza, austero e frio.
Poucos carros estacionados, pouca luz.

Numa sala pequena, escura e fría aguardo que algo aconteça. Vejo por uma fresta da porta que revistam uma mala, reconheço minhas roupas.
-Como podem estar com a minha mala? Quem são eles? Onde está Pedro?

Horas lentas e torturantes, frio, fome, sono…e mais medo.
-Su amigo es arrestado. Tráfico internacional de drogas. Tú vienes conmigo. Pidió que cuidar de ti
-Tráfico de drogas? Mas onde ele está? Quero falar com ele. Preciso da minha mala, preciso de dinheiro para voltar para casa.
-No puedo hablar ahora, todavía con el sheriff. Ven conmigo.

Os dois homens seguiram sem se falar,  se olhavam e sorriam cumplices.
Um sorriso asustador. 

O lugar era distante da cidade, uma pequena chácara no meio do nada.

 -Um lugar para descansar antes de voltar para casa, finalmente.

 A casa simples, vários quartos e um bar repleto de bebidas de todos os tipos.
Acenderam a lareira, me refugiei ali junto ao fogo.

Os dois homens logo saíram e me deixaram sozinha. Ouvi o carro se afastando e finalmente tive a sensação de que poderia descansar, estava exausta.
Me despi. A água quente da banheira massageando meu corpo e a dor indo embora, não pensei em nada..apenas relaxar um pouco, esquecer um pouco.

Levantei assustada e ainda nua. Um barulho na porta me fez despertar.

-Quatro homens entraram no quarto, bêbados, usando fardas, armados e com um olhar faminto, terrível, sorriam e se aproximavam mais e mais. Não entendia o que falavam, mas o pavor tomou conta de mim quando entendi o óbvio.
Não tentei fugir.



Abri os olhos e a primeira coisa que vi foram dois olhos cinzas e tristes.
As mãos que cuidavam dos ferimentos do meu rosto eram  enrugadas e escuras, mas suaves.

Uma dor lancinante tomou conta de mim, todo meu corpo era sangue e dor, manchas rochas e marcas de mordidas e arranhões.
-No se mueva, él tomará cuidado de usted niña.
-Quem é você? Quem fez isso comigo? Não entendo. Me ajuda, preciso voltar para casa.
-Tienes que salir de aquí. Si seguimos así van a "matar "a usted. Su amigo le dio a estos hombres a cambio de su libertad. Por favor, niña. Me ocupo de esta casa, no eres el primera en sufrir así. ¡Aléjate de aquí. Escape!

Desespero. Dor.

A manhã ainda está longe de chegar,  muito frio e ruas desertas. Apenas um vulto com uma capa de capuz negro anda sem rumo pelas ruas iluminadas por luzes cambaliantes e fantasmagóricas.
A bruma cobre tudo com seu manto gélido e silencioso.

 “A ponte”.

 Avisto a ponte muito próxima.
Não sei de qual lado da ponte estou.

No me país ou no país estranho. A ponte desliza como a serpente negra do asfalto, longa e infinita na  noite escura.
Com passos firmes caminho em sua direção.

Decidida a viver na ponte.
Debaixo da ponte
Sob a ponte
Sob a água...






Continua......................................

5 de jun. de 2011




"Trago
no olhar
visões extraordinárias,
de coisas que abracei
de olhos fechados..."

Florbela Espanca