16 de abr. de 2007

Para sempre...



"Iluminar
para sempre

Iluminar tudo

Iluminar
por toda
a eternidade

Iluminar e só

Este é o meu lema
E o do sol"


Vladimir Maiakovski

15 de abr. de 2007

Fruto proibido


Teu gosto

perpetua

toda a noite

no dia seguinte

Quando amo-

te inteiro

no mais requintado

sabor do desejo

da tua pele

vertente suculenta

doce fruto proibido

verde

intacto

inteiro


14 de abr. de 2007



O meu quarto

é mudo

e não tem

adornos

Apenas um

lençol branco

no chão e

Chopin rodopiando

entre as paredes

do quarto

nuas (as duas)



11 de abr. de 2007

Vem aos meus sonhos


Vem aos meus sonhos,

Faz em mim a tua casa.

Planta, em frente, a cerejeira dos

pássaros brancos,

deixa que eles pousem nos ramos e cantem

eternamente,

deixa que nas asas de luz eu leia o meu

nome,

antes de os relâmpagos ascenderem os prados.

Vem aos meus sonhos,

vê os labirintos por onde me perco,

vê os meus países do mar,

vê, em cada barco que parte do meu coração,

as viagens que não fiz

os amores que não tive,

a lua cruel da minha solidão.

(José Agostinho Baptista)

7 de abr. de 2007


Deslizou no meu rosto
O sal docíssimo de uma lágrima
derramando languidamente
brilho a rosa escarlate

Lábios trêmulos
na nudez da tua voz
adivinhando meu corpo
sílaba por sílaba
húmida pele marinha
pontuando suavidade de brisa

Na delicada ausência
renasce a febre
no céu da minha boca
que arde em seda e chama

Faz-se o milagre
e o meu céu
da boca
estremece
o teu sangue

6 de abr. de 2007

Noite


Sozinha estou

entre paredes

brancas

Pela janela

azul

entrou a noite

Com seu

rosto

altíssimo

de estrelas.



Sophia de Mello Breyner Andresen

4 de abr. de 2007

Eu te amo


Ah, se já perdemos a noção da hora.
Se juntos já jogamos tudo fora
Me conta agora como hei de partir
Ah, se ao te conhecer
Dei pra sonhar, fiz tantos desvarios


Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir
Se nós nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas


Diz com que pernas eu devo seguir
Se entornaste a nossa sorte pelo chão
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu


Como, se na desordem do armário embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu
Como, se nos amamos feito dois pagãos
Teus seios inda estão nas minhas mãos
Me explica com que cara eu vou sair


Não, acho que estás te fazendo de tonta
Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora conta como hei de partir.



Tom Jobim / Chico Buarque

2 de abr. de 2007


(...)Frémito
do meu corpo
a procurar-te,
Febre
das minhas mãos
na tua pele
Que cheira a âmbar,
a baunilha e a mel,
Doido anseio
dos meus braços
a abraçar-te
Olhos buscando
os teus
por toda a parte (...)
Florbela Espanca

29 de mar. de 2007

Porto



Chove
e todos as
ondas
agitam-se
dentro de mim

Há um porto vazio
a te esperar
ao amanhecer
de cada dia

Espero
ver
o sol brilhar
no teu olhar

25 de mar. de 2007

Sonho de amor


"Ter, a um sonho de amor,

o coração sujeito

é o mesmo que cravar

uma faca no peito.

Esta vida

é um punhal

com dois gumes fatais:

não amar é sofrer;

amar é sofrer mais"


Menotti Del Picchia

Magnólia


A Flor do Sonho, alvíssima, divina,
Miraculosamente abriu em mim,
Como se uma magnólia de cetim
Fosse florir num muro todo em ruína.

Pende em meu seio a haste branda e fina
E não posso entender como é que, enfim,
Essa tão rara flor abriu assim!...
Milagre... fantasia... ou, talvez, sina...

Ó Flor que em mim nasceste sem abrolhos,
Que tem que sejam tristes os meus olhos
Se eles são tristes pelo amor de ti?!...
Desde que em mim nasceste em noite calma,
Voou ao longe a asa de minh'alma

E nunca, nunca mais eu me entendi...

Florbela Espanca, in Sonetos

19 de mar. de 2007

Quarto de veludo


Abandonas-me ferida
Presa
No declive estonteante
da vertigem
Quando a chuva desce
suave
pela janela
e todas as rosas
murmuram teu nome
Fios de chuvas
transparentes e frias
um exército de teias altas
que enlaçam meu corpo
mas não prendem
Desço lentamente
ao vazio aturdido
do silêncio
do meu quarto de veludo

17 de mar. de 2007

Beijo do vento


Nos meus lábios
rubros do teu desejo

nascem pétalas
que o vento

vem e beija
deixando marcas

de sal na pele
a embriaguez

do toque

incendiando

meu desejo


15 de mar. de 2007

In D'Alfange


Aqui cantaste nua.
Aqui bebeste a planicie, a lua,
e ao vento deste os olhos a beber.

Aqui abandonaste as mãos
a tudo o que não chega a acontecer.

Aqui vieram bailar as estações
e com elas tu bailaste.

Aqui mordeste os seios por abrir,
fechaste o corpo à sede das searas
e no lume de ti própria te queimaste.

"Na varanda de Florbela"
Eugénio de Andrade

14 de mar. de 2007

A Máquina Lírica 2



Nem sempre me incendeia
o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.
- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado
de silêncio diurno,
a noite imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem
meus corações de sal e de brandura.

Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz
como a espada se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distãncia amarga,
a lua estiola, a paisagem regressa ao ventre,
tempo se desfibra - invento para ti a música,
a loucura, e o mar.

Toco o peso da tua vida: a carne que fulge,
o sorriso, a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos
com mesa e harpa.

Vou para ti com a beleza partida,
os ombros violados,
o sangue penetrado de paredes nuas.

Digo: eu sou a beleza,
seu rosto e seu durar.
Teus olhos se transfiguram,
tuas mãos descobrem
sombra da minha face.
Agarro tua cabeça áspera e luminosa,
e digo: ouves, meu amor?
eu sou aquilo que se espera para as coisas,
para o tempo
Inteira, tua vida o deseja.
Para mim se erguem teus olhos de longe.
Tu própria me duras
em minha velada beleza.
A Máquina Lírica
Poesia Toda
Herberto Helder

A Máquina Lírica



As letras
dormiam
na noite
inclinada,
e eram silveiras
bravas.

Por elas
escorregava
o sono
inclinado:
mercúrio,
salsa leve...

A Máquina Lírica
Poesia Toda
Herberto Helder

10 de mar. de 2007

É tempo de me veres




Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,
Sacode as aves que te levam o olhar.
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.

Porque eu cheguei e é tempo de me veres,
Mesmo que os meus gestos te trespassem
De solidão e tu caias em poeira,
Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras
E os teus olhos nunca mais possam olhar.

Sophia de Mello Breyner Andresen