14 de set. de 2008

Seu Pensamento
























A uma hora dessas
por onde estará seu pensamento
Terá os pés na terra
ou vento no cabelo?

A uma hora dessas
por onde andará seu pensamento
Dará voltas na Terra
ou no estacionamento?

Onde longe Londres Lisboa
ou na minha cama?

A uma hora dessas
por onde vagará seu pensamento
Terá os pés na areia
em pleno apartamento?

A uma hora dessas
por onde passará seu pensamento
Por dentro da minha saia
ou pelo firmamento?

Onde longe Leme Luanda
ou na minha cama?

Adriana Calcanhotto

12 de set. de 2008


O rio atravessou a tua face
e não levou com ele
essa doçura triste que exaspera
os homens solitários.

Não sei se alguém te teve nas estrelas,
sei que o merecerias
se ter-te assim pudesse ser real.


(N.D)


Eternamente para ti...

9 de set. de 2008

Uma Paixão



Visita-me enquanto não envelheço
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com teu rosto de Modigliani suicidado

tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores
vem

ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo
subindo à boca sulfurosa dos espelhos
vem

antes que desperte em mim o grito
de alguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro
perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infindável água
vem

com teu sabor de açúcar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te


Al Berto

5 de set. de 2008



O tempo, subitamente solto
pelas ruas e pelos dias
como a onda de uma tempestade
a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei
antes de te conhecer

Eram os teus olhos,
labirintos de água,
terra,
fogo,
ar,
que eu amava
quando imaginava que amava.

Era a tua
a tua voz que dizia
as palavras da vida.

Era o teu rosto,
era a tua pele.

Antes de te conhecer
existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens
que olhava ao fim da tarde,
muito longe de mim.

Dentro de mim,
JÁ eras tu a claridade.


José Luís Peixoto
(in A Criança em Ruínas)

28 de ago. de 2008

Teu nome mais secreto


Só eu sei teu nome mais secreto
Só eu penetro em tua noite escura
Cavo e extraio estrelas nuas
De tuas constelações cruas

Só meu sangue sabe tua seiva e senha
E irriga as margens cegas
De tuas elétricas ribeiras,
Sendas de tuas grutas ignotas

Não sei, não sei mais nada.
Só sei que canto de sede dos teus lábios
Não sei, não sei mais nada.


Adriana Calcanhotto/Waly Salomão

21 de ago. de 2008

Amado



Como pode ser gostar de alguém
E esse tal alguém não ser seu
Fico desejando nós gastando o mar
Pôr-do-sol, postal, mais ninguém

Peço tanto a Deus
Para esquecer
Mas só de pedir me lembro
Minha linda flor
Meu jasmim será
Meus melhores beijos serão seus

Sinto que você é ligado a mim
Sempre que estou indo, volto atrás
Estou entregue a ponto de estar sempre só
Esperando um sim ou nunca mais

É tanta graça lá fora passa
O tempo sem você
Mas pode sim
Ser sim amado e tudo acontecer

Sinto absoluto o dom de existir,
Não há solidão, nem pena
Nessa doação, milagres do amor
Sinto uma extensão divina

É tanta graça lá fora passa
O tempo sem você
Mas pode sim
Ser sim amado e tudo acontecer
Quero dançar com você
Dançar com você
Quero dançar com você
Dançar com você

Vanessa Da Mata

20 de ago. de 2008

Avesso



Deponho
suponho e
descrevo a
pulso
subindo
pela fímbria
do despido
porque nada
é verdade
se eu invento
o avesso daquilo
que é vestido...

Maria Teresa Horta

16 de ago. de 2008

Veludo


"...Num ímpeto de seiva os arvoredos fartos,
Numa opulenta fúria as novidades todas,
Como uma universal celebração de bodas,
Amaram-se!..."

(Cesário Verde)



Desce mansamente
do meu telhado o entardecer
misterioso e belo felino
desce sem pressa
pressinto sua chegada
luz da lua refletida
em seus olhos
enigma
pantera negra
que fascina
embriaga
entrego-me as carícias
de suas garras e ao veludo
do seu corpo Junto ao meu
sussurros
sons de flautas luminosas
na noite escura...

13 de ago. de 2008



É quando a chuva cai,
é quando olhado devagar
que brilha o corpo.
Para dizê-lo a boca
é muito pouco,
era preciso que também
as mãos vissem esse brilho,
dele fizessem
não só a música,
mas a casa.
Todas as palavras
falam desse lume,
sabem à pele
dessa luz molhada.

(Eugênio de Andrade)

11 de ago. de 2008



Há perguntas a que só nós mesmos
podemos responder
E não existem respostas
certas ou erradas
Apenas respostas

Sabemos que assim é
quando ficamos calados
As perguntas à espera
de respostas

E nós à espera
de palavras que digam
o que não conseguimos dizer

(Luís Ene)

Por que eu sei
que nas tuas palavras
desinteressadas
fervilham chamas
de desejo
a tua boca não diz
o que eu sinto no teu silêncio
no som nervoso do teu sorriso
e quando surge um pequeno silêncio
nós dois sabemos
o que na verdade gostaríamos de dizer
desejo-te
amo-te
quero-te para sempre
tu sabes

23 de jul. de 2008


"Não é o coração
mas esta carne
em seu rumor.

Não é o coração
mas teu silêncio
de intenso furor.

Não é o coração
mas as mãos
sem corpo, vazias.

Na grave melodia
de um instante
tu e eu
em desiquilíbrio
na infame
consistência
de um absoluto
obstáculo."

Ana Marques Gastão
(in Nocturnos)

19 de jul. de 2008


"Despe-me
ou deixa
que eu me dispa
e depois veste-me
pouco a pouco
de carícias"


Luís Ene

7 de jul. de 2008

"O sangue das vogais"



A palavra é uma estátua submersa,
um leopardo que estremece em escuros bosques,
uma anémona sobre uma cabeleira.
Por vezes é uma estrela
que projecta a sua sombra sobre um torso.

Ei-la sem destino no clamor da noite,
cega e nua, mas vibrante de desejo
como uma magnólia molhada.
Rápida é a boca que apenas aflora
os raios de uma outra luz.

Toco-lhe os subtis tornozelos,
os cabelos ardentes
e vejo uma água límpida
numa concha marinha.
É sempre um corpo amante e fugidio
que canta num mar musical
o sangue das vogais.

(António Ramos Rosa)

6 de jul. de 2008

Edyta Gorniak- Whatever It Takes



"Now I know you'll always be there for me"


"Encostei-me a ti,
sabendo bem que eras somente onda.
Sabendo bem que eras nuvem,
depus a minha vida em ti.

Como sabia bem tudo isso,
e dei-me ao teu destino frágil,
fiquei sem poder chorar,
quando caí."

(Cecília Meirelles)